Crise afeta negociação da CSA, diz Vale

Mineradora espera ser beneficiada por indenização antes de a sócia alemã, que hoje administra a siderúrgica sozinha, se desfazer do ativo

MÔNICA CIARELLI / RIO, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2013 | 02h16

A Vale descarta a possibilidade de a sócia alemã Thyssen Krupp desistir da venda da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), novela que se arrasta há mais de um ano. Para o diretor executivo de Ferrosos da mineradora, José Carlos Martins, a lentidão no processo tem como pano de fundo o a piora no cenário do setor.

"O negócio depende muito de timing. Provavelmente, a Thyssen entrou na hora errada e quer sair na hora errada", afirmou Martins. Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, o executivo confirmou que o grupo alemão, antes de fechar a venda da CSA, terá de indenizar a siderúrgica por erros de gestão. Segundo ele, o tema já vem sendo discutido com os alemães.

O ressarcimento deve vir na forma de perdão de dívidas que a CSA tem com a Thyssen. A companhia alemã tem garantido sozinha a manutenção da operação da siderúrgica brasileira, aportando recursos na forma de empréstimos.

Martins, porém, não descarta a hipótese de uma disputa judicial em torno do valor da indenização. "Toda cláusula contratual está sujeita a disputas", diz. O executivo não quer mencionar valores e brinca: "Nós achamos que é grande; eles acham que é pequena." No mercado financeiro, as apostas giram em torno de R$ 300 milhões.

A origem da disputa está no acordo de 2009, que modificou o contrato original. Prejudicado pela crise financeira mundial, o grupo alemão pediu socorro à mineradora, que colocou mais R$ 2,5 bilhões no projeto e ampliou sua participação de 10% para 27% na siderúrgica.

Garantias. No rearranjo societário, a Thyssen preferiu continuar sozinha na gestão. Para se garantir, a mineradora incluiu no contrato uma cláusula prevendo o reembolso, caso a siderúrgica perdesse dinheiro por erros cometidos por má administração. Em contrapartida, abriu mão de uma opção de venda, que obrigaria os alemães comprarem a fatia da Vale.

"Isso foi uma demonstração de que fizemos de tudo para ajudar o projeto. Abrimos mão de uma série de direitos, colocamos mais dinheiro lá - cedemos demais", afirmou. Agora, garante, a fase é de acompanhar o desenrolar das negociações da Thyssen em busca de um comprador para a fatia na CSA.

Nesse processo, o objetivo é garantir a manutenção dos direitos já adquiridos, como o contrato de longo prazo de fornecimento de minério de ferro e o reembolso por erros de gestão. "A eventual indenização por deficiências na implantação do projeto ou operação se enquadra entre esses direitos", diz.

Martins reiterou que a mineradora só irá se pronunciar sobre a venda quando a Thyssen apresentar uma proposta.

A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) é a única na disputa pelas ações do grupo alemão. O negócio, segundo ele, tem esbarrado no momento crítico vivido pela siderurgia mundial.

Com mais de 35 anos de siderurgia, o executivo afirma nunca ter visto uma crise como a atual, que atinge todos os mercados. Mesmo na China, onde o mercado permanece mais forte, as siderúrgicas amargaram resultados mais fracos. "É a mais profunda crise que eu já vi", afirmou.

Apesar do quadro preocupante, Martins é otimista em relação ao futuro da siderurgia diante da necessidade de obras de infraestrutura, especialmente na China, principal mercado consumidor do minério de ferro produzido pela Vale.

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