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Crise afeta bancos privados e calotes devem crescer em 2016

Inadimplência está subindo por causa da recessão e faz os bancos reavaliarem as projeções de expansão do crédito

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2016 | 20h00

Os grandes bancos privados sentiram de forma mais intensa a recessão do Brasil no final de 2015, quando viram seu lucro líquido e os empréstimos encolherem no fechamento do quarto trimestre ante o terceiro. Diante da deterioração mais intensa dos indicadores econômicos, os calotes subiram, puxando para cima as despesas com provisões para devedores duvidosos (PDDs) e sinalizando que além de baixa demanda, o ciclo de crédito atual pode ter o risco ainda mais deteriorado ao longo de 2016.

No comparativo anual, ainda foi possível entregar um resultado crescente, mas em contínua desaceleração. Juntos, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander registraram lucro líquido de R$ 11,658 bilhões no quarto trimestre, cifra 5,66% maior que a vista 12 meses antes, de R$ 11,034 bilhões. Se considerados ajustes, o resultado foi 10,9% maior. Em 2015, no entanto, a alta de dois dígitos ainda foi mantida. O resultado líquido dos três maiores bancos do País cresceu 14,55% em relação a 2014, totalizando R$ 47,2 bilhões.

"Banco é reflexo da atividade econômica. Os bancos também perdem com a recessão. A inadimplência está subindo por conta da recessão no Brasil. Todos estão vendendo menos e isso se reflete numa menor demanda por crédito", avaliou Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco, durante coletiva de imprensa, nesta tarde.

Diante dos sinais de maior fragilidade da economia brasileira, os grandes bancos privados optaram por traçar metas mais tímidas para 2016, além de fornecerem um maior detalhamento do cenário que trabalham a frente. O Itaú, que abriu hoje seus números, adotou, como de costume, uma dose maior de conservadorismo e já admite que sua carteira de crédito pode encolher neste ano. Na melhor das hipóteses, segundo o banco, cresce 4,5%, com destaque para crédito à exportação, enquanto o Bradesco projeta alta entre 1% e 5%. O Santander preferiu não fazer projeções ao mercado.

"Diante do ciclo adverso, a curva de performance das carteiras de crédito dá sinais de acomodação por conta da desaceleração da atividade econômica, que esfriou a demanda de novos empréstimos de pessoas e empresas", avaliou Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do Bradesco, em conversa com a imprensa, na semana passada.

Inadimplência. Quanto aos calotes, os três privados trabalham com a piora na qualidade de ativos em todo o ano de 2016. No caso do Bradesco, o indicador, que mede atrasos acima de 90 dias, deve se deteriorar entre 0,1 e 0,2 ponto porcentual a cada trimestre neste ano. Itaú e Santander, - este último foi o único a manter a inadimplência estável no quarto trimestre - não detalharam suas estimativas, mas não veem reversão de tendência na conjuntura atual. Talvez, em 2017, mas o foco atual está no controle dos calotes neste ano.

"O quadro para 2016, após 18 ou 20 meses de recessão, é que o espaço se torna mais difícil (para controlar a inadimplência). Não é improvável que o sistema como um todo apresente uma inadimplência mais alta", avaliou Sérgio Rial, presidente do Santander Brasil, em coletiva de imprensa, na semana passada.

Com mais clientes em atraso, os bancos tiveram de reservar um colchão extra para perdas. O saldo de PDDs cresceu mais de 24% no quarto trimestre de 2015 ante um ano, totalizando R$ 80,4 bilhões. As despesas com calotes acompanharam a trajetória ascendente, ao avançarem 28,8% de outubro a dezembro, para R$ 13,8 bilhões. Itaú, Bradesco e Santander empurraram, assim, o gasto total com calotes de para mais de R$ 50 bilhões em 2015, número 17,5% maior que o de 2014.

No caso do Itaú, a inadimplência poderia ter subido mais não fosse venda de créditos já vencidos. O banco transferiu cerca de R$ 2,2 bilhões em empréstimos com baixo índice de recuperação. De acordo com Setubal, essa é uma prática que deve ficar ainda mais evidente no banco após a compra da empresa gestora de créditos Recovery, do BTG Pactual, no final do ano passado. Com a empresa, segundo ele, o banco espera melhorar seus níveis de recuperação de crédito.

Depois de um ano de margens reforçadas em meio aos juros altos, as projeções das grandes instituições privadas também indicam um ano mais tímido. Apesar de não comentar a sinalização que Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, deu ao mercado quanto à futura decisão do Copom para a Selic, após o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgar projeções mais pessimistas para a economia do Brasil, Setubal achou correto o regulador manter a taxa em 14,25% ao ano em meio ao cenário de recessão. Com isso, um fôlego adicional nos próximos trimestre pode vir das receitas com serviços, tarifas e seguros, mas, ainda assim, com intensidade menor do que a vista ao longo de 2015.

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