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Crise argentina atinge até partidos políticos

A recessão sem precedentes que está atingindo a Argentina não afeta somente os setores produtivos da economia, mas também os centros do poder. Este é o caso, do centenário e tradicional partido União Cívica Radical (UCR), que sem fundos para poder pagar suas contas telefônicas, está com as linhas cortadas há um mês.A Telefónica argumenta que a UCR lhe deve 190 mil pesos. O partido, embora admita a dívida, afirma que ela é menor, de 140 mil pesos. O atual presidente da UCR, o governador da província do Chaco, Angel Rozas, se recusa a buscar ajuda de empresas privadas para resolver a situação.A inadimplência da UCR não ocorre somente com o serviço telefônica. O partido, que teve ex- presidentes da República como Hipólito Yrigoyen, Marcelo T. de Alvear e Raúl Alfonsín, tampouco está pagando seus funcionários de forma integral. Para driblar a escassez de fundos, a partir de dezembro passado os funcionários do partido começaram a receber parte dos salários em vales de supemercados. No entanto, desde abril, a UCR nem isso está conseguindo fazer, e suprimiu os vales.Extra-oficialmente, fontes da UCR admitem que em breve, por causa da falta de pagamento dos serviços, as diversas sedes do partido poderiam ter problemas com a energia elétrica e a TV a cabo. A recessão não atinge somente os partidos políticos, mas quase todos os setores da economia. Além disso, a crise não mostra uma tendência de estar acabando. Ontem, o segundo domingo de junho, a Argentina comemorou o Dia dos Pais da forma mais austera de sua História. Segundo a Coordenadoria de Atividades Mercantis Empresariais (CAME), as vendas despencaram 39,9% em média em comparação com o mesmo dia do ano passado. As vendas de assessórios de computação, que haviam sido um dos "must" das vendas do dias dos pais em anos anteriores, tiveram uma estrepitosa queda de 93%. Os objetivos eletrônicos, todos importados, caíram 70%. Os artigos esportivos tiveram uma redução de 44%, enquanto que os calçados perderam 31%. Praticamente não houve publicidade na mídia argentina sobre o Dia dos Pais.A recessão que dura quatro anos também pode ser percebida no desempenho das operações com cartões de crédito. Segundo a ATACYC, a associação que reúne as diversas empresas de cartões de crédito, as operações caíram 50% em maio em comparação com o mesmo mês do ano passado. Em todo o país, as vendas em maio foram de somente 800 milhões de pesos (US$ 222 milhões)."Nenhum setor pode agüentar este panorama", afirmou Néstor Yoan, presidente da ATACYC. Sua previsão é que neste ano, as vendas estejam entre 8 bilhões (2,2 bilhões) e 9 bilhões de pesos (US$ 2,5 bilhões), uns 49% inferior ao volume do ano passado, que foi de 15 bilhões de pesos (US$ 4,1 bilhões).Os pagamentos das operações aos comércios, por parte das empresas de cartões, que antes costumavam ter um prazo médio de sete dias, agora se prolongam até 28 dias. Por este motivo, a Fedecámaras, associação que reúne o pequeno comércio da Argentina, convocou seus filiados para que neste quarta-feira os comércios não aceitem os cartões de crédito por 24 horas.Tensão socialExiste temor de que os saques a supermercados e comércios que abalaram a Argentina em dezembro do ano passado possam voltar a ocorrer, causados pelo aumento do desemprego e o alastramento da pobreza. Neste fim de semana, a província de Mendoza foi o cenário de saques a uma dezena de comércios. Os ataques foram realizados por desempregados em pleno dia, que argumentaram que precisavam comida para alimentar seus filhos. Em dezembro passado, os saques que abalaram o país começaram nessa província.Diante deste panorama social complexo, a Igreja argentina decidiu emitir nos próximos dias sua própria "moeda paralela". Esta moeda, o "peso solidário da nação argentina", serviria como vale de intercâmbio nas paróquias e organizações que realizem feiras de escambo. O escambo, o velho sistema de trocar produtos e serviços por outros produtos e serviços está sendo utilizado por uma parte significativa da população argentina, diante da falta de dinheiro. A Cáritas ficaria encarregada de fiscalizar a emissão desta "moeda paralela" da Igreja.

Agencia Estado,

16 de junho de 2002 | 18h40

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