Crise - a marcha da insensatez

Há uma evidente insatisfação do mercado com o modelo econômico adotado no País nos últimos dois anos, denominado "Nova Matriz Econômica", que resultou em baixo crescimento e inflação elevada. Está cada vez mais difícil para o governo encontrar culpados pelo mau desempenho da economia nacional.

NATHAN BLANCHE,

07 de julho de 2013 | 02h10

É um engodo atribuir as falácias dos últimos dois anos à conjuntura internacional. Os dados apontam que, em termos de crescimento econômico e inflação, o Brasil se descola de alguns países da América Latina, como México, Chile e Colômbia.

O fluxo médio de comércio exterior desses países é de 50% do produto interno bruto (PIB), enquanto o grau de abertura do Brasil continua perto de 20% do PIB. Os acordos de livre-comércio desses países englobam mais de 40 nações, enquanto os nossos se resumem ao Mercosul. A variação da produtividade do trabalho no Brasil em 2012 ficou em -0,7%, enquanto a média dos três países foi de +2,5%.

O fluxo da balança comercial está negativo, entre janeiro e junho, em US$ 3 bilhões (ante +US$ 7,1 bilhões no mesmo período de 2012) e o saldo do balanço de pagamentos acumulado até maio foi positivo em apenas US$ 7,6 bilhões (ante US$ 21,2 bilhões no mesmo período de 2012). As dificuldades de financiamento externo aumentaram após as mudanças das expectativas positivas para os EUA e as declarações do Federal Reserve (Fed) sobre a possível reversão dos programas de expansão monetária. Adicionalmente, em junho as empresas de classificação de risco S&P e Fitch atribuíram viés negativo ao Brasil.

Nos últimos seis anos, as necessidades de financiamento das contas correntes foram mais de 100% cobertas por IED. De janeiro a maio de 2013 esses investimentos financiaram apenas 58% do déficit. As necessidades de financiamento externo previstas para 2013 e 2014 somam US$ 113,7 bilhões e US$ 119,5 bilhões, nessa ordem. Atualmente, o prêmio de risco do Brasil (CDS de cinco anos) sofreu elevação de 110 pontos no início de maio de 2013 para 210 pontos em 21 de junho. Adicionalmente, o real está entre as quatro moedas que mais se desvalorizaram no último trimestre.

Diante da deterioração das contas externas, o temor da Fazenda quanto aos impactos do real mais desvalorizado perante o dólar levou à revogação de medidas tributárias (IOF) e normativas que constituíam barreiras à entrada de capital estrangeiro, inclusive para o mercado de derivativos. O problema central do Brasil associado às contas externas é o baixo nível de poupança doméstica (14,8% do PIB em 2012), que limita o crescimento à capacidade de captação de poupança externa. Com a piora dos fluxos estrangeiros a conta corrente, que já está em -3,2% do PIB no acumulado em 12 meses até maio, não mais pode avançar, reduzindo a possibilidade de expansão do investimento e do crescimento doméstico. Nesse cenário, as pressões de desvalorização sobre o real devem continuar.

Por fim, não se vê a possibilidade de o governo emitir uma nova Carta ao Povo Brasileiro, restabelecendo o tripé de política macroeconômica do crescimento sustentável de FHC e Lula. A volta de políticas monetárias mais contracionistas e a retirada dos controles cambiais devem ajudar a suavizar a piora da economia, evitando rupturas no curto prazo. Já o ímpeto expansionista nas contas públicas é preocupante, sobretudo diante das novas medidas do endividamento público em prol do BNDES e da Caixa. A "fabricação" de receitas primárias por meio da geração de fluxos de dividendos só faz ampliar o receio com relação à inflação.

A manutenção da ambiguidade entre a política monetária ativa e a política fiscal expansionista é o problema central da "Nova Matriz Econômica". Os resultados mostram que reduzir os juros e promover a desvalorização da taxa de câmbio por decreto não constituem o caminho para o desenvolvimento econômico e dos ganhos de competitividade.

As idiossincrasias do regime econômico desenvolvimentista adotado pela presidente Dilma apontam numa direção perigosa, que pode limitar ainda mais o crescimento potencial de médio e de longo prazos. Na ausência de medidas que permitam ampliar a poupança doméstica, dificilmente será possível expandir a capacidade de geração de renda e riqueza da economia brasileira.

NATHAN BLANCHE É SÓCIO-DIRETOR DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA INTEGRADA

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