Noel Celis/AFP
Pessoas trabalham em frente a complexo da Evergrande em Guangzhou, na China Noel Celis/AFP

Crise da Evergrande traz temor sobre 'novo Lehman Brothers', mas analistas veem exagero

Preocupação no mercado financeiro mundial aumento quando a gigante de construção chinesa contratou os assessores por trás da reestruturação da dívida do banco americano, que quebrou em 2008

Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2021 | 10h00

O potencial colapso da gigante de construção chinesa Evergrande, uma das companhias mais endividadas do mundo, trouxe de volta ao mercado financeiro mundial o temor de que a companhia possa ser o próximo Lehman Brothers, o banco americano que quebrou em 15 de setembro de 2008 e desencadeou uma das maiores crises financeiras da História.

A Evergrande até contratou esta semana os assessores por trás da reestruturação da dívida do Lehman, o que só ajudou a aumentar as preocupações e os temores de um default (calote) próximo, mas analistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast não veem maiores semelhanças com o episódio de 2008. 

Uma eventual quebra da construtora pode gerar turbulência no mercado internacional, afetando principalmente os emergentes mais vulneráveis, aqueles com problemas fiscais e/ou das contas externas. Os analistas citam Brasil, África do Sul e Turquia com potencial de serem os mais afetados por um episódio de estresse, justamente por estarem no topo no ranking de maior vulnerabilidade, como o do Bank of America. 

Mas, diferente da crise de 2008, caso a Evergrande venha a quebrar, não se espera um congelamento do mercado financeiro mundial, como aconteceu após o debacle do Lehman, que paralisou o mercado de empréstimos mundial por semanas.

Ao contrário do banco americano, a Evergrande não é uma empresa financeira, ou seja, seu efeito sistêmico, embora exista, não pode ser comparado a de um grande banco. Por isso, o economista da consultoria inglesa Capital Economics, Simon MacAdam, acha exagerada as comparações. No pior cenário, que seria a quebra da companhia chinesa, com passivos de aproximadamente US$ 300 bilhões, o reflexo seria "alguma turbulência" no mercado financeiro internacional, afetando principalmente os emergentes. O Lehman, em 2008, tinha o dobro do passivo.

Um efeito mais indireto, diz MacAdam, seria se a quebra afetasse todo o setor de construção do país a ponto de provocar um esfriamento da economia, levando Pequim a reduzir importações, o que afetaria os exportadores de commodities (produtos básicos, como alimentos, minério de ferro e petróleo, cotados em dólar) para o país asiático, como o Brasil. Por ora, a Capital Economics diz que os bonds da empresa despencaram e suas ações acumulam queda de mais de 80% este ano, mas o contágio para outros ativos - tanto dentro quanto fora da China - tem sido limitado.

Pequim sinalizou que é para a Evergrande "se virar sozinha" com a questão da sua dívida, diz o chefe global de mercados e pesquisa do ING, Chris Turner, em relatório. Mas a avaliação é que se a coisa piorar, o governo chinês pode fazer algum tipo de ajuda financeira, evitando o pior cenário.

É pouco provável que Pequim socorra totalmente a empresa. Primeiro, porque os dirigentes do Partido Comunista estão mais preocupados com as gigantes do setor de tecnologia e os dados que armazenam. Segundo, porque o próprio governo quer que o setor de construção reduza fortemente seu endividamento. Essa intenção ficou clara no começo deste ano, quando Pequim estabeleceu métricas financeiras para desalavancar o segmento e a Evergrande não passou em nenhuma.

Na visão do analista de mercado financeiro em Nova York da corretora Oanda, Edward Moya, o nervosismo nas Bolsas na quinta-feira, 16, por causa do possível efeito da quebra da empresa, acontece especialmente em um momento que os indicadores de atividade estão vindo fracos.

O JPMorgan vê no episódio da Evergrande, que tende a se arrastar, o maior risco para o perfil de crédito da China, com potencial de criar um efeito dominó entre fornecedores e pequenos emprestadores. Na quinta, a empresa suspendeu a negociação de seus bônus no país e ainda tem US$ 8 bilhões a vencer. O problema é a crise de liquidez autoalimentada da empresa: as vendas despencaram refletindo a queda da demanda e muitas obras pararam; assim falta caixa e não consegue pagar o serviço da dívida; sem crédito, não consegue recurso para tocar as obras.

Com a gravidade da situação, os analistas de crédito da Fitch Ratings alertaram esta semana que a situação da Evergrande, que já teve seu rating rebaixado, é grave e pode elevar o risco de crédito para vários segmentos, mas no setor financeiro, oferece risco maior para bancos pequenos. 

A S&P Global vê o default da empresa como praticamente uma certeza, o que deve levar a um amplo programa de reestruturação de dívida. Esse temor só aumentou esta semana com o anúncio da Evergrande da contratação da firma americana Houlihan Lokey, que cuidou do processo do Lehman e da gigante de energia Enron. 

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Por que a economia da China está ameaçada pelas dívidas da Evergrande

Empresa é a incorporadora imobiliária mais endividada do mundo, com débitos de US$ 300 bilhões, e especialistas alertam para o risco de falência, o que afetaria bancos, investidores e compradores de imóveis 

Alexandra Stevenson e Cao Li, The New York Times

17 de setembro de 2021 | 10h00

De tempos em tempos, uma empresa cresce tanto e de forma desorganizada que o governo fica com medo do que aconteceria com a economia no geral se ela falisse. Na China, a Evergrande, a incorporadora imobiliária em expansão, é essa empresa.

Mas a Evergrande distingue-se por ser a incorporadora imobiliária mais endividada do mundo e tem visto a sua situação piorando cada vez mais há meses. E a chegada de más notícias seguidas nas últimas semanas tem acelerado o que muitos especialistas alertam ser inevitável: a falência.

A agência de classificação Fitch disse esta semana que o default (calote) "parece provável". A Moody's, outra agência de classificação, disse que a Evergrande está sem dinheiro e sem tempo. Ela tem dívidas de mais de US$ 300 bilhões, centenas de edifícios residenciais inacabados e fornecedores furiosos que deram fim aos canteiros de obras. A empresa até mesmo começou a pagar as contas em atraso com a entrega de propriedades inacabadas.

Os analistas estão observando para ver se os reguladores chineses cumprem sua promessa de pôr em ordem o setor privado do país, deixando "bombas de dívidas" como a Evergrande colapsar.

Como a Evergrande se tornou um problema?

Em seus dias de glória, há uma década, a Evergrande vendia garrafas de água mineral, era dona do melhor time de futebol profissional da China e até mesmo se aventurou por um breve período na criação de porcos. Ela se tornou tão grande e vasta que tem até mesmo uma unidade que fabrica carros elétricos, embora tenha atrasado a produção em massa.

Porém, atualmente, a Evergrande é vista como uma ameaça periclitante aos maiores bancos da China.

A empresa, que foi fundada em 1996, aproveitou o épico boom imobiliário da China que urbanizou grandes áreas do país e teve como resultado aproximadamente 75% do dinheiro das famílias sendo destinados à habitação. Isso colocou a Evergrande no centro do poder em uma economia que passou a se apoiar no mercado imobiliário para um crescimento econômico acelerado.

Seu fundador, o bilionário Xu Jiayin, faz parte da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, um grupo de elite de consultores politicamente bem relacionados. As conexões de Xu provavelmente deram aos credores mais confiança para continuar emprestando dinheiro à Evergrande conforme ela crescia e se expandia em novos negócios. Entretanto, depois de um tempo, a Evergrande acabou com mais dívidas do que poderia pagar.

Nos últimos anos, ela enfrentou ações judiciais de compradores de imóveis que ainda estão esperando a conclusão dos apartamentos parcialmente pagos. E fornecedores e credores reivindicaram centenas de bilhões de dólares em contas pendentes. Alguns suspenderam a construção dos projetos da Evergrande.

Por que a empresa está com tantos problemas agora?

A Evergrande poderia ter sido capaz de seguir em frente com as atividades não fosse por dois problemas. Primeiro, os reguladores chineses estão fechando o cerco contra os hábitos imprudentes de empréstimos das incorporadoras imobiliárias. Isso forçou a Evergrande a começar a vender parte de seu vasto império de negócios. E a estratégia não está indo muito bem. Ela ainda não vendeu sua unidade de veículos elétricos, apesar de ter conversado com possíveis compradores. Alguns especialistas dizem que os interessados estão esperando uma liquidação total.

Em segundo lugar, o mercado imobiliário da China está desacelerando e há menos demanda por novos apartamentos. Esta semana, um famoso think tank de Pequim, a Instituição Nacional de Finanças e Desenvolvimento, declarou que o boom do mercado imobiliário “deu sinais de uma reviravolta”, citando a fraca demanda e a desaceleração nos dados de vendas.

Muito do dinheiro que a Evergrande conseguiu angariar veio da venda de apartamentos que ainda não foram finalizados. Ela tem aproximadamente 800 projetos em toda a China que estão inacabados e cerca de 1,2 milhão de pessoas ainda estão esperando para se mudar para suas novas casas, de acordo com uma pesquisa da REDD Intelligence.

A Evergrande reduziu os preços dos apartamentos novos, mas nem isso conseguiu atrair mais compradores. Em agosto, ela realizou 25% a menos de vendas do que no mesmo período há um ano.

As autoridades reguladoras chinesas vão intervir para salvar a Evergrande?

Pequim ficará tentada a dizer “não”, mas um colapso poderia provocar sérios danos, deixando proprietários de imóveis, fornecedores e investidores do país - possivelmente na casa dos milhões - descontentes. E, em última instância, Pequim acabou se mexendo para apoiar outras grandes empresas com problemas gigantes no passado.

Durante anos, muitos investidores deram dinheiro para empresas como a Evergrande porque acreditavam que, no fim das contas, Pequim sempre interviria para resgatá-las se as coisas ficassem muito instáveis. E, durante décadas, os investidores estavam certos. Mas, no decorrer dos últimos anos, as autoridades têm mostrado uma disposição maior em permitir a falência das empresas para controlar o problema da dívida insustentável da China.

As autoridades arrastaram os executivos da Evergrande para uma reunião no mês passado e disseram a eles para dar um jeito com suas dívidas. Elas também continuaram a dizer a seus bancos para reduzirem seus empréstimos à incorporadora.

Como a falência da Evergrande afetaria a economia da China?

Uma campanha do banco central para controlar a dívida imobiliária e reduzir a exposição do setor bancário a incorporadoras com problemas deveria significar que uma falência da Evergrande teria menos impacto no sistema financeiro da China. Mas a realidade talvez não seja tão simples assim.

O pânico dos investidores e compradores de imóveis poderia se espalhar para o mercado imobiliário e atingir os preços, afetando a riqueza e a confiança das famílias. Isso também poderia abalar os mercados financeiros globais e tornar mais difícil para outras empresas chinesas continuarem a financiar seus negócios com investimento estrangeiro. Em artigo para o Financial Times, o investidor bilionário George Soros alertou que um calote da Evergrande poderia causar o colapso da economia chinesa.

Chen Zhiwu, professor de finanças da Universidade de Hong Kong, disse que uma falência poderia resultar em uma escassez de crédito para toda a economia, à medida que as instituições financeiras se tornam mais avessas ao risco. Uma falência da Evergrande, acrescentou ele, "não era uma boa notícia para o sistema financeiro ou para a economia no geral".

Mas nem todo mundo está tão pessimista. Bruce Pang, economista da China Renaissance Securities, disse que um calote poderia estabelecer as bases para uma economia mais saudável no futuro. “Se a Evergrande estiver prestes a dar fim à crença cada vez menor de ‘grande demais para falir para falir’, isso provará a menor tolerância de Pequim para as inadimplências, apesar das dores e dos transtornos no curto prazo”, disse Pang.

Os investidores estrangeiros devem se preocupar?

Os investidores estrangeiros têm para receber US$ 7,4 bilhões em pagamentos de títulos da Evergrande somente no ano que vem. Em vários momentos deste ano, eles entraram em pânico, levando a negociação dos títulos no mercado secundário a novas profundidades. Na semana passada, os títulos de dívidas da Evergrande estavam sendo cotados a 50 centavos de dólar. A negociação de sua dívida estava tão frenética que, em certo ponto, os reguladores pararam brevemente de comercializá-las.

A principal listagem de ações da empresa em Hong Kong perdeu mais de 75% de seu valor no ano passado.

Os investidores estrangeiros estão preocupados com o fato de que, se Evergrande falir, todo o dinheiro que lhes é devido desaparecerá no ar. As autoridades em Pequim sinalizaram que não estão mais dispostas a socorrer os detentores de títulos do país ou estrangeiros. Em qualquer processo de falência, eles estariam no final da lista de credores para conseguir qualquer um dos ativos da empresa chinesa. 

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Exportadores de commodities são principal exposição do Brasil ao 'risco Evergrande'

Problemas financeiros da incorporadora chinesa, que tem dívidas de cerca de US$ 300 bilhões, já mexe com a cotação internacional do minério de ferro

Wagner Gomes, Gabriel Baldocchi e Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2021 | 10h00
Atualizado 17 de setembro de 2021 | 15h20

Os novos sinais de problemas financeiros da incorporadora chinesa Evergrande colocam o tema no radar do mercado brasileiro sobretudo pelos potenciais impactos às empresas de commodities (produtos básicos, como alimentos, minério de ferro e petróleo, cotados em dólar). A gigante imobiliária viu seus papéis caírem 3,42% nesta sexta-feira, 17, em Hong Kong, depois de já terem se desvalorizado mais de 6% na quinta-feira, 16, após informar que não vai conseguir fazer o pagamento de juros próximos a vencer. 

O tombo foi acompanhado pela queda dos papéis de outras incorporadoras e influenciou o preço do minério de ferro, muito consumido pelas empresas de construção. Para os analistas, a queda no preço da commodity, que despencou 4,91% nesta sexta, com perdas acumuladas de 21,4% na semana, pode se aprofundar, para menos de US$ 100, mas o impacto deve ser pontual e a expectativa é que o valor suba novamente.

O mercado imobiliário é um dos principais motores da economia chinesa, com uma participação de quase um quarto do Produto Interno Bruto (PIB). A Evergrande é o segundo maior nome do setor e acumula dívidas de aproximadamente US$ 300 bilhões. Os problemas de liquidez da empresa embutem o temor de uma desaceleração mais profunda do setor imobiliário na China e de que o ritmo de crescimento esteja perdendo força, com impactos nos principais fornecedores de matéria prima pelo mundo.

Rafael Foscarini, diretor de Estratégia da Belo Investment Research, diz que o preço do minério de ferro está mais relacionado à questão política na China e que, se a incorporadora conseguir rolar a sua dívida na próxima semana, o preço da commodity sobe de novo. O minério terminou a sexta-feira cotado a US$ 101,95 a tonelada, a caminho para a maior sequência de quedas em mais de três anos, de acordo com a Genial Investimentos.

"Houve precificação de queda da demanda e, por isso, o preço da commodity caiu. Mas o mercado acionário é exagerado tanto para cima quanto para baixo. Então, se a empresa não quebrar, o papel pode voltar a subir, levando para cima também o preço do minério de ferro", diz Foscarini.

Para Roberto Motta, chefe da mesa de derivativos da Genial, a situação vem se deteriorando e o principal impacto para o Brasil se dá pela queda no preço do minério. "A principal questão é que o mercado imobiliário na China tem um peso muito importante no PIB. Não é mais um problema isolado da Evergrande", afirma. "Quanto mais tempo a China demorar par achar uma solução, maior será a deterioração num dos setores mais importantes da China."

Segundo Motta, um eventual colapso da Evergrande poderia trazer impacto ainda no fluxo de recursos de investidores estrangeiros para os países emergentes.

Os novos indícios de dificuldade da gigante chinesa colocaram em dúvida se haveria o risco de uma eventual quebra provocar o mesmo efeito do colapso do Lehman Brothers na crise de 2008. A maior parte dos analistas descarta esse risco porque acredita numa intervenção do governo chinês. O mais provável é que as autoridades intercedam para administrar uma situação de calote organizado, em que as perdas são distribuídas gradualmente e de forma ordenada.

"A China deve absorver isso, não tem interesse que isso (quebra) aconteça com uma empresa de grande porte. Se isso acontecesse, o impacto seria muito grande", afirma Luiz Fernando Carvalho, estrategista-chefe da Ativa Investimentos.

Carvalho acredita, portanto, numa situação de queda temporária sobre o preço das commodities. Ele lembra que, do outro lado, pesam como fatores positivos a reabertura de economias pelo mundo. "Pode ser um respiro de ajuste, mas commodities permanecerão pressionadas porque as cadeias de fornecimento ainda estão sendo retomadas."

Diminuição na produção da Vale

Foscarini diz que a decisão da Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, de reduzir a sua produção no ano que vem para 370 mil toneladas, contra previsão anterior de 400 mil toneladas, também deve ajudar a elevar o preço da commodity. Procurada, a Vale preferiu não se manifestar. Os papéis da mineradora brasileira caíram mais de 4% na quinta-feira.

"A Austrália produz mais do que o Brasil, mas a Vale não deixa de ser um importante player do setor. Existem vários fatores puxando o preço para cima e para baixo. Então, é importante monitorar o curto prazo e as perspectivas de médio e longo prazos", afirma Foscarini.

Pedro Galdi, analista da Mirae Asset, concorda que a queda do minério de ferro continua mais associada à parada de uma parcela das siderúrgicas na China para reduzir a poluição e principalmente pelo fato de que a economia mundial está dando sinais de fraqueza com o ressurgimento da covid-19. Ele explica que os estoques de minério de ferro na China estão um pouco acima do normal e quando a produção de aço voltar o preço da commodity vai subir novamente.

"A dificuldade é dizer quando, mas o preço do minério vai subir novamente assim que a produção voltar à normalidade", comenta Galdi.

Galdi diz que o surgimento de novas variantes da covid-19 está atrapalhando o crescimento em várias regiões, inclusive na China, que já tem novamente cidades isoladas para não propagar o vírus. Segundo ele, isso acabou atrapalhando a economia do país. Além disso, o governo está se esforçando em atingir uma meta de reduzir a emissão de CO2, já que poluição lá está em níveis muito elevados.

"Uma forma de atender essa meta é reduzir algumas atividades, como a siderúrgica, principalmente em regiões onde a poluição se mostra mais forte. Os recentes indicadores econômicos no mundo estão mostrando uma redução do crescimento, o que justifica esta redução da siderurgia na China", comenta.

Foscarini lembra que os fundamentos de oferta e demanda ditam o preço no médio e longo prazo.

"No final do ano passado, a tonelada do minério, em torno US$ 150 a US$ 160, já era considerada um patamar elevado. O governo chinês já estava preocupado com esse valor porque eles importam 70% do minério de ferro do mundo e produzem 50% do aço do mundo. É quase que um monopólio na importação de minério e produção de aço", comenta o analista.

Houve um movimento de escalada forte e a tonelada do minério chegou a US$ 237. O governo chinês ficou bastante preocupado e começou a controlar mais.

"O discurso oficial é a preocupação com as metas ambientais, já que a produção de aço é bastante poluente. Mas historicamente a China é um país pouco preocupado com metas climáticas. E o que mais justifica esse tratamento com a produção de aço é a inflação do produtor, que estava muito alta. O motivo econômico, portanto, era a inflação alta do produtor que poderia ser passada, inclusive para o consumidor chinês. Então, o governo fez essa manobra de justificar as questões climáticas", explica Foscarini.

Interesse pelo mercado imobiliário

Enquanto o impacto em commodities é mais evidente, o potencial colapso da Evergrande tem pouco risco de diminuir o apetite dos investidores globais de mercado imobiliário, na visão de Fábio Bergamo, diretor da JLP Asset Management, gestora de ativos imobiliários com atuação nos EUA, Europa e Ásia. Isso porque, segundo ele, os investidores sabem diferenciar as particularidades do setor em cada país.

"O setor imobiliário é uma operação muito local. E os outros mercados ao redor do mundo, como Estados Unidos e Brasil, estão em um momento positivo", explicou.

Os problemas financeiros da Evergrande vão afetar detentores de títulos de dívidas corporativas espalhados pela China e por outros países. Mas o grande peso, avalia Bergamo, será sobre os bancos credores chineses, fornecedores locais de materiais de construção e cerca de 1,5 milhão de cidadãos que compraram imóveis na planta.

Isso vai forçar o governo chinês a pensar se intervém e evita a quebra da incorporadora, evitando o descontentamento de cidadãos locais, ou se lava as mãos, afastando o risco de grandes conglomerados acreditarem que podem especular à vontade. "Esse é um desafio para o governo de Beijing", apontou Bérgamo. 

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