Crise de crédito dificulta a recuperação da economia

Apenas nos últimos 12 meses, R$ 1 trilhão deixou de circular na economia porque os devedores pagaram o que deviam aos bancos e estes não reemprestaram o que receberam

O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2016 | 05h00

Entre dezembro de 2014 e outubro de 2016, o saldo das operações de crédito realizadas no sistema financeiro aumentou apenas R$ 78 bilhões, de R$ 3,017 trilhões para R$ 3,095 trilhões em valores nominais, enquanto a relação entre esses montantes e o Produto Interno Bruto (PIB) diminuiu de 53,1% para 50,3%. Mas se esses números já bastam para mostrar o desinteresse dos bancos de conceder crédito – e o de muitas empresas e famílias de tomar empréstimos –, reportagem do Estado sugere que a situação é ainda mais grave.

Pelos cálculos do economista Evandro Buccini, da Rio Bravo Investimentos, apenas nos últimos 12 meses R$ 1 trilhão deixou de circular na economia porque os devedores pagaram o que deviam aos bancos e estes não reemprestaram o que receberam. É o que explica, segundo o analista, por que alguns indicadores de confiança melhoraram, fato que não ocorreu com índices sobre a situação atual. “Está explicado: sem crédito, sem dinheiro, a economia não vai mesmo reagir”, disse Buccini.

O Brasil, em resumo, estaria vivendo uma crise de crédito – e com isso concordam economistas como Zeina Latif, da XP Investimentos, e Monica de Bolle, do Instituto Peterson de Economia Internacional.

A crise se explica porque o comprometimento do orçamento das famílias com o pagamento de juros, em média de 22%, passou a ser percebido como exagerado pelos devedores. A prioridade das pessoas passou a ser quitar os empréstimos. E não é difícil entender por que elas procedem assim: a renda real cai, obter emprego é difícil e os juros são elevadíssimos.

As concessões de crédito caíram ainda mais que o saldo e há o risco de que o problema persista no tempo, tornando difícil uma retomada.

Outros fatos mostram, indiretamente, a gravidade da crise de crédito, como o aumento de operações de penhor de bens, que dispensam cadastro e avalista e incorrem em juros módicos (2,1% ao mês, segundo reportagem do Estado). Operações com cooperativas também crescem, mas, nos dois casos, são modalidades de pouca expressão, insuficientes para descaracterizar a hipótese de que a crise de crédito é real e finca raízes.

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