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Crise argentina cria o "profissional da fila"

Uma novo tipo de profissional surgiu na Argentina. Ele é o ?colero?, ou a pessoa que faz ?colas? (?filas?). O ?colero? costuma ser um desempregado - entre os quais muitos profissionais liberais pertencentes à arruinada classe média - que em troca de uma tarifa, guarda um lugar em uma fila na frente das casas de câmbio e bancos para a compra de dólares.O filão foi descoberto nos últimos dias, quando milhares de portenhos invadiram as ruas da city financeira de Buenos Aires, desesperados para comprar as cédulas americanas, pois temiam o retorno do fantasma da hiper-inflação. Muitas destas pessoas, por chegar tarde demais, ficavam no fim das filas, e não conseguiam comprar os dólares.Desta forma surgiram os ?coleros?, que ofereciam aos angustiados atrasados um lugar na fila. Nesta quarta-feira, o preço inicial de 50,00 pesos (US$ 16,00) às 9:00 da manhã, começou a desvalorizar-se rapidamente a partir das 10:00, caindo para 30,00 pesos (US$ 10,00) às 11:00. Ao meio-dia os lugares já estavam sendo vendidos a 10,00 pesos (US$ 3,30). Gastón, um engenheiro de 28 anos, desempregado, casado e com uma filha, era um dos primeiros na fila. Havia sentado-se na porta do Banco de la Nación às 20:00 da terça-feira, e dispunha-se a esperar toda a noite para vender seu lugar por 40,00 pesos. ?Preciso deste dinheiro para pagar a energia elétrica lá de casa, antes que a cortem?, explicou ao Estado. Segundo ele, ?não me importa a humilhação de que me vejam aqui. Preciso do dinheiro?.As filas também foram abordadas por dezenas de vendedores de refrigerantes, sanduíches e até detetores de dólares falsos. Segundo uma pesquisa da Ibope OPSM, 95% das pessoas que vão às casas de câmbio o fazem para comprar dólares. Somente 5% fazem as filas para vender.A pesquisa também indica que as pessoas estão dispostas a comprar dólares a qualquer preço, já que 45% aceitaria comprar dólares em uma faixa entre 3,10 pesos e 3,40 pesos. Outros 24% compraria dólares com a cotação entre 3,50 e 4,00 pesos. E 20% estaria disposta a comprar dólares acima de 4,00 pesos.CinemaAlém dos coleros, outro tipo de profissional estava tirando proveito das filas, embora mais cultural. Este era o caso do diretor de cinema Fernando ?Pino? Solanas - famoso pelas obras ?Tangos, o Exílio de Gardel? e ?Sul? - que filmou as longas filas de vários quarteirões na city financeira.?Com a história de cada uma destas pessoas dá para fazer um filme?, disse Solanas. ?Eu sabia que este modelo econômico causaria a destruição da indústria e o empobrecimento do país, mas nunca imaginei que chegasse a este ponto?, disse o diretor, um intenso crítico dos governos do ex-presidente Carlos Menem (1989-99) e de Fernando De la Rúa (1999-2001).Leia o especial

Agencia Estado,

27 de março de 2002 | 19h44

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