Crise afeta os mais ricos e classe C já reage

Levantamento indica queda de 8,7% na renda das classes A e B e recuperação da C, com alta de 3,9%

Fernando Dantas, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

A crise econômica global atingiu em cheio o bolso dos brasileiros mais ricos. De janeiro a abril, a renda média (individual) das pessoas das classes A e B nas seis principais regiões metropolitanas caiu 8,7% em termos reais, ante igual período de 2008, de R$ 2.637 para R$ 2.407. Em 2008, a renda das classes A e B já havia caído 7,01% ante 2007. Na visão do economista Marcelo Neri, que calculou esses números, a queda em 2008 deve ter sido influenciada pelos meses após a crise global, iniciada em setembro.A boa notícia, nesse levantamento feito por Neri, que chefia o Centro de Política Social (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), é que a classe C, muito atingida em janeiro, se recuperou. Um estudo anterior de Neri mostrava que, apenas em janeiro, a classe C tinha perdido para as classes D e E 11% de todo o seu crescimento em tamanho no governo Lula.Os novos números fazem parte de um estudo de natureza diferente, que revela o salário médio por classe, e não o tamanho de cada uma. O trabalho mostra que a renda média das pessoas de classe C cresceu 3,9% de janeiro a abril deste ano, comparada com os mesmos meses de 2008, subindo de R$ 625 para R$ 649. Em 2008, já havia aumentado 6,12%. Coerentemente com esse resultado, a classe C já representava, na última semana de abril, 53,6% da população das seis regiões metropolitanas, após ter caído de 53,81% para 52,64% apenas em janeiro. As classes A e B correspondiam a 13,3% da população metropolitana na última semana de abril.O cálculo do novo estudo de Neri também toma por base a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Recife. Para o economista, uma das principais razões pelas quais a turbulência está atingindo mais fortemente os mais ricos são as próprias características da crise global. Ela se iniciou no sistema financeiro dos países ricos e depois se transmitiu ao setor real dessas economias centrais. No Brasil, a transmissão ocorreu, num primeiro momento, no próprio sistema financeiro, e em seguida nos segmentos da economia que transacionam com o mundo desenvolvido, onde está situado o verdadeiro centro da crise.Neri explica que o setor exportador tende a ser o mais moderno da economia, por isso tem, em geral, pessoas com rendimentos mais mais altos do que a média, que acabaram sendo as mais afetadas pela crise. "Na Belíndia brasileira, quem transaciona com o exterior são os belgas", ele diz, fazendo referência à expressão cunhada pelo economista Edmar Bacha, que divide o Brasil entre uma parte moderna (Bélgica) e uma atrasada (Índia).O diretor do CPS tem outros indicadores que mostram que a crise afetou mais os empregados nos setores industrial e financeiro do que a média dos trabalhadores. A redução das exportações, aliás, foi responsável por cerca de metade da queda da produção industrial a partir de setembro, segundo estudo recente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).Neri fez um cálculo sobre a probabilidade de os trabalhadores caírem de classe social em dois períodos da crise - de setembro a dezembro de 2008 e em janeiro e fevereiro de 2009. Para o grupo de trabalhadores como um todo, essa probabilidade cresceu de 1,9% para 11,4% entre os dois períodos, atestando o agravamento da crise.Em seguida, ele estimou o quanto maior era a chance de alguém empregado na indústria ou no setor financeiro cair de classe social, quando comparada com a dos trabalhadores como um todo. De setembro a dezembro, a probabilidade no setor financeiro era 8,5% maior do que a da média dos trabalhadores, o que saltou para 13,6% em janeiro e fevereiro.Na indústria, as possibilidades de cair de classe eram 2,7% maiores do que a dos trabalhadores como um todo de setembro a dezembro, e 4% maiores nos dois primeiros meses de 2009. "Isso mostra que esses dois setores, que têm trabalhadores com renda média mais alta, foram mais afetados pela crise", diz Neri. Já a classe C, para o economista, pode ter sido protegida de um impacto maior por algumas medidas do governo, como o aumento do salário mínimo. Num lar de classe C, não é incomum que algum adulto ganhe o salário mínimo ou tenha rendimentos a ele indexados, observa Neri. Na sua classificação, a renda familiar (coletiva) total da classe C vai de R$ 1.115 a R$ 4.807, e a das classes A e B começa em R$ 4.807 e vai até o topo da pirâmide.Para estimar a renda média de uma classe social, não é possível excluir pessoas que caíram de nível por causa da queda na renda, pois isso distorceria o impacto da crise no conjunto de pessoas que inicialmente estavam em cada classe. Assim, a única forma - utilizada por Neri - é empregar as chamadas "amostras longitudinais", com o acompanhamento dos mesmos grupos de pessoas, representativos das diferentes classes, ao longo do tempo, mesmo que a sua renda caia abaixo do limite teórico daquela classe. As séries longitudinais de Neri ainda não incluem as classes D e E.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.