Crise afeta nota de Mendes Júnior e OAS

Moody's rebaixou o rating da Mendes Júnior e mudou o viés da nota da OAS; analistas já projetam o 'encolhimento' de construtoras

MÔNICA SCARAMUZZO, MARINA GAZZONI, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2014 | 02h03

As denúncias de corrupção na Operação Lava Jato devem pesar no caixa das empreiteiras envolvidas. A agência de rating Moody's rebaixou ontem a nota de classificação de risco da Mendes Júnior Trading e Engenharia S/A, de B2 para B3, e mudou a perspectiva para a nota da OAS de "estável" para "negativa". O impacto da redução de nota dessas empresas significa que as captações que elas venham a fazer no mercado vão ficar mais caras.

Na prática, o rating se refere ao mecanismo de classificação da qualidade de crédito de uma empresa, um país, um título ou uma operação estruturada. "Por definição, a redução da nota de crédito representa aumento do custo de captação de recursos", explica o diretor de pesquisas da consultoria GO Associados, Fabio Silveira.

Em seu relatório, a Moody's Investor Service informou que o rebaixamento da Mendes Júnior "foi motivado pela percepção de um risco de liquidez elevado para a empresa, com base nas acusações de corrupção que envolvem um de seus principais executivos e a Petrobrás, um cliente relevante que atualmente responde por 15% da carteira de pedidos da companhia. (...) Acreditamos que esses eventos podem estressar a liquidez já apertada da Mendes Júnior e sua estratégia de refinanciamento no curto prazo."

Segundo a nota, a Mendes Júnior "tem riscos de liquidez elevados porque seu perfil de amortização de dívida é representado em grande parte por linhas de capital de giro que vencem no curto prazo, no valor de R$ 113 milhões, diante de uma posição de caixa de aproximadamente R$ 80 milhões". Procurada, a Mendes Júnior não respondeu ao pedido de entrevista.

No caso da OAS, os bônus perpétuos (títulos de crédito sem vencimento) da empresa recuaram 33% entre quinta-feira e ontem. A OAS ressaltou, em comunicado, que "não houve rebaixamento de nota" pela Moody's, só mudança de viés.

Impacto. Fontes ouvidas pelo Estado afirmaram que o rebaixamento das notas já sinaliza uma preocupação do mercado no médio e longo prazos. "Isso tudo é muito ruim. O governo e as empresas vão pisar no freio nas PPPs. O mercado vai parar", disse uma fonte do setor de infraestrutura. "O efeito de contágio desse escândalo na Petrobrás em todo o mercado é inevitável", ressaltou. "Esse cenário poderá fortalecer empresas pequenas e médias que não estão envolvidas em escândalos, já que grupos estrangeiros não podem participar de licitações", disse outra fonte.

As punições para essas empresas poderão afetar diretamente os seus balanços, prejudicando especialmente as de médio porte. "As grandes ainda têm um colchão, porque diversificam negócios, mas para as médias a crise de liquidez e a paralisação dos contratos em andamento afetarão diretamente o fluxo de caixa", disse uma fonte de banco de investimento. "As médias empresas, que têm contratos majoritariamente fechados com o governo, terão problema de liquidez e correm o risco até de pedir recuperação judicial."

Para outra fonte, o impacto para os grandes grupos, como Camargo Corrêa e Odebrecht, que estão altamente endividados, virá no médio e longo prazos. "Essas empresas, mesmo atuando em outros setores, terão seu tamanho reduzido no longo prazo." Segundo a mesma fonte, essas empresas poderão ter seus contratos com o governo questionados pelo TCU (Tribunal de Contas da União) e terão de depender de outros negócios, que não estão necessariamente em um bom momento, considerando o cenário adverso da economia.

No caso da Odebrecht, citou a fonte, os negócios de etanol e petroquímico, enfrentam momento difícil. Já a Camargo Corrêa está alavancada e seus negócios de cimento e nos segmentos de vestuário e calçados não estão em seu grande momento. Procuradas, Camargo Corrêa e Odebrecht também não responderam aos pedidos de entrevista. / Com Agência Estado

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.