Crise abala mais uma vez a Bolsa e arrasta corretoras

Fuga de investidores deve acelerar o desaparecimento de corretoras de valores no País, muitas delas por meio de fusões e aquisições

Fábio Alves, de O Estado de S.Paulo,

19 de novembro de 2011 | 22h00

SÃO PAULO - "Para mim é como um videotape: já passei por várias crises", explica Raymundo Magliano Filho, 69 anos de idade, apontando para um quadro emoldurado na parede onde se vê um gráfico do desempenho da bolsa brasileira pontilhado pelos principais acontecimentos políticos e econômicos mundiais desde a década de 60.

Para Magliano, dono da corretora fundada pelo seu pai em 1927, a primeira da Bovespa, a crise atual não é nem de longe a pior desde que começou a operar com ações há 53 anos, mas exigirá mudanças estratégicas para que a Magliano Corretora sobreviva ao que muitos preveem como o processo de consolidação nunca antes visto no setor.

A crise da dívida soberana da zona do euro, o colapso fiscal dos Estados Unidos e a desaceleração nos países desenvolvidos afugentaram os investidores de ativos de maior risco, como as ações, derrubando o volume negociado na bolsa e a receita com a intermediação de papéis, o que deverá acelerar o desaparecimento de corretoras de valores no Brasil, muitas das quais por meio de fusões e aquisições.

"O ano de 2012 será um marco no mercado de corretagem no Brasil: será o ano da consolidação", afirma o CEO da corretora Icap Brasil, Alan Gandelman. Para ele, ao final desse processo de consolidação, que já começou, restarão apenas cerca de 30 corretoras de 123 que operam ativamente no mercado hoje, sendo 78 delas nos segmentos BM&F (contratos futuros e derivativos) e Bovespa (renda variável e renda fixa), 11 apenas na BM&F e 34 apenas na Bovespa.

A bolsa brasileira acumula queda de 18,78% neste ano até o fechamento de sexta-feira, depois de ter subido apenas 1,05% em 2010. Comparado com o pico do índice Bovespa, de 73.516,8 pontos, atingido em maio de 2008 - pouco antes do colapso do Lehman Brothers -, a perda das ações brasileiras é de quase 24%.

Nesse ambiente desanimador para os preços das ações, o volume negociado apenas no segmento de renda variável da BM&FBovespa caiu mais de 26% em setembro, para R$ 131,4 bilhões, ante o mês anterior e 6,8% comparado com igual mês de 2010.

Para Magliano, que foi presidente da Bovespa de 2001 a 2007, quando priorizou a popularização do investimento em ações, a crise deflagrada em 2008, apesar de aguda, não terá o efeito tão prolongado como, por exemplo, o estouro da bolha do mercado de capitais no Brasil no início da década de 70.

Também conhecido como o "boom de 1971", as bolsas do Rio e de São Paulo dispararam com as medidas para incentivar a aplicação em ações, a exemplo dos antigos fundos 157, nos quais os contribuintes poderiam aplicar parte do Imposto de Renda. "Com aquela crise, o mercado acionário perdeu a credibilidade perante o público e os efeitos da quebra se prolongaram por muitos anos", lembra Magliano.

"Várias corretoras tiveram de fechar as portas, os prejuízos foram grandes e nós, por exemplo, tivemos de viver por muito tempo apenas de operações de câmbio e de renda fixa, negociando bônus rotativos, apólices da prefeitura, dívidas estaduais e municipais", diz ele.

Outro tempo difícil, segundo ele, foi o confisco da poupança no governo Collor, na década de 90, quando o impacto no mercado acionário forçou sua corretora a reduzir o número de empregados de 468 para cerca de 160.

Com a perspectiva agora nada animadora de valorização das ações, num ambiente de desaceleração econômica e de queda nos lucros das empresas, fica mais difícil convencer novos investidores. A BM&FBovespa já adiou para 2018 a meta de atrair 5 milhões de investidores pessoa física entre 2010 e 2015. Hoje, há 593.311 investidores pessoa física registrados na bolsa. Mas esse número vem caindo, pois ao final de 2010 o total de investidores individuais era de 610.915.

Consolidação. Nesse contexto, Gandelman, da Icap Brasil, lista três perfis de corretoras que deverão continuar com as portas abertas ao final do processo de consolidação: as ligadas a bancos ou grandes instituições financeiras; as com suporte tecnológico e de capilaridade de um grupo estrangeiro, como é o caso da Icap; e as tradicionais locais, com base ampla de clientes.

No segmento Bovespa, por exemplo, as 30 maiores corretoras têm 88,7% do volume negociado, enquanto no segmento BM&F, de contratos futuros e de derivativos, as 20 maiores têm quase 92% do mercado.

A aposta de analistas é que as corretoras ligadas a bancos e a grupos estrangeiros atuarão como "full broker", ou seja, oferecerão os serviços completos de uma corretora de valores. Já as independentes terão de se especializar em um nicho de mercado e não mais concorrer com o leque completo de serviços. "A consolidação é irreversível e saudável para o mercado", diz o diretor da Bradesco Corretora, Anibal Cesar Jesus dos Santos. "A crise financeira já está fazendo com que isso aconteça."

A Bradesco Corretora, no mercado desde 1967, criou o Bradesco BBI e a área de pesquisa para oferecer relatórios estruturados e atender não somente a clientes de varejo, mas também a investidores institucionais locais e estrangeiros. "Entendemos que o foco em produtos e serviços, mais a área de pesquisa forte e reconhecida, fará a diferença entre as corretoras", diz Santos.

O número excessivo de corretoras no mercado acionário ainda é reflexo do período em que a Bovespa e a BM&F foram transformadas em sociedades anônimas, num processo chamado de "desmutualização" resultando em enorme capitalização das corretoras que detinham títulos patrimoniais, ou cartas-patentes que lhes davam o direito de negociar nas bolsas. Depois do anúncio de abertura de capital, os títulos patrimoniais da Bovespa, por exemplo, chegaram a ser negociados em 2007 a um valor sete vezes maior que o valor de face.

"Por mais que se tenha ganhado com a desmutualização das bolsas, ninguém vai ficar queimando dinheiro em ambiente de mercado adverso", diz Gandelman. A icap, segundo ele, está no lado comprador do processo de consolidação e a recente demissão de 60 funcionários não significa retrocesso dos planos da corretora britânica no País, e sim um processo de corte de gorduras, corriqueiro após fusões, quando há ganho de sinergias.

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