KEVIN COOMBS/REUTERS
KEVIN COOMBS/REUTERS

Matthew A. Winkler, Bloomberg

15 Setembro 2018 | 05h00

Quem tentar entender o estrago do Lehman Brothers deve começar pelas duas expressões que resumiram o maior estouro bancário da história dos Estados Unidos. A mais famosa das duas é “grande demais para quebrar” (em inglês, too big to fail), mas a mais importante é “afrouxamento quantitativo” (quantitative easing, na expressão em inglês – quando a economia recebe uma injeção de dinheiro para ser estimulada ou aquecida).

Na década que transcorreu desde o colapso do Lehman, a primeira expressão apareceu em 2.241 artigos na agência Bloomberg e foi nome de um best-seller e de um filme. Já o afrouxamento quantitativo apareceu no dobro de notícias e artigos. A grande diferença numérica mostra algumas lições aprendidas com o fim do Lehman. 

Antes de 15 de setembro de 2008, quando a empresa de 158 anos quebrou, poucos acreditavam que as autoridades americanas permitiriam que um gigante como o Lehman viesse a deflagrar uma onda de insolvência que paralisaria grande parte do sistema financeiro global.

Em poucos meses, o mercado de ações perdeu quase US$ 10 trilhões. Quando o quarto maior banco de investimentos – depois do Goldman Sachs, do Morgan Stanley e do Merrill Lynch – afundou, o crédito evaporou e não havia nada que impedisse seus similares maiores de seguir o mesmo caminho. 

Então, no último trimestre daquele ano, o Federal Reserve Bank de Nova York, atuando como agente do Tesouro dos Estados Unidos, deu início à mais controversa e sem precedentes política monetária de sua história. 

Sua política de regularização financeira, com a criação de “dinheiro novo”, envolvendo a compra de imensas quantidades de ações, não apenas reverteu a maior queda já vista do PIB dos EUA como lançou as bases da expansão de 105 meses que se seguiu e dá indícios de se tornar a mais duradoura da história dos EUA. O resultado imediato foram juros e inflação bem abaixo do nível que precedeu todas as retrações econômicas desde 1955. 

As empresas americanas, medidas por seu índice de endividamento em relação ao patrimônio líquido, tornaram-se as mais saudáveis desde que tal índice começou a ser levantado pela Bloomberg, em 1955.

Pela primeira vez desde sua fundação, em 1913, o Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos, adquiriu todo tipo de ativos financeiros que estavam congelados com a quebra do Lehman. Ele manteve empréstimos a custo zero e permitiu ao Goldman Sachs e ao Morgan Stanley que se tornassem bancos comerciais, beneficiando-se de tal liquidez. 

O Fed encerrou o programa de afrouxamento quantitativo em 2014, aumentou as taxas de juros sete vezes desde 2015 e começou no último ano a reduzir seu balanço patrimonial de US$ 4 trilhões. Dez anos após seu colapso, o Lehman continua sendo o maior pesadelo financeiro mundial porque era grande demais e quebrou. Se não fosse pela afrouxamento quantitativo, ainda estaríamos vivendo esse pesadelo. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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Dez anos depois, os ecos do Lehman Brothers nos nossos tempos de desconfiança

Não é difícil sugerir que a eleição do presidente Donald Trump foi um resultado direto da crise financeira

The New York Times

15 Setembro 2018 | 05h00

Esta semana é o décimo aniversário do ponto de inflexão da crise financeira: o colapso do Lehman Brothers, a maior falência da história. Para alguns, parece que foi há muito tempo. No entanto, seus efeitos ainda ecoam na maneira como vivemos hoje – nas atitudes que permeiam nossa economia, nossa cultura e nossa política. Não é difícil sugerir que a eleição do presidente Donald Trump foi um resultado direto da crise financeira.

A crise foi um momento que marcou uma divisão em nosso país. Ele rompeu um contrato social entre os plutocratas e todos os outros. Mas também quebrou um sentimento de confiança, não apenas nas instituições financeiras e no governo que as supervisionava, mas na própria ideia de especialistas e conhecedores. Os últimos 10 anos viram uma revolta aberta contra a intelligentsia.

A desconfiança levou a novos movimentos políticos: o Tea Party para aqueles que não confiavam no governo e o Occupy Wall Street para aqueles que não confiavam nas grandes empresas. Isso trouxe um afastamento entre os democratas e os republicanos de maneiras fundamentais, e as atitudes populistas em ambos os extremos do espectro encontraram os campeões na corrida presidencial de 2016 no senador Bernie Sanders e Donald Trump.

A profundidade do desespero financeiro durante a Grande Recessão e a recuperação invariavelmente lenta desencadearam um sentimento de amargura que domina o cenário político, culminando na vitória eleitoral de Trump.

“Estamos praticamente em conflito e discordância quando os tempos estão bons”, disse Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, o maior fundo de hedge do mundo com cerca de US$ 150 bilhões em ativos, e autor de um novo livro, A Template for Understanding Big Debt Crises (Um modelo para compreender grandes crises da dívida), um estudo exaustivo do pânico financeiro e das políticas que tanto os criaram como fizeram o resgate.

As crises mais profundas, ele disse, sempre levam ao populismo. E não deveria ser surpresa que uma crise leve ao conflito e, em alguns casos extremos, à guerra. "Eu estaria preocupado com a emergência do populismo", disse ele, “porque os populistas tendem a querer combater o outro lado, em vez de tentar encontrar maneiras de superar isso". Populistas de todos os lados do espectro político comum que eles são confrontos’”, disse ele.

Quando escrevi Too Big to Fail (Grande demais para falir) há quase uma década, sabia que a crise redefiniria Wall Street e a economia, mas não avaliei o quanto isso redefiniria fundamentalmente o ambiente político.

Amir Sufi, professor de economia e política pública da Faculdade de Administração Booth da Universidade de Chicago e co-autor de House of Debt, apontou a crise financeira como a fonte de redução da civilidade poucos meses após a vitória de Trump. Ele conduziu uma análise de 60 países com o co-autor de House of Debt, Atif Mian da Universidade de Princeton, e Francesco Trebbi da Universidade de British Columbia. Eles descobriram que tal resposta era “comum e previsível”, escreveu ele.

“Nossa conclusão: as crises financeiras tendem a radicalizar os eleitorados”, escreveu Sufi. “Depois de uma crise bancária, monetária ou de dívida, nossos dados indicam que a participação de centristas ou moderados em um país caiu, enquanto a proporção de radicais de esquerda ou de direita aumentou na maioria dos casos”.

Nos Estados Unidos, a crise expôs uma economia que tinha sido uma farsa – uma que a maioria dos americanos não entendeu ou apreciou. O uso da dívida havia mascarado os problemas reais sob a superfície: uma diminuição significativa na participação dos trabalhadores, a automação que levaria a empregos e o crescimento salarial estagnado.

Essas questões eram muito anteriores à crise. Mas, como Warren Buffett definiu, em frase que ficou famosa: “Você só descobre quem está nadando nu quando a onda recua".

Na verdade, nossa economia hoje está em muito melhor forma do que se poderia esperar, com o desemprego em 3,9% - menor do que era antes da crise.

Ainda assim, persistem debates sobre a forma como o governo, primeiro sob o presidente George W. Bush e depois sob Barack Obama, optou por responder à crise. Deveria ter feito algo mais diretamente para os proprietários de casas? Deveria ter exigido termos mais onerosos para as centenas de bilhões de dólares em empréstimos aos bancos e banqueiros, tais como restringir a compensação e demitir executivos para demonstrar mais responsabilidade? Alguns banqueiros deveriam ter ido para a cadeia?

Para alguns, é tentador pensar que o governo deveria ter adotado uma abordagem mais populista. Se tivesse oferecido mais ajuda diretamente ao público do que o que era percebido como socorrer os bancos, há uma suspeita de que as divisões poderiam ser menores, gerando mais união nos Estados Unidos.

Na Grã-Bretanha, o governo fez todas essas coisas politicamente populares: restringiu o pagamento dos bancos, demitiu executivos, emprestou dinheiro aos bancos em condições onerosas, restringiu gastos.

Não funcionou. A economia britânica cresceu de forma significativamente mais lenta que a nossa. E o ressentimento e a amargura daí resultantes foram muito piores do que os nossos, levando a uma manifestação do populismo ainda mais drástica: o voto inimaginável de deixar a União Europeia.

Há uma pergunta que ouço mais do que qualquer outra: “Teremos outra crise?” A resposta, claro, é sim. Mas não é uma crise de Wall Street semelhante a 2008 que me preocupa. Estou preocupado com algo muito maior.

Quando escrevi Too Big to Fail, essa frase foi usada apenas no contexto de instituições financeiras. Hoje, é usada para se referir a cidades, municípios, estados e países. Se você olhar para o acúmulo de dívidas, esse é o ponto para se ficar de olho.

A dívida impossível de se administrar é o fósforo que acende o fogo de todas as crises. Você pode ter tantos atores ruins no palco quanto quiser – banqueiros gananciosos, reguladores incompetentes, agências de classificação de risco conflituosas -, mas, a menos que haja alavancagem significativa no sistema, há pouco risco de uma crise. Nossa dívida nacional é de mais de US$ 21 trilhões e aumentou US$ 1 trilhão em apenas seis meses sob Trump, que adotou um sentimento populista e anti-establishment para a Casa Branca, mas cujas escolhas políticas favoreceram amplamente os ricos.

Esse não é o único motivo de preocupação. Se a história nos diz que as divisões políticas que temos visto desde a crise financeira eram previsíveis, então o que a história tem a dizer sobre o que vem a seguir?

Dalio apontou para o resfriamento nas relações internacionais que ocorreu após a Grande Depressão como um exemplo preocupante das divisões que podem aumentar quando o populismo promove o protecionismo. “Começamos a ter tarifas econômicas e começamos a ter essas idas e vindas”, disse ele.

Ele parou por um momento, sinalizando que não queria nem pensar no que mais tarde se manifestou. Mas ele continuou: “O que, dez anos depois, levou a Pearl Harbor”.

Existem, é claro, muitos passos entre o populismo e a guerra. Mas Dalio disse que viu semelhanças entre o ambiente global que precedeu a Segunda Guerra Mundial e o que vemos hoje.

É razão suficiente para nunca esquecer esta crise e suas lições./Tradução de Claudia Bozzo

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Nove lições da crise financeira global

Há lições relevantes que não foram suficientemente internalizadas, algumas que não foram previstas na época da crise e, contudo, hoje são urgentes e importantes

Por Mohamed A. El-Erian*, Bloomberg

15 Setembro 2018 | 05h00

Uma lição foi aprendida que levou a mudanças importantes por parte de indivíduos e instituições. Foi o caso nesta década desde que a crise financeira quase levou a economia global a uma depressão prolongada que devastou a vida de muita gente por pelo menos uma geração. Mas há lições relevantes que não foram suficientemente internalizadas, algumas que não foram previstas na época da crise e, contudo, hoje são urgentes e importantes.

Abaixo um resumo do que foi realizado após a crise, o que ficou inacabado e as conseqüências inesperadas.

Realizações

Sistema bancário mais seguro. Graças às defesas reforçadas para o capital, um enfoque mais responsável dos balanços e da gestão da liquidez, os bancos não representam mais um risco sistêmico importante em muitos países avançados, especialmente nos Estados Unidos. O que não significa que todos os países e todos os bancos estão seguros. Mas o sistema como um todo não é mais o tendão de Aquiles das economias de mercado.

Um sistema de pagamentos e compensação mais robusto. O fortalecimento do sistema bancário foi parte de um esforço mais amplo, e bem sucedido, para minimizar o risco de “paradas bruscas” nos mecanismos de compensação e de pagamentos,  que são cruciais no âmbito da economia global.  – ou seja, a perda de confiança nos contrapartes que afeta até mesmo as transações financeiras mais básicas, paralisando as transações econômicas.

Uma cooperação internacional mais inteligente. A crise destacou a importância de estratégias mais sólidas não só para administrar uma crise, mas também para preveni-la. No topo da lista estão medidas como a maior harmonização da regulamentação e da supervisão, um amplo, e mais pontual,  compartilhamento de informações e um foco maior no monitoramento de bancos atuantes internacionalmente. Os países, individualmente, têm percepções de como melhorar seus controles macro e micro- econômicos.

Fracassos

Crescimento inclusivo ainda escorregadio. Vai demorar muito para os responsáveis políticos nos países avançados entenderem que a grande recessão provocada pela crise financeira tinha componentes estruturais e seculares importantes. Ideias excessivamente cíclicas inicialmente impediram a elaboração e a implementação de medidas necessárias para gerar um crescimento forte que também fosse inclusivo. Quando essas idéias evoluíram a abertura política estreitou. Mesmo hoje muitos países avançados ainda precisam adotar medidas para impulsionar um crescimento duradouro e conter a pressão que impede uma potencial expansão.

Incentivos internos desalinhados. A julgar pelos incidentes que têm provocado manchetes,  de comportamentos e processos inadequados nos últimos anos, os incentivos e sanções em vigor  no caso de algumas instituições financeiras têm de funcionar. Essas instituições ainda assumem alguns riscos impróprios e outras adotam condutas inadequadas, como também privilegiam excessivamente o curto prazo nos pagamentos de remunerações e mostram uma tolerância administrativa no tocante a ações que estão muito próximas da linha que separa atividades permissíveis das não permissíveis.

Escassez de balancetes responsáveis. Colocar títulos impugnados e corrompidos em balancetes separados era a chave para conter grandes distúrbios financeiros. Mas isto envolvia uma confiança nos grandes balanços públicos, embora sua utilização tenha deparado cada vez mais com uma reação política e social. As preocupações com os efeitos da distribuição, incluindo o favorecimento do lucro corporativo em detrimento dos salários, de Wall Street em detrimento da Main Street, e dos ricos em detrimento dos pobres, aumentaram a já reduzida disponibilidade desses instrumentos para serem usados em crises futuras.

Consequências inesperadas

O grande ficou maior e o menor mais complexo. Apesar dos avanços quanto às medidas a adotar quando um banco vai à falência, especialmente se for um grande banco, a estrutura de mercado que surgiu depois da crise financeira envolve instituições muito maiores, particularmente as sediadas nos Estados Unidos. O mesmo fenômeno pode ser observado no campo da gestão de ativos, que surgiu à custa de um gradual esvaziamento das companhias financeiras de meio porte. Por outro lado, na outra extremidade, das pequenas instituições, observamos a proliferação de atividades de tecnologia financeira, que, na maior parte, são testadas durante um ciclo recessivo.

O risco se transformou e migrou para áreas sub-regulamentadas. Esta mudança da estrutura do mercado está ligada a outro fenômeno – a transformação e a migração do risco para não bancos. Esta dinâmica é particularmente notável na medida em que,  beneficiando-se de anos de ampla liquidez global e uma volatilidade financeira inusitadamente baixa, surgiu uma promessa excessiva de provisão de liquidez e uma também excessiva venda de volatilidade nas suas várias formas. E parte disto se incorporou na estrutura do sistema através da proliferação do produto, incluindo os Echange Traded Funds, ou ETF – (são fundos de investimentos negociados na Bolsa similares como se fossem uma ação), que implicitamente prometem liquidez instantânea em segmentos do mercado estruturalmente sujeitos a repetidos bolsões de iliquidez.

Flexibilidade política reduzida. Há uma limitação de títulos negociáveis com alta liquidez e considerados dinheiro vivo em caso de uma crise porque os juros ainda estão na faixa de zero ou mais baixo em grande parte do mundo avançado fora dos Estados Unidos, e os balanços dos bancos centrais ainda são grandes, e os patamares de dívida estão muito mais altos do que antes da crise financeira global. Isto indica que, mesmo havendo vontade política suficiente, a capacidade para gerir uma crise e uma recuperação pode ter diminuído em relação a dez anos atrás.

Todos aqueles que, como nós, enfrentaram a crise financeira global em primeira mão, administrando ativos e títulos no setor privado durante a turbulência do mercado, observaram que a imprevisibilidade sem precedentes fez com que o impensável se tornasse realidade com uma inquietante regularidade. Reconhecemos o quanto foi feito para evitar que uma situação calamitosa afete gravemente as gerações atuais e futuras, e também as medidas importantes adotadas para reduzir a probabilidade e a severidade de outra crise global.

Mas isto não significa que está tudo bem. São necessárias novas medidas, da parte do setor público e também do privado para enfrentar desafios antigos que mereceram pouca atenção após a crise, e para compreender e solucionar algumas das conseqüências inesperadas de 10 anos de gestão e prevenção da crise. Felizmente hoje sabemos muito mais a respeito. O maior desafio é fazer com que o processo político elimine sua importância num momento em que não há uma crise vigente ou em vista no mundo avançado./Tradução de Terezinha Martino

* El-Erian é colunista da página de Opinião da Bloomberg. Também é conselheiro economic chefe na Allianz SE, empresa matriz da Pimco, onde atuou como CEO e co-CIO. Escreveu livros como "The Only Game in Town" and "When Markets Collide."

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Megan McArdle, The Washignton Post

15 Setembro 2018 | 05h00

Num dia de primavera de 2006, eu estava sentada em um café de Nova York com um banqueiro especializado em derivativos de crédito. Ele me explicava por que o custo do crédito despencara. Tudo se resumia a “técnicas mais eficazes de análise de dados”. Ficamos tão mais eficientes em prever riscos de moratória ou oscilação de taxas de juros (dizia ele) que os banqueiros puderam reduzir drasticamente o preço dos empréstimos e ainda ganhar dinheiro.

“Ficamos realmente melhores ou apenas achamos que ficamos?”, perguntei. Ele me deu aquele sorriso complacente que gênios da matemática dão a estudantes novatos e confirmou: “Ficamos realmente melhores”. Dois anos depois o Lehman Brothers pedia concordata. No desastre que se seguiu meu banqueiro, como muitos outros, tornou-se um ex-banqueiro.

Andei pensando muito nele e naquela conversa agora que chegamos ao décimo aniversário do colapso do Lehman. O mundo então parecia simples e alegre naquele café ensolarado, e as pessoas pareciam sábias e brilhantes, especialmente para elas mesmas.

Lembrei-me também daqueles que, nos anos 2000, diziam que precisavam comprar uma casa antes que os preços em alta os condenassem a ser eternos inquilinos. E dos que se vangloriavam de quanto dinheiro haviam ganho comprando e vendendo casas. E ainda das longas e acesas discussões que tive com economistas sobre um fenômeno que vinha sendo chamado de “Grande Moderação”.

Cunhado por James Stock e Mark Watsonin em 2002, a expressão ficou famosa por um discurso de 2004 de Ben Bernanke, então membro da diretoria do Federal Reserve, o banco central americano. Por ela, entendia-se um firme declínio em décadas de volatilidade macroeconômica; em termos leigos, significava que os ciclos econômicos não mais se sucediam tão freneticamente.  

Isso era bom? Indicava mudanças estruturais na economia? Mais competência administrativa? Você naturalmente não ficará surpreso ao saber que a maioria dos políticos e executivos que entrevistei atribuiu essa tendência em grande parte (embora modestamente) a seu próprio tirocínio.

Aí veio o Lehman. Logo em seguida à quebra, entrevistei um famoso economista sobre a crise que se seguiu. “Fico pensando”, disse ele,”no que aconteceu com os inúmeros ‘sábios’ que escreveram teses e mais teses sobre a Grande Moderação.”

Suspeita-se que eles, como muitos de nós, estejam revendo suas crenças mais fervorosas. Para muitos economistas, a crise financeira de 2008 foi algo como a súbita revogação da lei da gravidade: as coisas pareciam ter começado a flutuar e ninguém se arriscava a prever quando voltariam à terra. “Se você ainda não mudou de ideia sobre muitas coisas é porque não pensou o bastante”, me disse um economista libertário.  

Eu me julgava bastante presciente – havia, por exemplo, expressado por escrito minhas primeiras preocupações com  uma bolha imobiliária em 2002 e realmente perguntei àquele banqueiro do café de Nova York se nossa avaliação de riscos era mesmo tão boa quanto achávamos. É claro que não tinha ideia, assim como ele, de que caminhávamos para o precipício. E continuei cega mesmo ao chegar à beira do abismo.  

Seis meses antes do Lehman, quando o Bear Stearns estava nos estertores, fiquei chocada com a possibilidade de um socorro financeiro por parte do governo. Governos não devem interferir no mercado! O capitalismo exige uma destruição criativa! Então o governo deixou o Lehman quebrar, e o mercado financeiro foi na esteira. Olhando para o abismo, descobri que havia uma insuspeitada ânsia por intervenção governamental em grandes quebradeiras de mercado.

Mesmo agora, passados dez anos, fico surpresa ao ver quão pouco, no fundo, minhas ideias mudaram. Continuo basicamente libertária, embora um pouco mais disposta a tolerar intervenção em casos extremos. Nisso, acredito ser mais ou menos típica. Se você se inclinava para a esquerda em 14 de setembro de 2008, nos meses seguintes culpou a ganância dos banqueiros e a desregulamentação descontrolada. Já seus opositores de longa data denunciaram com igual fervor os perversos incentivos criados pelas várias políticas governistas.

Uma retrospectiva de longo prazo também não nos dá substancialmente uma perspectiva diferente. A maioria de nós continua próxima de nosso velho território e se mantém bastante segura do que seja uma boa administração financeira. E continua certa de que todos os outros estão iludidos por uma combinação de ignorância, interesse próprio e preconceito ideológico.

É por isso, acho eu, que continuo incomodada com aquela conversa sobre os dias serem mais tranquilos antes da queda do Lehman. Todos, então, também tínhamos certeza de tudo. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ  

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Dias de medo, anos de antagonismo

Evitamos um desastre absoluto, mas, mesmo assim, experimentamos um enorme e contínuo despencar dos empregos, algo que infligiu imenso custo humano e econômico

Paul Krugman, The New York Times

15 Setembro 2018 | 05h00

O Lehman Brothers faliu há dez anos. A economia dos EUA já estava em recessão, mas a queda do Lehman e o caos que se seguiu a fizeram despencar em um penhasco: seis milhões e meio de empregos seriam perdidos durante o ano seguinte. Foi um momento terrível.

Ainda assim, não tivemos uma repetição completa da Grande Depressão, e alguns argumentaram que o sistema funcionou, uma vez que os formuladores de políticas fizeram o que era necessário para evitar uma catástrofe.

Mas isso é certo apenas pela metade. Evitamos um desastre absoluto, mas, mesmo assim, experimentamos um enorme e contínuo despencar dos empregos, algo que infligiu imenso custo humano e econômico – e pode muito bem ter ajudado a preparar o cenário para nossa atual crise constitucional. Por que a queda durou tanto tempo?

Há várias respostas, mas o fator mais importante foi a política – a obstrução cínica e de má-fé por parte do Partido Republicano.

Um ponto crucial que eu ainda não acho que seja sido amplamente compreendido é que, embora assustadora e prejudicial, a crise financeira – a interrupção nos mercados de crédito, que se seguiu ao colapso do Lehman – foi bastante breve. Medidas do estresse financeiro, que incluem coisas como spreads de taxas de juros em ativos de risco, aumentaram por alguns meses, mas rapidamente voltaram ao normal. O aspecto puramente financeiro da crise estava basicamente terminado no verão de 2009.

Mas a crise econômica mais ampla durou muito mais tempo. O desemprego subiu para quase 10%, depois diminuiu com uma dolorosa lentidão; só retornou aos 5% sete anos após a queda do Lehman. Por que a recuperação financeira rápida não levou a uma rápida recuperação econômica?

Num nível básico, a resposta é que a crise financeira foi apenas um sintoma de um problema maior: o colapso da gigantesca bolha imobiliária. A explosão da bolha exerceu uma poderosa pressão e queda na economia, tanto porque levou a um mergulho em investimentos residenciais como exerceu um enorme impacto sobre a riqueza das famílias, o que reduziu os gastos do consumidor.

O que a crise pedia, então, eram políticas para incentivar gastos, para compensar os efeitos do colapso imobiliário. Mas a resposta normal, cortar as taxas de juros, não estava disponível, porque as taxas já estavam próximas de zero. O que precisávamos, em vez disso, era do incentivo fiscal: aumento dos gastos do governo e cortes de impostos para famílias de baixa e média renda, que provavelmente os usariam em gastos.

E nós de fato conseguimos um estímulo substancial. Mas não foi suficientemente grande, e ainda mais importante, desapareceu rápido demais. Em 2013, com o desemprego ainda acima de 7,0%, o governo em todos os níveis estava fornecendo pouco mais apoio econômico do que em 2007, quando o boom imobiliário ainda estava forte.

Por que a resposta a uma economia deprimida foi insuficiente? Podemos debater incessantemente se o governo Obama poderia ter obtido um estímulo maior e mais sustentado por meio do Congresso; o que está claro é que algumas autoridades não perceberam a necessidade de políticas mais fortes. Quando Christina Romer, a principal economista do governo, defendeu mais estímulos, Tim

Geithner, secretário do Tesouro, descartou-os como “açúcar” (referência pejorativa a dinheiro).

Além disso, os esforços para combater o desemprego tinham de lidar com um consenso bizarro de que, apesar do alto desemprego e das baixas taxas de juros, a dívida, e não o emprego, era o verdadeiro problema.

Mas a razão mais importante pela qual a grande recessão durou tanto tempo foi a oposição republicana de terra arrasada a tudo e qualquer coisa que pudesse ter ajudado a compensar as consequências do colapso imobiliário.

Quando digo “terra arrasada”, não estou sendo hiperbólico. Não podemos esquecer que, no verão de 2011, os republicanos no Congresso ameaçaram provocar uma nova crise financeira, recusando-se a aumentar o limite da dívida. Sua meta era chantagear o presidente Barack Obama a cortar gastos no momento em que o desemprego ainda era de 9,0% e os custos reais de empréstimos nos EUA estavam próximos de zero.

Hoje em dia, os republicanos alegam que sua oposição a qualquer coisa que pudesse limitar o desemprego em massa fora motivada por um profundo comprometimento com a responsabilidade fiscal. Mas isso era uma total hipocrisia – algo que era óbvio para qualquer um que olhasse para o real conteúdo das propostas orçamentárias do Partido Republicano, que davam à ilusão uma má reputação. Infelizmente, havia muitos experts crédulos nos arredores.

De qualquer forma, os acontecimentos dos últimos dois anos mostraram de forma cristalina a realidade do que aconteceu. Os mesmos políticos que reverentemente declararam que os EUA não poderiam arcar com dinheiro para sustentar empregos em face de uma profunda e prolongada recessão, forçaram a imposição de um enorme corte de impostos para corporações e ricos, apesar de a economia estar próxima do pleno emprego. Não, eles não abandonaram seu compromisso com a responsabilidade fiscal; em primeiro lugar, eles nunca se preocuparam com os déficits.

Então, se você quer entender por que a grande crise que começou em 2008 prolongou-se por tanto tempo, destruindo tantas vidas americanas, a resposta é política. Especificamente, a política fracassou porque os republicanos cínicos e de má-fé estavam dispostos a sacrificar milhões de empregos em vez de deixar que algo de bom acontecesse à economia enquanto um democrata ocupava a Casa Branca. / TRADUÇÃO CLAUDIA BOZZO

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