Reprodução YouTube
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Quem é a rapper acusada de roubar bilhões em criptomoedas, conhecida como ‘Crocodilo de Wall Street'

Heather Morgan fazia rap com temas como investir em ações de memes e como lidar com a pandemia de covid-19

María Luisa Paúl, The Washington Post

16 de fevereiro de 2022 | 10h00

Demorou três dias para a Netflix encomendar um documentário sobre ela, mas as redes sociais de uma mulher vêm contando histórias malucas há anos.

Heather Morgan, 31 anos, assim como o marido, com quem fazia dupla, foi acusada na semana passada de planejar ações para lavar 119.754 bitcoins, um valor que equivale a cerca de US$ 4,5 bilhões; levando o serviço de streaming a contratar um produtor executivo da série “Tiger King” para dirigir um seriado a ser lançado sobre o casal. Heather e Ilya Lichtenstein, 34 anos, são acusados de tentar lavar a criptomoeda roubada depois de um hacker invadir a exchange Bitfinex em 2016 e iniciar mais de duas mil transações não autorizadas. Os promotores disseram que o bitcoin foi enviado para uma carteira digital controlada por Lichtenstein.

Heather e Lichtenstein estão sob custódia aguardando uma audiência marcada para esta semana. O advogado deles não respondeu aos convites para participarem desta matéria.

A investigação contou com a maior apreensão de dinheiro na história do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, porém o que mais chamou a atenção na Internet foram as duas personas um tanto diferentes de Heather: a primeira como uma empreendedora de tecnologia bem-sucedida e determinada e a outra como ela mesmo se autodenominava “Crocodile of Wall Street” (Crocodilo de Wall Street) fazendo rap com temas como investir em ações de memes, lidar com a pandemia de covid-19 e ficar chapado em um cemitério.

Lichtenstein é menos ativo na Internet que a esposa; ele se descreveu como um “empreendedor da tecnologia, explorador e, às vezes, mágico” em uma postagem de blog em 2018. De acordo com documentos do processo, ele tem cidadania russa e americana, e cresceu em Glenview, Illinois, um subúrbio de Chicago. Ele estudou na Universidade de Wisconsin-Madison e cofundou a MixRank, uma empresa de vendas financiada no início pela Y Combinator e por investidores como Mark Cuban, segundo o site da empresa.

As manifestações públicas de Lichtenstein incluem os ocasionais tuítes com temas de tecnologia, mas Heather tem uma presença de maior destaque nas redes sociais, vendendo a si mesma como uma rapper surrealista que tem “mais energia” do que Genghis Khan em suas postagens e ao mesmo tempo explorando sua imagem mais séria como influenciadora de negócios e especialista em marketing.

Califórnia, Egito e Hong Kong

Antes de estrear como Razzlekhan, sua persona do rap, Heather cresceu em Tehama, uma cidade com cerca de 400 habitantes no norte da Califórnia, de acordo com os documentos judiciais.

Depois de se formar com notas de destaque, mudou-se para o Cairo – onde trabalhou no Banco Mundial, de acordo com seu perfil no LinkedIn – e, depois, para Hong Kong.

Ela era uma estudante de economia “muito motivada, muito brilhante e muito ambiciosa”, disse Travis Lybbert, professor de economia da Universidade da Califórnia, em Davis, que a contratou como assistente de pesquisa não remunerada em 2011, depois que ela terminou a graduação.

Suas interações aconteceram por videochamadas, mas Lybbert detectou “uma inquietação nela, profissionalmente”. Ela tinha um conhecimento impressionante do Oriente Médio e planejava trabalhar na área de economia de desenvolvimento. Depois de um tempo, eles escreveram juntos um capítulo de livro cujo tema era segurança alimentar e estabilidade sociopolítica.

“Profissionalmente, ela era muito tranquila, mas havia uma espécie de avidez por parte dela de encontrar e aproveitar oportunidades”, disse ele.

Lybbert lembra-se de uma jovem elegante e bem vestida, uma imagem que contrasta com sua persona do rap de jaqueta dourada que se exibe por Nova York enquanto canta “an anthem for misfits and weirdos” (um hino para desajustados e esquisitos) em um vídeo de sua música de 2019 “Versace Bedouin”. Mas o professor disse que via vestígios de uma Heather “que sempre se importou com sua aparência”.

“Como profissional jovem, espera-se que você apresente uma certa imagem de aspiração, sucesso e capacidade. E ela era boa nisso”, disse Lybbert. “Ao olhar as fotos, tenho a impressão de que ela ainda tem o mesmo cuidado de se apresentar de uma determinada maneira para o mundo. Mas ela está se apresentando para talvez um mundo diferente e com objetivos diferentes.”

Marketing e rap

Em 2014, Heather – que vivia em São Francisco – fundou a SalesFolk, uma empresa de marketing dedicada a fazer propostas por e-mail, de acordo com registros apresentados na Califórnia.  Um ano antes, ela conheceu o futuro marido em uma festa, segundo uma publicação no perfil do Facebook de Lichtenstein mostrada ao Post por um de seus amigos do ensino médio. Esta e outras publicações de Lichtenstein não estavam disponíveis para visualização pública.

Mas Heather disse que decidiu seguir a carreira no rap enquanto estava tratando uma crise de exaustão profissional em 2018.

“De repente, tudo começou a desmoronar durante uma viagem de negócios à Ásia”, ela escreveu em um artigo para a Forbes de 2019. Inspirada por artistas como Yolandi, Awkwafina e Tierra Whack – “que pareciam romper com os padrões e ‘se orgulharem de suas estranhezas’”, ela escreveu – Heather tentou pela primeira vez uma carreira diferente.

“Eu queria fazer isso também”, escreveu Heather. “Eu queria desesperadamente uma chance de me expressar de forma autêntica e criativa, sem todas as restrições do mundo corporativo.”

As músicas de Heather são tão atrevidas quanto excêntricas (uma rima “romance de Jane Austen” com “aula de taxidermia”). Mas uma dualidade faz parte de seu repertório musical que inclui temas sérios, como cuidados com a saúde, com canções mais bobas com pedidos para um gênio da lâmpada.

“Sem dúvidas não estou tentando ganhar um Grammy pela minha voz, mas sou viciada em rap”, escreveu Heather em 2019. “Sei que ainda tenho muito a melhorar, mas é disso que gosto e pretendo continuar fazendo até meus 80 anos, nos intervalos em que não estou desenvolvendo novos softwares.”

"Estranha, chamativa e colorida”

A coexistência das personalidades de Heather chocou alguns que a conheciam apenas como Razzlekhan.

“Não era que ela fosse estranha – era mais como se ela estivesse fazendo um enorme esforço para não ser tradicional e parecer estranha”, disse Dan, fotógrafo de Nova Jersey que falou com o Washington Post com a condição de que apenas seu primeiro nome fosse usado porque ele temia uma reação profissional por se manifestar a respeito de um cliente em potencial. Os dois não trabalharam juntos, disse ele, em parte por causa das “ideias bizarras” dela e também porque ele estava ocupado com outros projetos.

Haether entrou em contato com ele no ano passado para perguntar se Dan poderia fazer o ensaio de seu noivado e outras imagens para celebrar seu casamento. Ela queria uma “vibe que lembrasse uma comédia de terror sexy com uma perspectiva romântica e um toque de absurdo e grosseria pontual”, ela escreveu em uma mensagem para ele. Na proposta, Heather – referindo-se a si mesma como Razzlekhan – descreveu-se como sendo “a mais estranha, chamativa e colorida”. Lichtenstein – a quem ela chamou de “Dutch” (holandês) na mensagem – “veste mais cinza e preto, mas algumas vezes couro”, escreveu.

Suas ideias incluíam “fotos estranhas de casal com um toque surreal”, disse Dan, como posar com uma banana e vários totens de papelão deles mesmos em tamanho real.

“A mais interessante – acho que podemos chamar assim”, disse o fotógrafo enquanto lia a proposta, “era uma foto em formato de quadrado de Dutch e todas as suas esposas photoshopadas juntas. Basicamente Heather como ela mesma e Razzlekhan e vários outros personagens que ela interpreta com perucas... resumindo, todas agarrando-o ou tocando-o de várias maneiras.”

Mas a maior surpresa, disse Dan, veio depois de uma busca no Google. Tentando entender alguém que ele descreveu como “uma obra de arte pós-moderna que simplesmente não existe na realidade atual”, Dan descobriu o lado profissional e voltado para os negócios de Heather – aquele espalhado pela enorme quantidade de artigos que ela escreveu como colaboradora da Forbes e da Inc.com.

“Descobrir aquilo tudo foi um choque e tanto”, disse ele. “Deparei-me com aquela empreendedora aparentemente super profissional e inteligente escrevendo para sites respeitáveis sobre negócios. Simplesmente não fazia sentido como ela era, ao mesmo tempo, tão feliz em seu próprio mundo, ignorando as normas da sociedade. É sinceramente chocante.”

Artigo sobre cibercriminosos

O porta-voz da Forbes, Bill Hankes, disse que Heather foi colaboradora da publicação de julho de 2017 a setembro de 2021, “quando encerramos nosso relacionamento com ela”. Durante o período, Heather escreveu mais de 55 artigos que incluíam tópicos como o “alimento para a alma” oferecido no baile de gala do Met no ano passado e o “molho secreto” de um empresário para criar empresas de bilhões de dólares.

Pelo menos um desses artigos, que incluía dicas para ajudar as empresas a se protegerem dos cibercriminosos, abordou um tópico relacionado às denúncias que a levaram aos holofotes na semana passada.

“As empresas que ainda não tinham equipes trabalhando remotamente ou não ofereciam a opção de trabalhar de casa têm tido dificuldades para fazer a transição completa em meio à pandemia”, escreveu Heather em 2020. “Os cibercriminosos e golpistas estão aproveitando esse transtorno inesperado, levando a um aumento nos golpes e nos crimes cibernéticos.”

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