Crise ajuda inflação a cair em 2008

Com desaceleração no segundo semestre, IPCA fecha ano em 5,9%, abaixo do teto da meta estabelecida pelo CMN

Jacqueline Farid, O Estadao de S.Paulo

09 de janeiro de 2009 | 00h00

A crise internacional teve importante efeito positivo sobre a economia brasileira em 2008 e ajudou a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a fechar o ano em 5,9%, abaixo do teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 6,5%. Beneficiado pela redução da demanda e pelo aumento da oferta de produtos no mercado interno, o índice de dezembro foi de 0,28%, taxa inferior a novembro (0,36%) e a menor para o último mês do ano desde o início do Plano Real. A divulgação do índice de dezembro, aliada aos últimos indicadores industriais, aumentou as apostas de corte na taxa básica de juros (Selic) este mês. A coordenadora de índices de preços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Eulina Nunes dos Santos, admite que a crise ajudou a evitar reajustes no segundo semestre. "Os problemas internacionais, com alguma repercussão nos mercados interno e externo, fizeram com que produtos que seriam exportados tenham ficado no mercado interno, aumentando a oferta. Além disso, houve redução da demanda interna, dificultando os repasses de aumentos de preços." Eulina destacou a desaceleração nos reajustes de preços dos alimentos, que tanto vinham pressionando a inflação desde o segundo semestre de 2007, por causa da redução nos preços das commodities após a mudança no cenário externo. Os produtos alimentícios, que tinham acumulado 8,65% no primeiro semestre de 2008, desaceleraram os reajustes para 2,27% no segundo semestre. Apesar dessa perda de ritmo, os alimentos não deixaram de ser vilões na inflação de 2008. Com alta acumulada de 11,11%, o grupo contribuiu com 41%, ou 2,42 ponto porcentual do IPCA total do ano passado.Porém, a desaceleração do índice no segundo semestre, provocada pela crise, foi determinante para o resultado do ano. O IPCA, que acumulou 5,9% em 2008, passou de 3,64% no primeiro semestre para 2,27% no segundo período do ano. Para Eulina, "a crise teve no segundo semestre influência forte na desaceleração". A coordenadora destacou também que, mesmo com a desaceleração das altas de preços no segundo semestre, 2008 marcou a continuidade de alta no IPCA anual, inaugurada em 2007. "O que se observa na história da inflação no Brasil é que desde 2003, após o choque cambial de 2002, até 2006, as taxas anuais vinham arrefecendo. Em 2007, a tendência foi quebrada e no ano passado houve alta ainda maior nos preços."DÓLAR Nem mesmo a escalada do dólar, que normalmente tem efeito imediato nos índices inflacionários, evitou desaceleração da inflação no 2º semestre. Eulina destacou que o efeito do câmbio "não ficou evidente" no IPCA de 2008, inclusive de dezembro. "Em geral, o dólar tem efeitos sobre os preços, mas esses efeitos ainda não estão claros e vão depender da demanda do mercado interno e externo e de decisões dos agentes econômicos." Alguns produtos que vinham apresentando queda de preços por causa do dólar baixo em 2008 prosseguiram com estabilidade ou recuo em dezembro, apesar da persistente alta da moeda americana. É o caso de computador (-1,25% no mês e -10,35% em 2008) e TV e som (-1,07% no mês e -7,72% no ano). Além disso, os preços dos alimentos, que normalmente aceleram junto com o câmbio, mostraram desaceleração.

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