Carlos Garcia Rawlins/Reuters - 16/9/2021
Carlos Garcia Rawlins/Reuters - 16/9/2021

Crise da chinesa Evergrande esfria captação de empresas brasileiras no exterior

Possibilidade de calote da gigante do setor imobiliário derrubou preços de títulos de dívidas de países emergentes e latinos

Cynthia Decloedt, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 08h45

Pelo menos 10 empresas brasileiras passaram a monitorar o mercado de dívida mais atentamente esta semana, de olho no possível calote da gigante chinesa do mercado imobiliário Evergrande, que tem um passivo de US$ 300 bilhões. Essas companhias se preparam para acessar a segunda melhor janela do ano nesse mercado, com a intenção de emitir bonds (títulos de dívida emitidos no exterior) para levantar recursos e antecipar rolagens e necessidade de recursos para 2022, diante da eleição presidencial no Brasil.

A perspectiva de a Evergrande deixar de honrar seus compromissos, inclusive com bonds, deixou o mercado de molho. A exceção foi a Gol, que prosseguiu com sua proposta de captar cerca de US$ 100 milhões, de acordo com fontes, por meio da reabertura de uma emissão de papéis que vencem em 2026, com muitas garantias.

A Evergrande tem US$ 19 bilhões em bonds e é um dos maiores emissores desses papéis no segmento de construção do mundo. O risco de calote já vinha sendo monitorado havia vários dias, mas na segunda-feira, 20, surgiram sinais mais concretos de não pagamento por parte da companhia, sem um posicionamento do governo chinês em direção a seu resgate. Fundos de grandes casas como Ashmore, BlackRock e UBS estariam expostos aos bonds da Evergrande.

Os títulos de dívida negociados no mercado secundário de países emergentes e latinos foram pegos no contrapé e os preços desses papéis tiveram forte queda, sem exceção, na segunda-feira. Contrato de proteção contra o risco de um calote do Brasil, o credit default swap (CDS) chegou a subir 11% e tocou os 200 pontos-base, nível não superado desde abril. Isso equivale a 20 pontos-base acima dos 180 pontos-base no fechamento de sexta-feira. Altas superiores a 10 pontos-base em um único dia não são comuns.

Não existe ainda consenso sobre o tamanho do estrago que o mercado pode sofrer com a crise da Evergrande. O responsável pela área de dívida de um grande banco estrangeiro, que preferiu ficar no anonimato, disse que os investidores estão aproveitando o evento para corrigir preços. "Está sendo um catalizador", afirmou. "O mercado estava aflito com o pouco prêmio implícito no preço dos papéis em relação aos riscos. Há muito se falava que o preço dos bonds não refletia os fundamentos."

Embora se trate de um grande emissor, o especialista não espera que o mercado de bonds como um todo entre em uma espiral de vendas. "Não vejo um problema estrutural, com muitos investidores perdendo e vendendo outros papéis para compensar prejuízos, não vejo efeito em cadeia", disse. Ainda não houve nenhum emissor recolhendo sua operação, segundo ele, mas será preciso entender a extensão e impacto do eventual calote.

Para outro profissional de um banco brasileiro, o mercado pode sangrar por mais uma ou duas semanas, tempo em que os investidores atingidos pela companhia podem levar para recomporem suas posições e perdas.

Sua maior preocupação está, entretanto, na possibilidade de o problema da Evergrande não ser somente da companhia, mas carregar consigo o setor imobiliário chinês. "Seriam efeitos na economia chinesa, provocando desequilíbrios nos mercados produtivo e financeiro globalmente", diz.

Empresas e países exportadores para a China podem se ressentir de um aprofundamento da crise. "Investir no Brasil é apostar em exportações para a China. O minério de ferro desabou e papéis como Vale e CSN podem sofrer", diz.

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