WERTHER SANTANA/ESTADAO
Tecnologia tem mudado perfil da mão de obra WERTHER SANTANA/ESTADAO

Crise afeta tecnologia, bancos e manufatura

Baixa oferta e demanda alta de mão de obra provocam aumento de salários e benefícios

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2019 | 05h00

De acordo com levantamento da Korn Ferry sobre a falta de mão de obra qualificada para as empresas, três grandes setores sofrerão mais com a crise de talentos: tecnologia, mídia e telecomunicações; negócios e serviços bancários; e manufaturas.

Segundo o especialista Tiago Salomão, sócio-sênior da Korn Ferry, esses são segmentos que estão mais envolvidos e impactados pela economia digital. “Quando falamos de áreas de alta carência, falamos, basicamente, de profissões de alta especialidade, classificadas como de nível A”, diz Salomão.

Um exemplo de como essa crise projetada já é um problema sério pode ser visto na Logicalis, grupo britânico de tecnologia com 3,2 mil funcionários na América Latina. Hoje, a empresa mantém de 100 a 120 vagas abertas no Brasil, segundo o presidente da companhia para a região, Rodrigo Parreira. “O mercado brasileira precisa hoje de 70 mil desenvolvedores de software por ano, mas só formamos 30 mil profissionais”, diz.

Para os empresários e executivos entrevistados pela Korn Ferry, a relação entre baixa oferta de profissionais e alta demanda por parte das empresas já cria desequilíbrios, como o aumento excessivo de salários e de programas de benefício. Segundo os entrevistados, é esperado aumento de até US$ 10,8 mil para áreas mais disputadas até 2030.

“Um profissional como cientista de dados começa com salário de R$ 10 mil, R$ 12 mil, mas é muito difícil encontrar alguém”, diz Parreira. “Muitas áreas, como as de engenharia de software e ciência de dados ficam constantemente com vagas abertas pois são essenciais para suportar o crescimento”, afirma Ana Paula Maia, gerente de recursos humanos do banco digital Nubank.

Formação 

Com oferta tímida ou inexistente, algumas empresas passaram a investir na formação de talentos internamente. A consultoria PricewaterhouseCoopers anunciou neste ano um programa de formação digital que deve, em menor e maior escala, atingir todos os funcionários da empresa pelo mundo. O plano deve consumir US$ 3 bilhões nos próximos quatro anos e envolve formação de gestores e analistas de transformação digital, além de profissionais na área de educação para servirem às universidades.

“A gente não tem como encontrar esses talentos no mercado. As universidades não estão preparadas e é preciso uma mudança de comportamento e investimento em formação nos funcionários que temos”, diz Erika Braga, diretora de recursos humanos da PwC. O programa, no Brasil, deve atingir os 4,5 mil empregados da empresa. “Esse é um caminho sem volta, a gente vai ter de investir na formação interna”, afirma Luciene Magalhães, sócia-líder de recursos humanos da KPMG no País.

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‘Apagão’ de mão de obra no País pode limitar crescimento

Levantamento mostra que, no ano que vem, número de vagas abertas nas empresas ou preenchidas por pessoas com qualificação abaixo da ideal chegará a 1,8 milhão

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2019 | 05h00

A multinacional brasileira de tecnologia CI&T vem tentando, sem sucesso, preencher 500 postos de trabalho para as unidades de Campinas e de Belo Horizonte, com salários que vão de R$ 9 mil a R$ 10 mil por mês. Em São Paulo, o aplicativo de entregas Rappi, que diz crescer 35% ao mês há dois anos, já aponta como seu principal desafio encontrar funcionários para sustentar essa expansão. Para especialistas, o “apagão” da mão de obra qualificada no Brasil chegou a um ponto que pode se tornar um fator limitador ao crescimento econômico.

 Uma pesquisa feita pela empresa de recursos humanos Korn Ferry com executivos de empresas no País mostra que, no ano que vem, já haverá um déficit de 1,8 milhão de pessoas para vagas mais especializadas – considerando-se tanto as vagas abertas quanto as que vão ser preenchidas por empregados sem a qualificação considerada ideal. Esse número deve crescer a uma taxa de 12,4% ao ano, até alcançar 5,7 milhões de postos com funcionários sem competência ideal ou vagos até 2030.

“O Brasil vive uma severa carência de mão de obra especializada”, diz Jean-Marc Laouchez, presidente do Korn Ferry Institute, responsável pelo estudo. Para ele, apesar de algumas iniciativas nessa área terem sido lançadas, “muito ainda precisa ser feito para o País alcançar seu potencial de crescimento”.

Enquanto os dados oficiais apontam para 12,5 milhões de desempregados e 38,8 milhões de trabalhadores na informalidade, o estudo indica que as empresas deixarão de faturar US$ 43,6 bilhões (cerca de R$ 183 bilhões) até o fim de 2020 justamente por não encontrarem mão de obra especializada para atuarem em áreas estratégicas do negócio, responsáveis pelo crescimento das empresas.

Com isso, fica difícil, por exemplo, conseguir novos contratos ou expandir produção, mesmo que a demanda cresça.

O principal desafio envolve cargos relacionados ao desenvolvimento digital e tecnológico das companhias. São profissões ainda pouco conhecidas, como segurança da informação, cientista de dados, analista de marketing digital e de desenvolvimento de produtos tecnológicos, onde a demanda supera em muito a oferta de profissionais. 

Fundada em Campinas em 1995, a empresa de soluções digitais CI&T, hoje com operações também nos EUA, na Europa e na Ásia, conta com 2,5 mil funcionários. No último trimestre, motivada por novos contratos no Brasil e no exterior, abriu um processo para 500 profissionais. Boa parte das vagas são para profissionais de nível pleno e sênior, com salários na casa dos R$ 9 mil a R$ 10 mil. “É sempre difícil encontrar profissionais nessa área, por isso o programa de salários e benefício tem de ser atraente”, diz Vanessa Togniolli, gerente sênior de desenvolvimento organizacional.

Mundo afora

O levantamento da Korn Ferry é global, feito com 1.550 executivos, sendo cem brasileiros. E o que os números apontam é que esse problema de falta de mão de obra especializada, principalmente nas tecnologias digitais, ocorre em todo o mundo. 

De acordo o relatório, empresários ou presidente de companhias estimam que, no mundo, a falta de pessoal especializado deve alcançar, até 2030, 85,2 milhões de vagas de trabalho.

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‘Estamos perdendo o passo da nova economia’

Para especialista, País corre o risco de deixar passar a oportunidade de se colocar entre as economias centrais

Entrevista com

Anderson Sant’Anna, professor da FGV

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2019 | 05h00

Para Anderson Sant’Anna, professor de comportamento e trabalho da Fundação Getulio Vargas (FGV), o Brasil não se atentou para as mudanças radicais no mundo do trabalho trazidas pela nova economia. O preço a pagar é o de se aprofundar em um mundo sem empregos. “Das ocupações que temos hoje, 47% não existirão mais”, diz. “O futuro é sombrio e quem não se preocupar vai sobreviver graças a subempregos, como os dos aplicativos.” A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como será o mercado de trabalho daqui a dez anos?

Completamente diferente do que temos hoje. Há um trabalho dos pesquisadores Carl Frey e Michael Osborne, da Universidade de Oxford, que nos dá um bom exemplo. Eles dizem que, até 2030, 47% das ocupações que temos hoje não existirão mais. O futuro é sombrio e quem não se preocupar vai sobreviver graças a subempregos, como os dos aplicativos, da ‘uberização’ da economia. A própria noção de profissão será outra. Hoje, a ideia de qualificação é centrada no diploma. A tendência é que, daqui para a frente, seja centrada em competências.

Como vai funcionar na prática?

Isso quer dizer que os profissionais terão de ser mais polivalentes. Tome o exemplo da saúde. Vai chegar um momento em que vai ser difícil dizer onde termina o médico e onde começa o engenheiro mecatrônico. A medicina e as cirurgias serão robotizadas, de forma que ao engenheiro será necessário saber sobre saúde e ao médico será necessário conhecimentos de robótica.

Como o Brasil está se preparando para isso?

Da pior forma possível. Já estamos perdendo o passo da nova economia e, uma vez perdido, não tem o que fazer. Corremos o risco de perder uma janela importante que poderia nos posicionar dentre as economias centrais. Mas não há interesse em enfrentar essa questão e parece que vamos continuar periféricos. Para começar, essa temática não está na agenda de discussão dos grandes empresários. A nossa indústria está voltada para a lógica individual clássica, preocupada em obter mão de obra mais barata para o modelo tradicional de produção, sem se preocupar com a formação de novas competências. 

Falta incentivo público?

Sim, claro, um avião não cai por uma causa só. Aqui há uma responsabilidade dos diferentes atores, há a questão da ausência de política pública. Se pegar os países desenvolvidos, lá existe uma política para a transição para a indústria 4.0. A Alemanha estava quase entrando em uma recessão e a primeira coisa que o governo fez foi investir em tecnologia e inovação. Aqui, a primeira medida que foi tomada foi a de cortar os recursos para ciência, tecnologia e educação. 

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