Crise da covid-19 vai testar as áreas de cobrança de bancos

Instituições adquiriram empresas de recuperação de crédito após a Lava Jato e devem ter muito trabalho após o pico da pandemia

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2020 | 05h00

A pandemia do novo coronavírus vai ser o primeiro grande teste das áreas de recuperação de créditos vencidos nos grandes bancos de varejo no Brasil. Desde a Operação Lava Jato, os pesos-pesados do setor financeiro se voltaram a essas operações, deixadas de lado por anos. Enquanto o Itaú Unibanco aproveitou a crise do BTG Pactual para arrematar a Recovery, o Santander comprou a gestora Ipanema, atual Return. Mais recentemente, o Bradesco adquiriu o controle da RCB Investimentos.

Com o aumento da inadimplência esperado por causa da pandemia, as áreas de cobrança estruturadas nos últimos anos a partir de aquisições serão colocadas à prova. “Todas essas empresas já viveram períodos turbulentos, mas, agora, pela primeira vez em uma grande crise, estão incorporadas aos bancos”, explica o sócio da plataforma de investimentos alternativos Jive, Guilherme Ferreira.

A situação de fragilidade econômica causada pelas medidas de isolamento social já começa a se refletir na recuperação do crédito, que ficou mais difícil. E deve piorar mais, conforme executivos ouvidos pelo Estadão/Broadcast.

As carências concedidas para as dívidas em dia em meio à pandemia, nas palavras de um vice-presidente de um grande banco, somente “achatam” a curva da inadimplência que vai elevar a quantidade de empréstimos vencidos. “Nesse momento, as áreas de recuperação de crédito têm um papel super importante, principalmente, nos créditos com atraso longo. São uma extensão do braço de cobrança dos bancos”, diz o presidente da Recovery, Wagner Sanches.

Prazos

Ao “atacar” o bolso dos brasileiros de forma generalizada, a crise gerada pela pandemia dificultou a recuperação de crédito em abril e fez a Recovery flexibilizar as condições de pagamento aos devedores. Além de aumentar a carência, que passou de 30 para 60 dias, os descontos foram ampliados, segundo Sanches. Se antes iam, no máximo, a 85% da dívida, na pandemia, a redução foi até 95% nos casos mais graves.

Pensando no cenário pós-covid, o Itaú Unibanco decidiu reforçar sua estrutura e anunciou essa semana a criação de uma nova diretoria executiva que vai focar e consolidar as áreas de crédito e cobrança, até então segmentadas no banco. A estrutura ficará sob o comando de Marcos Magalhães, até então responsável pela Rede, de maquininhas. “A pandemia nos trouxe o desafio de readequar as nossas prioridades”, diz o diretor-geral de Varejo do Itaú, Márcio Schettini.

O Bradesco tem avançado no trabalho de recuperação de crédito com apoio da RCB Investimentos. Ao que tudo indica, o banco deve exercer sua opção de compra, já prevista em contrato – mas que ainda deve levar alguns anos, para arrematar os outros 35% do negócio, de acordo com duas fontes, na condição de anonimato. Procurado, o banco não comenta.

Na contramão dos competidores privados, o Banco do Brasil segue em busca de um sócio para o seu negócio de cobrança e recuperação de crédito. Criada há mais de dez anos, a Ativos foi inserida na agenda de desinvestimentos da gestão atual, comandada por Rubem Novaes, na esteira da desova de patrimônio público no governo Bolsonaro. A pandemia, contudo, atrapalhou o cronograma e paralisou os processos em andamento.

Os bancos reforçaram suas estruturas de cobrança depois da última crise, quando o crédito minguou e os empréstimos em atraso passaram a ser olhados com mais atenção. Depois de bater o pico na Lava Jato, em 2016, o estoque de dívidas em aberto nas mãos dos cinco maiores bancos brasileiros voltou a subir no ano passado, quebrando a trajetória de dois anos de queda. O volume era de mais de R$ 90 bilhões ao fim de 2019, considerando empréstimos vencidos e não pagos há mais de 90 dias a 180 dias, conforme mostram os balanços consolidados dessas instituições.

Diante de tamanho estoque, os bancos brasileiros começaram, então, a colocar em prática uma visão já madura nos mercados externos, de que a recuperação faz parte do ciclo do crédito e, portanto, dos negócios dessas instituições. “Em algum momento, as estruturas têm de conversar. Nem todo o crédito concedido vai dar certo. A cobrança e recuperação ajuda a retroalimentar o processo”, resume o vice-presidente de um grande banco.

Endividamento em alta

A inadimplência que virá a reboque da turbulência econômica gerada pela pandemia do coronavírus deve fazer com que os estoques de empréstimos inadimplidos cresçam ao longo de 2020, de acordo com fontes do mercado financeiro.

Para se ter uma ideia, somente considerados operações com atrasos acima de 180 dias, executivos do setor ouvidos pela reportagem estimam um volume existente entre R$ 500 bilhões e R$ 700 bilhões, incluindo aquelas operações que estão há anos em discussão na Justiça. Boa parte dessas dívidas já foi excluída dos balanços dos bancos – movimento que é chamado de “write-off” no jargão do mercado.

Como atingiu a todos os setores, de forma generalizada, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro podendo encolher de 6% a 9, neste ano, dependendo da extensão do problema sanitário. A partir desse cenário desolador, a expectativa de instituições financeiras é de que a onda de calotes que está a caminho possa ser maior do que a vista em crises anteriores. 

Uma amostra do que está por vir veio nos balanços jdo primeiro trimestre. Os cinco maiores bancos elevaram o gasto com provisões para devedores duvidosos, as chamadas PDDs, em 45% frente aos três meses anteriores, para mais de R$ 30 bilhões.

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Mercado de dívidas vencidas deve ficar paralisado

Aposta é que mesmo instituições acostumadas à volatilidade devem esperar para avaliar melhor ‘estrago’ da crise

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2020 | 05h00

A escalada dos calotes por conta da crise gerada pela pandemia deve fazer com que os grandes bancos, participantes já conhecidos do mercado de NPL – crédito em situação de inadimplência, na sigla em inglês – desovem volumes ainda maiores. O impacto imediato, porém, foi de paralisação. O Santander Brasil, por exemplo, recolheu uma carteira de empréstimos vencidos da ordem de R$ 2,5 bilhões que já tinha colocado à venda, de acordo com três fontes, na condição de anonimato.

Foram mantidas apenas negociações que já estavam em andamento, como no caso de operações feitas pelo Bradesco e Itaú Unibanco no primeiro trimestre. Também há espaço para vendas de ativos que estão descolados do assunto covid-19. Neste momento, o gaúcho Agibank e ainda o Digio, de Bradesco e Banco do Brasil, negociam operações com valor somado de cerca de R$ 700 milhões.

Os próximos meses, contudo, devem ser de poucos negócios para o mercado distressed, que investe em ativos problemáticos, de acordo com executivos ouvidos pelo Estadão/Broadcast. A retomada do mercado de venda de carteiras deve ocorrer, contudo, mais para o fim do ano, quando as instituições financeiras terão mais clareza dos estragos da crise. Agora, os créditos começam a ficar inadimplentes para depois de alguns meses serem empacotados e oferecidos ao mercado.

“Os bancos terão de abrir espaço na gestão de créditos vencidos para operações mais novas, com maior chance de recuperação”, avalia um especialista neste mercado, que prefere não ter seu nome revelado.

Segundo essa fonte, outros reflexos da crise como a diminuição dos índices de capital e dos níveis de rentabilidade também devem estimular os bancos a venderem um maior volume de créditos vencidos e não pagos. 

É aí que os investidores que compram essas carteiras entram. “A atuação dos investidores distressed, focados em ativos com dificuldade, vai ser complementar à das plataformas de cobrança e recuperação dos bancos”, diz o sócio da plataforma de investimentos alternativos Jive, Guilherme Ferreira.

Por ora, o que pode aparecer no mercado – a despeito da paralisação por conta da pandemia – são transações que envolvem os chamados single names, ou seja, créditos de uma única empresa. Neste mercado, com foco exclusivo em créditos corporativos, são esperados instituições tradicionais como Itaú, Bradesco e Banco do Brasil. “Há muita procura. Estamos abertos a negociação, mas depende do preço”, diz o diretor de um grande banco.

O fator preço foi o que afastou os bancos das mesas de negociações. Com a deterioração do cenário econômico, a recuperação do crédito ficou mais difícil e isso conta no prêmio que os investidores estão dispostos a pagar pelo ativo. Ferreira, da Jive, diz que a gestora, especializada em NPL, suspendeu as ofertas não vinculantes que tinha feito por conta da pandemia para rever suas premissas.

Do lado da venda de créditos pessoa física, transações que já estavam encaminhadas antes da pandemia devem ser concluídas. É o caso do Digio e do Agibank, que haviam acessado o mercado no ano passado. Em ambos os casos, os empréstimos ofertados não têm relação com a covid-19.

De acordo com o presidente do Digio, Carlos Neves, o banco tem vendido carteiras por conta da sua mudança de estratégia, com foco no digital. “Não tem nada a ver com a covid-19. São carteiras que foram originadas no mundo físico, mas a gente tem intenção de estruturar nossa operação 100% no digital”, justifica, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

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