Crise argentina afeta o Brasil

A crise político-econômica da Argentina está mexendo com o mercado brasileiro. Nas últimas semanas, o dólar disparou, as projeções de juros subiram e a bolsa despencou. E esse quadro pode ficar pior. Se a situação do país vizinho se agravar, a percepção do risco Brasil tende a levar à depreciação mais acentuada do real. Isso pode pressionar a inflação e obrigar o Banco Central (BC) a elevar os juros, o que afetaria o crescimento da economia. Mas a expectativa é que a Argentina resista no curto prazo, uma vez que o pacote anunciado na semana passada e o empréstimo de US$ 1,2 bilhão concedido por seis bancos privados tendem a garantir uma sobrevida à economia do país vizinho.A Argentina está numa verdadeira enrascada: a economia não cresce, o ajuste fiscal é insuficiente para estancar o crescimento da dívida em relação ao PIB - um dos principais indicadores da capacidade de um país honrar seus compromissos -, o desemprego é altíssimo e há uma crise na base de sustentação do governo. Tudo isso tem como pano de fundo a política cambial rígida, pela qual, desde 91, um peso vale um dólar, o que prejudica a competitividade da economia. Desvalorização da moeda não é saídaA desvalorização da moeda, porém, não é vista pelos economistas como uma saída para o país vizinho, diz o diretor-presidente da MCM Consultores Associados, Cláudio Adilson Gonçalez. Ele lembra que 96,5% da dívida pública é denominada em dólares. No setor privado, esse número é de 60%. Além disso, a maioria dos contratos, como aluguéis, é atrelada à moeda norte-americana. A desvalorização levaria ao calote da dívida pública, quebraria o setor privado e provocaria uma explosão inflacionaria, segundo Gonçalez.Uma outra opção seria a dolarização da economia. A Argentina abdicaria de vez do peso, o que eliminaria o risco cambial. Gonçalez não vê muitas vantagens nessa alternativa, pois não atacaria o problema da competitividade nem provocaria uma queda expressiva dos juros, uma vez que o risco de crédito da Argentina continuaria, ainda que o risco cambial sumisse.Argentina precisa de um esforço fiscalSegundo ele, o que a Argentina precisa fazer é um esforço fiscal, que garanta um superávit primário (receitas menos despesas, exceto gastos com juros) de 2,5% do PIB (hoje esse número não chega a 1%), que estabilize a trajetória de crescimento da relação dívida/PIB, hoje em 50,5%, e uma reforma trabalhista para diminuir os custos do emprego, que são elevados e afetam a competitividade da economia. Esse choque teria um impacto recessivo num primeiro momento, mas seria fundamental para recuperar a credibilidade com a comunidade financeira internacional, restabelecendo o fluxo de recursos estrangeiros para o país. Com a política de câmbio fixo, se entram dólares na Argentina, a base monetária aumenta, levando à expansão do crédito e ao crescimento da economia. A questão é que são medidas impopulares, que teriam de ser tomadas num ambiente recessivo e de desemprego elevadíssimo. Gonçalez acredita que a Argentina poderá implementar essas medidas mais rígidas caso o país fique próximo de um caos iminente, marcado por perda de reservas ou dificuldade para honrar compromissos externos. Nesse cenário, as forças políticas poderiam unir-se para aprovar um plano de emergência, com aperto fiscal e reforma trabalhista, que poderia garantir a sobrevivência do modelo por mais algum tempo

Agencia Estado,

30 de outubro de 2000 | 19h17

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