Crise de confiança

Ontem, nos países em que não há feriado de Corpus Christi, os mercados acusaram o crescimento do pessimismo global. Caíram em dólares os preços da maioria das commodities (o ouro chegou a cair 2%) e do euro (0,3%). No Confira, você tem uma noção da queda das bolsas em todo o mundo.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2011 | 00h00

Esse comportamento reflete o atual momento de desconfiança. As avaliações de autoridades e analistas sobre o desempenho da economia mundial são cada vez menos alentadoras.

Na quarta-feira, por exemplo, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, não fez nenhum esforço para esconder sua avaliação ruim. Disse que o Fed não conseguiu entender até agora por que a economia americana não reage e se mostrou especialmente preocupado com a possibilidade de que um calote descontrolado da Grécia contamine a economia global. Quanto ao desempenho do mercado de trabalho nos Estados Unidos, repetiu o que vem dizendo desde 2007, ou seja, que acredita em que o desemprego, hoje equivalente a 9,1% da força de trabalho (mais de 14 milhões de trabalhadores), volte a recuar dentro de alguns meses.

Além disso, pela primeira vez, Bernanke avisou que os fundos de pensão dos Estados Unidos, cujo patrimônio deve oscilar com o valor real de seus ativos entre US$ 6 trilhões e US$ 8 trilhões, estão fortemente expostos à dívida grega. Se isso é assim, o que não aconteceria com o desempenho dessas carteiras se sobreviesse o tal contágio e títulos soberanos de mais países não forem honrados?

Também na quarta-feira, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, já não fez questão de falar em voz alta aquilo que há alguns meses apenas expunha aos sussurros em gabinetes fechados: dada a sua enorme exposição às dívidas soberanas, a má saúde fiscal de tantos países coloca em risco a saúde patrimonial de grandes bancos internacionais. E é isso o que os chefes de Estado da União Europeia estão tratando de consertar na reunião de cúpula de dois dias que começou ontem em Bruxelas.

Ontem, ainda, saiu mais um relatório semanal do Departamento do Trabalho sobre procura de auxílio-desemprego nos Estados Unidos. E o que se soube foi mais grave do que o esperado: na semana terminada no dia 18 de junho, nada menos que 429 mil americanos recorreram à assistência oficial a desempregados. São 9 mil a mais do que na semana anterior. E este foi um dos importantes fatores que detonaram as baixas registradas ontem pelas bolsas de valores.

O Departamento do Comércio dos Estados Unidos jogou mais combustível nessa fogueira ao divulgar ontem uma queda de 2,1% nas vendas de habitações novas em maio sobre as posições do mês anterior. Além disso, avisou que os preços médios dos imóveis novos continuam em queda, mostrando baixo poder aquisitivo e, talvez, mais do que isso: baixa capacidade de endividamento das classes médias dos Estados Unidos.

Enfim, este é um momento delicado da economia mundial. Nessa paisagem, o Brasil vai especialmente bem. Mas não está inteiramente imune às consequências do que os mais pessimistas estão temendo: novo mergulho na recessão global, que elevaria o desemprego, destruiria a renda e produziria sabe-se lá que mais tempestades políticas ao redor do mundo.

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