Crise castiga pequenas empresas na Grécia

Pequenas e médias empresas gregas já viram suas vendas caírem até 45% este ano e ameaçam fechar as portas

Niki Kitsantonis, International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2010 | 00h00

Giorgos Sofronas tocou uma lojinha que vendia bolsas femininas no centro de Atenhas por mais de quatro décadas. Este ano, o futuro ficou incerto. Sofronas viu as vendas caírem 45% desde a eclosão de uma crise da dívida sem precedente, que obrigou o governo grego a aumentar impostos e reduzir salários do funcionalismo em troca de um pacote de salvamento de 110 bilhões (US$ 154 bilhões) de seus parceiros da zona do Euro e do Fundo Monetário Internacional (FMI). As medidas reduziram as margens das empresas e derrubaram a demanda de consumo.

Observar lojas fechando uma após outra em sua rua deixou Sofronas nervoso, mas ele não pretende pedir concordata. "Este negócio alimenta nove pessoas", diz, referindo-se à sua família e cinco empregados. "Não posso desistir."

Na Grécia, as pequenas empresas representam 96% do total e empregam em torno de 2 milhões dos 5 milhões que compõem a população economicamente ativa do país. Muitas delas, particularmente em Atenas e nas muitas ilhas gregas, suportam o setor de turismo, uma parte crucial da economia que também está cambaleando por efeito da crise. "As pequenas empresas são o sangue vital da Grécia", define Vassilis Korkidis, presidente da Confederação Nacional do Comércio. "O que estamos vendo é uma hemorragia."

O governo do primeiro-ministro George A. Papandreou insiste que está enfrentando o problema. Prometeu colocar 5 bilhões em subsídios da União Europeia num fundo de apoio a pequenas empresas no próximo ano. Bancos gregos deverão contribuir para esse fundo, embora não esteja claro com que quantia. Papandreou declarou repetidamente o compromisso do governo com a redução dos impostos para todos as empresas - atualmente em 24% sobre lucros retidos e 40% sobre dividendos.

Endividamento. Para Korkidis, as medidas ajudarão quando forem materializadas. Mas ainda não está claro se as novas linhas de crédito salvarão as pequenas empresas.

Muitas já estão endividadas com bancos, devendo um total de 144 bilhões em empréstimos para gastos de custeio e expansão. As pequenas empresas também devem 3 bilhões em impostos que teriam de ser pagos nos próximos três meses. "Para muitas empresas, embolsar os impostos sobre valor agregado foi a única maneira de não naufragar", diz Korkidis.

Os problemas são graves tanto no setor de produção como no de consumo. Os pequenos fabricantes enfrentam altos custos operacionais e poucas encomendas de varejistas com falta de caixa. No varejo, os que mais sofrem são as lojas de roupas, calçados e acessórios. Elas viram sua receita cair uma média de 35%.

A recessão é evidente nas ruas da capital. Em algumas delas, uma em cada quatro lojas está fechada por tábuas. Muitas dessas exibem cartazes de "Aluga-se. Na maioria das lojas que estão abertas, os negócios andavam morosos.

Muitos empresários estão céticos diante das promessas de ajuda do governo. "Vou esperar mais alguns meses e depois, se nada mudar, vou fechar", afirmou Makis Mais, dono, há mais de 50 anos, de uma loja de roupas em um dos mais movimentados shoppings do centro de Atenas. Ele demitiu dois de seus quatro funcionários este ano, quando o aumento do imposto sobre as vendas, de 19% para 23%, abocanhou 35% de sua receita.

Pequenos fabricantes em Atenas também enfrentam dificuldades por causa da falta de liquidez no mercado. "Nossos clientes gregos não podem pagar - sete de cada dez cheques são rejeitados", diz Ângelo Malapetsas, dono de uma pequena oficina de produção de luminárias. Ele mudou seu foco para as exportações após o lucro cair 50%. "Se não tivéssemos feito isso, teríamos fechado." / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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