Gabriela Biló/Estadão
Na fila, Nathalie Porto tenta uma vaga na aérea Bamboo Gabriela Biló/Estadão

Crise da Avianca faz pilotos migrarem para a Ásia

Profissionais estão dispostos a se mudar para qualquer país para continuarem atuando como pilotos

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2019 | 18h11

Dezessete pilotos de avião assistem a uma palestra no Sindicato Nacional dos Aeronautas, em São Paulo, sobre a possibilidade de trabalhar no Vietnã para uma companhia chamada Bamboo Airlines, que, segundo seus representantes, está “realmente crescendo” e voa para “destinos-chave”.

Dos 17 profissionais, 15 trabalhavam na Avianca Brasil e estão dispostos a se mudar para qualquer país para continuarem atuando como pilotos. Eles repetem o caminho que outros brasileiros da área já fizeram. Após o fim da Varig, no início dos anos 2000, vários pilotos brasileiros foram para a China.

“Vou para onde tiver vaga para não ficar desempregada. Preferia ficar no Brasil ou ir para a Turquia (a Turkish Airlines também está contratando), mas pode ser Vietnã”, diz Nathalie Porto, de 36 anos, que trabalhou um ano e meio como copiloto na Avianca.

Casada e com dois filhos – um de 9 anos e outro de 5 –, cogita levar a família para Portugal, e não para o Vietnã, porque as diferenças culturais são menores. Caso passe no processo seletivo da Bamboo, poderá trabalhar seis semanas no Vietnã e descansar duas na Europa ao lado dos filhos, já que a empresa tem essa escala mais favorável aos estrangeiros.

“Me pareceu que voando lá conseguimos ter uma qualidade de vida boa. A escala de trabalho é tranquila e o salário bom para o país”, diz Nathalie.

A Bamboo oferece US$ 11 mil (R$ 43 mil) para comandantes de um A 320 e, segundo os representantes da companhia que davam a palestra no sindicato na semana passada, é possível viver com metade desse valor no Vietnã.

“Apenas a escola internacional para as crianças é cara, entre US$ 1,5 mil e US$ 2 mil”, diz um piloto que viveu no país e foi chamado para contar sua experiência aos candidatos brasileiros.

“Mas as crianças vão falar inglês todos os dias. Ter matemática e ciências em inglês. E depois vão poder escolher um terceiro idioma, chinês ou francês”, destaca. Ele conta ainda que a companhia aérea costuma fazer parceria com as escolas e conseguir 20% de desconto nas mensalidades.

Para os homens solteiros, diz o piloto com experiência oriental, dá para estar em Hong Kong em duas horas e é possível ir para Bali para surfar.

“A Bamboo voa para Bali”, lembra ele. Para os casados, ele aconselha, porém, deixar a mulher – “se ela tiver um emprego bom” – no Brasil e vir visitá-la a cada seis semanas. “As mulheres não gostam muito do Vietnã. Não tem muito o que fazer, apenas uns dois ou três shoppings bons.”

Processo

Os slides da apresentação da Bamboo Airlines mostram que a companhia oferece alguém no país para acompanhar todo o processo de mudança e tirar qualquer dúvida dos pilotos, além de organizar eventos culturais para os funcionários estrangeiros.

Mas nem o salário superior à média brasileira (um comandante aqui ganha, em média, de R$ 20 mil a R$ 30 mil) nem os benefícios oferecidos pela companhia vietnamita são suficientes para empolgar os candidatos com a possibilidade de mudança ou fazer com que eles levem suas famílias.

A maioria está disposta a morar no Oriente apenas para evitar o desemprego. “Até considerava ir para lá, mas só daqui uns sete anos, para guardar dinheiro e ter uma aposentadoria melhor. A ideia era esperar meu filho, que tem 11 anos, estar maior”, diz um ex-comandante da Avianca que pediu para não ser identificado. Se conseguir uma vaga, ele, que se candidatou a outras duas companhias vietnamitas, deve deixar a criança e a namorada no Brasil. 

Outro ex-piloto da Avianca conta que preferiria ir para a China, porque os salários lá são melhores. “Vale a pena só por causa da valorização do dólar”, destaca.

“Mas estou disposto a ir para qualquer lugar para trabalhar. Estou tentando Vietnã, China e Índia.” Com dois filhos, também pretende ficar indo e voltando do Oriente para as folgas de duas semanas. 

O presidente do sindicato dos aeronautas, Ondino Dutra, afirma que, por causa da crise na Avianca Brasil, houve um aumento “considerável” na procura por vagas no exterior, mas diz não ser possível quantificar.

Desde que a Avianca entrou em recuperação judicial, em dezembro, a entidade já recebeu profissionais de 11 companhias aéreas e de 5 agências, que representam um total de 34 empresas, para seleção de pilotos e comissários.

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Pilotos brasileiros relatam castigos e jornada de até 16 horas na China

Depois dos russos e sul-coreanos, brasileiros são os profissionais mais cobiçados pelas companhias asiáticas

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2019 | 18h22

Denis Franklin Ferreira desembarcou no sul da China em 2015 com a mulher e planos de fazer uma poupança para a família. Ele tinha acabado de pedir demissão depois de nove anos como comandante de voo na Gol e viajava para a Ásia atraído pelos altos salários do país, que vive um déficit de mão de obra na aviação há mais de uma década e é um dos principais destinos dos pilotos brasileiros.

Com salários de até R$ 65 mil por mês, a China hoje emprega cerca de 200 pilotos brasileiros, segundo estimativas dos próprios profissionais. Após os russos e sul-coreanos, os pilotos do Brasil são os mais cobiçados pelas empresas asiáticas.

De acordo com entrevistados, o problema é que, uma vez instalados na China, os brasileiros enfrentam uma realidade distinta da comunicada pelos headhunters e empresas de recolocação de pessoal. “De cara, 45% do salário fica em impostos. E a cultura do castigo é muito grande. Se a empresa entender que você cometeu um erro qualquer, aplicam multas”, diz Ferreira. “Já vi multas de 65% do salário.” 

“No fim das contas, fica elas por elas. Eu ganho a mesma coisa na China do que ganhava no Brasil”, conta o piloto, que está nos EUA aguardado o nascimento do segundo filho e a transferência para uma nova posição, na Hainan Airlines, a maior companhia aérea da China, onde deve ganhar um pouco mais. “Vai demorar uns três meses.”

Outras queixas dos brasileiros na China recaem sobre a dificuldade de comunicação. Muitos voam com dois copilotos, sendo que um deles é, apenas, tradutor de idiomas. Há queixas também sobre as jornadas extenuantes de trabalho. A legislação local permite até 16 horas de trabalho diário (mil horas por ano), além de escalas intercaladas entre dias e noites, situação que causa fadiga nos profissionais.

“Pegamos sempre as piores escalas. Trabalhar 12 horas aqui é a regra e, um dia, estamos voando de manhã para, no outro, assumir a aeronave às 21h e aterrissar às 7h, sabe-se Deus em quais condições”, diz Ricardo Mendez, ex-piloto da Varig, que vive na China desde 2003. “É como se eles quisessem estourar o estrangeiro”, diz outro comandante egresso da Webjet. “Vim para a China há seis anos, com um grupo de 20 pilotos. Hoje, restaram quatro.”

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