Crise alimentar deveria facilitar acordo em Doha, diz Amorim

Segundo chanceler, posição comum no Mercosul é de que faltam avanços substanciais nas negociações da OMC

Adriana Chiarini, da Agência Estado,

14 de julho de 2008 | 18h35

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, entende que a crise mundial de alimentos deveria facilitar um acordo na Rodada de Doha, da Organização Mundial de Comércio, "se os políticos fossem racionais". Ele afirmou que "os subsídios impedem a produção de países mais pobres". De acordo com ele, no longo prazo isso diminui a produção.  Amorim citou como exemplo que "o Haiti foi convencido pelo FMI a parar de produzir arroz". Segundo Amorim, o país passou a comprar arroz subsidiado porque era mais barato. Agora, os preços subiram e o Haiti não produz mais arroz. Ele afirmou, também, que "o presidente Lula é racional e os dos Mercosul também; não posso falar pelos outros".  Segundo Amorim, os subsídios são a principal dificuldade para avançar na rodada de Doha, da OMC, e o texto que está sendo discutido como base na rodada é impreciso, permitindo cálculos variáveis para os que considera "distorcivos" entre US$ 13 bilhões e US$ 16,5 bilhões. Amorim disse ainda que a possibilidade de incluir mais produtos na relação dos itens sensíveis, que podem ser objeto de cotas, abre "uma caixa preta na OMC".  Após participar de encontro do Mercosul, preparatório para a reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, Amorim afirmou que os países do bloco têm a posição comum de que o que falta na rodada da OMC "são avanços substanciais na agricultura". Amorim citou que há imprecisões no texto proposto para negociação na OMC em relação aos subsídios internos, e em relação a salvaguardas especiais. Ele disse ainda que "houve mesmo retrocessos". Segundo Amorim, este é o caso da possibilidade de incluir novos itens na relação de produtos sensíveis, o que permitiria a criação de cotas também pare esses produtos que hoje não estão na lista. Segundo Amorim, a inclusão de novos produtos pode gerar "graves prejuízos". O chanceler brasileiro destacou que "o motor da rodada é a agricultura". De acordo com ele, fica difícil avançar em outros assuntos sem que isso ocorra na agricultura. Esforço O ministro das Relações Exteriores da Argentina, Jorge Taiana, também disse que "os países desenvolvidos devem fazer maior esforço". Ele declarou que nos documentos atuais das propostas feitas pela OMC esse esforço dos países mais ricos não está claro. "Insistimos que a possibilidade de resultado positivo, equilibrado e balanceado depende de maior esforço de países desenvolvidos", afirmou. Diante das perguntas dos jornalistas sobre se essa posição dificulta um acordo na OMC para o Rodada Doha, Amorim respondeu: "estou realista, achando que é possível mas sabendo que não é fácil". Durante a entrevista coletiva, ao ser questionado sobre as possibilidades reais dos países do Mercosul cederem em relação às proteções à indústria, reivindicação dos países desenvolvidos, Amorim passou a palavra para o chanceler argentino, que voltou a destacar a necessidade de mais avanços na questão agrícola. "Temos que trabalhar muito para chegar a uma posição", disse Taiana. O vice-ministro da Relações Exteriores do Uruguai, Pedro Vaz, afirmou que "a rodada está avançando", o que não significa que neste momento esteja fechada. De acordo com ele, é importante "ver os ganhos nesse pacote (de agricultura e indústria)". Ele afirmou ainda que "é possível chegar a um acordo geral, não com todos os detalhes, até o fim do ano".

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