Crise ameaça emprego formal

Consultores prevêem alta do desemprego de 7,6% para 8,5% em 2009, com aumento da informalidade

Irany Tereza e Ana Paula Lacerda, RIO, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

O brasileiro vai entrar em 2009 na luta para afastar o fantasma do desemprego que voltou a assombrar a economia, no rastro da crise internacional. A taxa de desemprego interrompeu em novembro a curva de queda. Está em 7,6%, deve passar de 7,8% este ano e, no ano que vem, ficar em torno de 8,5% da população economicamente ativa, segundo consultorias ouvidas pelo Estado. A massa salarial deve se manter estável, com crescimento pouco acima de zero, sem passar de 1,5%.O crescimento da informalidade é um cenário que se desenha com contornos mais definidos para o próximo ano. Caso a economia cresça 3% - prognóstico que está no rol dos mais otimistas - deverão surgir 300 mil empregos informais, calcula Claudio Dedecca, pesquisador do Grupo de Economia do Trabalho da Unicamp. "É necessário buscar sustentar o nível de atividade interna a partir do mercado interno. Ou o governo faz isso ou, se depender apenas da dinâmica da economia, o nível de atividade cairá e o mercado de trabalho conhecerá um período de deterioração", diz o economista, reforçando previsões de que a crise poderá custar ao País entre 800 mil e 1 milhão de novas vagas no mercado de trabalho formal.Há seis anos consecutivos, de acordo com acompanhamento oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos últimos meses de cada ano há incremento na ocupação, embalado pelo aquecimento do consumo. Este ano, debilitado pela crise, houve recuo de 0,4% em novembro, em relação a outubro, queda que deve se repetir em dezembro, segundo especialistas. A crise financeira encontrou o mercado de trabalho brasileiro em um de seus melhores momentos: com aumento das vagas formais e elevação do rendimento. "O mercado de trabalho está muito arrumado", diz Cimar Azeredo, gerente da pesquisa mensal de emprego do IBGE. Isso pode amenizar o baque da crise, mas não contê-la. "A situação é preocupante. Desde 2002 não tínhamos essa notícia (aumento da taxa de desemprego) em novembro", lamenta.Para o economista da LCA Consultores, Fábio Romão, o efeito da crise não será tão avassalador sobre o desemprego. "O emprego vai desacelerar, o índice de desemprego vai subir, mas não vai voltar aos níveis de 2006 e 2007, que foram respectivamente 10% e 9,3%." Segundo ele, o pior momento será o primeiro trimestre. "A indústria, principalmente a metalúrgica, fará cortes de pessoal, assim como a construção civil."SETORESO levantamento do IBGE, que abrange as seis principais regiões metropolitanas do País, mostrou em novembro um baque justamente no segmento que teve, a partir de março de 2002, o maior incremento na criação de postos de trabalho formais: atividade imobiliária, intermediação financeira (que inclui os bancos) e serviços terceirizados. Outros segmentos, que vêm chamando mais a atenção pelas notícias de demissões e férias coletivas, como as indústrias de mineração, siderurgia e automóveis, não apontam ainda uma mudança na curva estatística. "A indústria vem se ajeitando por enquanto. O custo de efetivar demissões é muito grande. As empresas estão escalonando férias coletivas para tentar passar por essa fase crítica. Se depois de determinado tempo virá uma avalanche, não dá para prever. Espero que não. Estamos assistindo a uma queda no emprego nos bancos, que é o primeiro a ser atingido em crises econômicas", diz Azeredo. Em São Paulo, o nível de ocupação no segmento de intermediação financeira caiu 5,7% em novembro. Isso significa menos 87 mil postos. Divulgações de férias coletivas ocorrem desde outubro, pela Volkswagen, Coteminas, Fiat, além das siderúrgicas e metalúrgicas Gerdau, CSN e Tecumseh."O nível de ocupação industrial teve até uma pequena elevação de outubro para novembro. O setor está ganhando tempo para avaliar o quanto vai precisar ajustar. As férias coletivas costumam ser o último recurso antes da demissão, mas os setores industriais não devem começar o ano tão mal quanto o comércio, que já teve queda no emprego", comenta Carlos Henrique Corseuil, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).O sócio-diretor da RC Consultores, Fábio Silveira, acrescenta à lista os serviços associados a bens de consumo duráveis. "Uma coisa puxa a outra. A primeira a sentir foi a indústria, depois o restante da cadeia."O caso mais emblemático da crise foi o da Vale, que demitiu 1,3 mil funcionários, deu férias coletivas a outros 5,5 mil e não descarta novos cortes. Depois do enxugamento, o presidente da mineradora, Roger Agnelli, revelou, em entrevista ao Estado, ter sugerido ao presidente Lula uma flexibilização das leis trabalhistas, como uma medida para evitar novas demissões.COLABOROU ALBERTO KOMATSUFRASEClaudio DedeccaPesquisador da Unicamp"É necessário buscar sustentar o nível de atividade interna a partir do mercado interno. Ou o governo faz isso ou, se depender apenas da dinâmica da economia, o nível de atividade cairá e o mercado de trabalho conhecerá um período de deterioração"

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