Crise aérea abate nove empresas

A recessão nos EUA e a alta do preço do combustível estão provocando uma crise parecida com a de 2001

Mariana Barbosa, O Estadao de S.Paulo

22 de abril de 2008 | 00h00

A combinação inédita de retração econômica nos Estados Unidos com preço recorde do petróleo já fez nove vitimas no setor este ano, a maioria empresas pequenas ou novatas que entraram com pedido de falência ou de recuperação judicial. Muitas são americanas, como Frontier, Skybus, Aloha e MaxJet, mas a crise se espalha por todo lado, com o fechamento da Oasis de Hong Kong e da Adam Air, da Indonésia. As companhias aéreas deverão desembolsar US$ 156 bilhões com querosene de aviação este ano, valor que corresponde a quatro vezes o que foi gasto em 2002. Nos últimos doze meses, o combustível, que responde por 30% a 40% dos custos de uma companhia aérea, subiu 69% em média. "O combustível é o sangue das companhias", afirma Respício do Espírito Santo Filho, presidente do Instituto Cepta, especializado em estudos do transporte aéreo. "Se a situação perdurar, não será de surpreender que a gente venha a assistir um quebra-quebra tipo pós-11 de setembro." No Brasil, o impacto só não é maior pois a apreciação do real tem compensado o aumento de custo de combustível. A Varig e a OceanAir, que já eram muito pouco competitivas no mercado internacional, cancelaram recentemente suas rotas de longo curso alegando aumento dos custo com combustível. "Para quem é competitivo, o mercado de longo curso é bem rentável", afirma o vice-presidente da consultoria Bain&Company, André Castellini.Setor que movimenta US$ 500 bilhões em todo o mundo, a aviação amargou perdas de US$ 42 bilhões desde 2000, mas em 2007 reverteu a situação e comemorou um lucro de US$ 5,6 bilhões. A demanda, no ano passado, cresceu 7,4%. As previsões da International Air Transport Association (IATA) para 2008 já foram bastante otimistas: até meados do ano passado, falava-se em um lucro global de US$ 7,8 bilhões. A entidade, que representa as companhias aéreas de todo o mundo, reviu recentemente essa previsão para US$ 4,5 bilhões e avisa que poderá revê-la novamente. Pela conta atual, o crescimento da demanda não deve passar de 5%, puxado principalmente pelo crescimento na China, Oriente Médio e América Latina. No Brasil, a previsão da indústria é de um crescimento da ordem de 12%.Nos EUA, onde a situação é mais crítica, o banco JP Morgan prevê perdas de US$ 4 bilhões a US$ 9 bilhões, com uma queda de demanda da ordem de 6-7%. A única empresa que não deve ter prejuízo este ano, segundo o banco, é a Southwest. A disparada dos custos com combustível começa a ofuscar os ganhos de eficiência alcançados pela indústria nos últimos anos. Com a crise do 11 de setembro, e o aumento da competição com o surgimento das companhias de baixo custo, o setor buscou obter ganhos de produtividade. Segundo a IATA, a produtividade trabalhista aumentou 64% e o houve uma redução de 18% nos custos unitários (excluindo combustível). Os avanços tecnológicos foram significativos. A partir de abril, o bilhete eletrônico (e-ticket), será utilizado por 100% da indústria, garantindo uma economia de US$ 3 bilhões. Com a crise do início da década, as companhias americanas que entraram em recuperação judicial conseguiram economizar US$ 7 bilhões em acordos trabalhistas. Os resultados, do ponto de vista do passageiro, foram, passagens mais baratas, por um lado, e aviões apertados e mais atrasos e cancelamentos, de outro.A crise deve detonar uma onda de fusões e aquisições no setor aéreo. Além da fusão da Delta com a Northwest, anunciada na semana passada, outras companhias estão conversando, como United e Continental. "As americanas são grandes no mercado doméstico, mas nem tanto no internacional. Para competir com as européias e ganhar dinheiro na política de céus abertos (entre Europa e Estados Unidos), elas precisam ganhar musculatura", explica Espírito Santo. No curto prazo, as companhias tentam minimizar os prejuízos com o reajuste de tarifas e a cobrança de por serviços extras. "A demanda por transporte só cresce, mas o preço do petróleo está limitando o crescimento", afirma Castellini. "E como o petróleo não deve voltar ao nível de US$ 40, esse é um problema de médio e longo prazo."

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