Crise abate a Nascimento Turismo

Uma das maiores e mais antigas operadoras de turismo do Brasil entrou com pedido de recuperação judicial e suspendeu vendas

MÁRCIA DE CHIARA, ANNA CAROLINA PAPP, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2015 | 02h04

A crise levou a Nascimento Turismo, uma das maiores e mais antigas agências do País, fundada em 1961, a pedir recuperação judicial. A companhia, que faturou em 2014 R$ 350 milhões e embarcou mais de 110 mil passageiros - mais da metade para destinos internacionais - entrou na quarta-feira com pedido no Tribunal de Justiça de São Paulo.

Em comunicado oficial, a empresa disse que tomou essa decisão porque "a exemplo de demais companhias em diversos segmentos da economia, foi impactada pelas crises que o País atravessa: segurança, hídrica, energética, econômica e, a pior de todas, a crise de confiabilidade". Mas em entrevista ao site Panrotas, especializado em turismo, o presidente e fundador da empresa, Eduardo Nascimento, apontou que o maior problema enfrentado pela empresa foi o corte de crédito de fornecedores internacionais, que afetou o fluxo de caixa. Segundo Nascimento, cerca de 300 passageiros com bilhetes emitidos não terão hotel.

"O câmbio, combinado com a diminuição das vendas, pode ter afetado a empresa", disse o presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagens (Abav), Antonio Azevedo. Prejudicadas pelo dólar, que se valorizou quase 15% em relação ao real só este ano, as vendas de pacotes turísticos para os Estados Unidos no mercado caíram 10% do 1.º para o 2.º trimestre, disse Azevedo. Junto com o Caribe, esse é o principal destino operado pela companhia.

Somado a isso, fontes do mercado disseram que a empresa teria sido pega no contrapé com a desvalorização do real porque não teria feito hedge para se proteger da alta do dólar.

Para o presidente da Abav-SP, Francisco Leme, "o caso da Nascimento é pontual". Mas ele ponderou que fatores conjunturais, também teriam afetado o desempenho da empresa.

Consultores especializados em turismo lembraram, no entanto, que o modelo de negócio do setor sofreu nos últimos dez anos uma brusca mudança com o avanço da venda de passagens e de pacotes pela internet. E as empresas que não mudaram a forma de operar estariam pagando o preço da resistência.

No início deste ano, a direção da Nascimento informou ao mercado que, após 11 meses de aproximação, as negociações entre a empresa e a CVC para venda foram encerradas. Procurada, a CVC não comentou.

Consumidor. Segundo o presidente da Abav nacional, o problema para os clientes que compraram pacotes com a Nascimento está na parte terrestre. A agência informou que os bilhetes aéreos e marítimos foram pagos, mas o mesmo não ocorreu com a parte terrestre, que inclui hotéis e passeios.

Ontem, as associações do setor de turismo (Abav nacional, Abav-SP, Abracorp, Braztoa, Abremar e Aviesp) se reuniram em São Paulo para orientar as agências de viagens, as operadoras de turismo e os clientes que compraram pacotes da Nascimento. De acordo com as entidades, a intenção é tentar renegociar com os hotéis e as prestadoras de serviços terrestres para atender os viajantes.

Antonio Azevedo, da Abav, disse que uma das saídas é que o cliente ou a operadora assuma o custo do terrestre e depois busque o ressarcimento com a Nascimento. Leila Cordeiro, assistente técnica da Fundação Procon-SP, enfatizou que "de jeito nenhum" os clientes ou as operadoras devem arcar com esse ônus./ COLABOROU MÔNICA SCARAMUZZO

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