Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Crise das montadoras responde por um terço da queda do PIB

Recuo de 24% na produção de veículos este ano arrastará outros setores da cadeia produtiva com impacto de 0,5 ponto porcentual do PIB e dezenas de milhares de demissões

Cleide Silva, Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2015 | 19h31

A crise no setor automotivo deve responder por um terço da retração da economia brasileira esperada para 2015. No cenário econômico complicado para este ano, analistas estimam uma retração do Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente 1,5%. A contribuição negativa do setor nessa conta é de 0,5 ponto.

O tombo da indústria automobilística provoca estrago na economia brasileira porque o setor responde por 10% da indústria nacional e, consequentemente, por 2,2% do PIB, segundo cálculos da Tendências Consultoria. Para este ano, a consultoria estima uma queda de 24% no setor na produção medida pelo IBGE. 

“A queda está muito forte, e o peso do setor na economia é muito grande. Uma retração desse tamanho puxa a indústria para baixo e, consequentemente, o PIB”, afirma Rodrigo Baggi, analista da Tendências. 

5% do PIB

A conta pode ser considerada conservadora, pois a Tendências trabalha apenas com dados da produção de veículos. Mas a cadeia produtiva engloba segmentos como autopeças, siderurgia, químico, plástico e borracha. Além disso, tem a área de serviços, como revendas e financeiras. Somando as autopeças, a participação do setor no PIB sobe para 5%. No industrial, é de 21%.

Pelas projeções da Anfavea, associação que representa as montadoras, devem ser produzidos este ano 2,585 milhões de veículos, 17,8% menos que em 2014. O volume será o mais baixo desde 2007. A diferença de um ano para outro representará R$ 13 bilhões a menos em arrecadação de impostos, informa Luiz Moan, presidente da entidade. 

De janeiro a maio, a queda está em 19,1% em comparação a 2014 (1,092 milhão de unidades). Em vendas, o tombo é de 21% (1,106 milhão de unidades).

O desempenho negativo arrasta os demais setores da cadeia e o efeito mais perverso é nos empregos. Na indústria de aços, que vende 22% de sua produção para as montadoras, 12 mil postos foram eliminados nos últimos 12 meses. Há também 1,4 mil trabalhadores com contratos suspensos (lay off).

“A crise tem uma componente estrutural e conjuntural. O País veio de um crescimento pífio no ano passado, e projeção de uma recessão para este ano. Com isso, os setores não crescem”, diz o presidente do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes.

Fornos desligados

Com a queda das encomendas, a Usiminas, que tem um terço de sua produção voltada às montadoras, desligou dois altos-fornos em Cubatão (SP) e Ipatinga (MG). A medida não era adotada desde 2009. Funcionários da área administrativa terão a jornada reduzida em um dia por semana, com corte proporcional de salários.

Cálculos da PriceWaterhouseCoopers (PwC) indicam que, para cada emprego na montadora, há outros 12 gerados na cadeia automotiva. Por essa conta, o setor emprega mais de 1,5 milhão de pessoas. Na relação inversa, as 6,3 mil vagas fechadas nas montadoras até maio teriam provocado outras 75,6 mil demissões em diversas áreas. Até abril, só as revendas de veículos cortaram 12 mil postos e as autopeças, 7,4, mil.

Demissão nas férias

No meio das férias, Willians Borges Corrêa, de 40 anos, foi informado por telefone que fora demitido da concessionária em que trabalhava havia quatro anos. “Saímos eu e mais uns quatro. Mas, contando os de outras unidades, foram muitos”, diz. Ele mora com os pais, aposentados, e ganhava entre R$ 4,5 mil a R$ 6 mil por mês. Pretende continuar na área, mas está desanimado. “No meu ramo, acho que o desemprego vai aumentar.”

Alternativas

A Karmann-Ghia, tradicional fabricante de autopeças em São Bernardo do Campo (SP), registra 45% de queda nas encomendas na comparação com 2014. Uma nova linha para usinagem de peças, que recebeu investimento de US$ 10 milhões no ano passado, ainda não iniciou operação.

Antes, 100% da produção era voltada às montadoras. “Neste ano estamos buscando novos negócios nos setores eólico, naval e eletrônico”, diz Elvio Sacchi, gerente comercial. “Não fosse isso o buraco seria maior.”

No início do ano, a Karmann-Guia demitiu 30% do seu quadro de pessoal e espera manter os 285 trabalhadores que sobraram. “Estamos buscando novos projetos para suprir a atual ociosidade, de 40%”, diz Sacchi. 

A PK Cables, fabricante de chicotes elétricos, também viu as encomendas caírem 45% nos últimos 12 meses mas não encontrou alternativas. A unidade do grupo em Itajubá (MG) foi fechada em maio e os 500 funcionários foram demitidos.

A unidade de Curitiba (PR) fechará as portas em março e 600 operários serão dispensados. A produção será concentrada na filial de Campo Alegre (SC). “Passamos por dificuldades em 2008, mas a crise atual é muito mais forte”, diz o responsável pelo setor de RH, Celso Silva.

Os fabricantes de pneus venderam 20,8% menos para montadoras nos primeiros cinco meses do ano, segundo a Associação Nacional da Indústria de Pneus (Anip). A Pirelli tem 1,5 mil trabalhadores em lay-off e Bridgestone e Michelin têm 4,8 mil em férias coletivas.

Setor enfrenta ‘tempestade perfeita’

A rápida deterioração da economia brasileira provocou uma espécie de “tempestade perfeita” para a indústria brasileira, em especial para o setor automotivo.

Desde janeiro, houve uma forte queda na confiança das famílias, o que impactou diretamente o desejo do brasileiro em adquirir bens duráveis. A inflação também subiu mais do que o esperado, obrigando o Banco Central a conduzir uma política monetária mais rigorosa, promovendo sucessivos aumentos na taxa de juros. 

Essa combinação provocou a queda da renda, aumento do desemprego e tornou o financiamento para a compra de veículos escasso e caro.

“O que puxou as vendas de automóveis nos últimos dez anos foi justamente a confiança do emprego e o fato de a parcela do automóvel caber no bolso do consumidor”, diz Marcelo Cioffi, sócio da consultoria PriceWaterhouseCoopers (PwC).

O cenário se agravou ainda mais porque houve um aumento dos custos para a indústria. Em 2015, a economia brasileira passa por uma correção de preços administrados, como o da energia, e o setor automotivo também lida com a volta total do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o que encareceu o preço dos veículos. 

“É inevitável que haja um repasse dos custos por mais que a demanda esteja muito reprimida”, afirma Rodrigo Baggi, analista do setor automotivo da Tendências Consultoria Integrada. “Há uma soma de fatores prejudicando o setor”, diz.

Na opinião de Cioffi, com o retrocesso no mercado de veículos, o setor automotivo pode atrasar em cerca de quatro anos a projeção feita em 2010, de produção de 4,2 milhões de automóveis e comerciais leves, antes esperada para 2015.

Ele ressalta que, além de empregos, as montadoras estão enxugando custos fixos não produtivos que acabam impactando também em setores diversos, como o aéreo e de turismo (com menos viagens e hospedagens) e o de serviços (menos refeições).

Exportação

Nesse momento de fraqueza do mercado interno, o setor externo sempre é apontado como uma das saídas para a recuperação da indústria automotiva. 

Mas a tarefa também é difícil porque o Brasil ficou para trás. Depois da crise internacional de 2008, a indústria automobilística brasileira perdeu mercado entre os países desenvolvidos por causa da queda da demanda global.

As exportações também ficaram concentradas na Argentina, país que lida frequentemente com crises financeiras intensas. “As vendas para a Argentina chegaram a responder por 70% a 80%”, afirma Baggi, da Tendências. “Em 2014, as exportações de veículos recuaram 40% por causa das condições da Argentina.”

O desafio de buscar novos parceiros esbarra no chamado custo Brasil, que tira competitividade da indústria e dificulta a competição internacional.

“Apesar de a alta do câmbio ajudar bastante, os veículos de outros países são mais baratos que os brasileiros. A estrutura tributária penaliza a exportação e há problemas de mecanismos de financiamento”, afirma Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da Barral M Jorge Consultores. “São várias dificuldades que não são só do setor automotivo, mas de toda a economia”, afirma. 

/Colaborou Anna Carolina Papp

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