''Crise de dívida de ricos traz risco de guerras comerciais e cambiais''

Mohamed El-Erian Principal executivo do Pimco, fundo americano

Fernando Dantas/Rio, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h00

O economista Mohamed El-Erian, principal executivo do Pimco, maior fundo de investimento do mundo (US$ 1,2 trilhão no final de 2010), disse em entrevista ao Estado que uma crise da dívida americana pode provocar fragmentação e guerras comerciais e cambiais na economia global.

Qual a sua avaliação sobre a dívida dos países ricos?

Houve uma dramática mudança na situação da dívida pública nas economias avançadas. A principal razão para isso foi a decisão em 2008 e 2009 de usar as finanças públicas para contrabalançar a maciça, súbita e desordenada desalavancagem do setor privado, que ameaçava causar uma depressão global. O resultado foi algo impensável anteriormente, uma disparada tanto nos déficits orçamentários quanto nas dívidas do governo das economias avançadas, e também no tamanho do balanço dos bancos centrais.

Como isso afetou os diferentes países do grupo mais avançado?

Alguns, como o Reino Unido e os Estados Unidos, têm tempo para normalizar a situação antes que ela se torne altamente danosa ao investimento, ao crescimento e à criação de emprego . E a reação desses dois países tem sido diferente. O Reino Unido optou voluntariamente por uma reforma fiscal de médio prazo, enquanto os Estados Unidos estão apenas conversando sobre essa possibilidade. Outros países não resistiram ao enorme peso dos déficits e da dívida. Isso é mais visível na Europa, onde três economias periféricas estão na unidade de tratamento intensivo, requerendo socorro financeiro da União Europeia (UE), do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Nestes casos, a austeridade está sendo imposta e, suspeito, algum tipo de reestruturação de dívida virá em seguida.

E o Japão?

É um caso especial. O Japão tem uma alta carga de dívida e de déficit orçamentário, mas se beneficia pela sua riqueza acumulada e pela persistente posição de superávit nas contas externas. Isso, junto com fontes cativas de captação doméstica, permite ao Japão sustentar dinâmicas de dívida muito piores do que seria possível em outros lugares.

Como o sr. vê a briga política em torno da redução do déficit e da dívida nos Estados Unidos. Um compromisso é possível?

Eu espero que sim, mas também me preocupo de que não seja fácil por pelo menos três grandes razões. Em primeiro lugar, a sociedade americana se acostumou a adiar o ajuste, e os políticos preferem contar com a esperança de alto crescimento, em vez de pensar em reformas para lidar com o rescaldo da dívida e outros ventos contrários estruturais. Dessa forma, é difícil para os Estados Unidos fazerem o que o Reino Unido está fazendo. Em segundo lugar, os dois partidos, Democratas e Republicanos, estão em desacordo sobre a trajetória do ajuste e, de forma mais importante, sobre o peso relativo a ser atribuído ao aumento da receita e ao corte de despesas. Por trás disso há uma crescente defasagem de retórica, relativa à visão política para o país. Finalmente, direitos sociais, particularmente na forma de promessas de serviços previdenciários e de saúde, tornaram-se uma parte importante de quaisquer reformas orçamentárias futuras. Por tudo isso, um compromisso que faça sentido e possa ser implementado não deve se materializar imediatamente. Na verdade, há o risco de que tenhamos de esperar pelas eleições de 2012.

O sr. acha possível o rebaixamento do rating americano?

As agências de rating vão dar mais tempo aos Estados Unidos do que a virtualmente qualquer outro país, e por boas razões. Como fornecedor de bens públicos globais - moeda de reserva, os mais profundos e líquidos mercados de dívida e o padrão de risco zero - os Estados Unidos têm mais tempo para se ajustar. Dito isto, os Estados Unidos não têm a eternidade. Se o país não conseguir convergir para um programa de reforma fiscal de médio prazo, ele poderia sim perder o seu rating de crédito AAA nos próximos três anos

Quais as consequências para os EUA e a economia global?

Se aquilo ocorresse, afetaria os Estados Unidos e o resto do mundo. Todos os segmentos da sociedade americana teriam de enfrentar custos de crédito mais altos, um dólar mais fraco, e perspectivas menos brilhantes para o investimento, o crescimento e a criação de empregos. E, uma vez que os Estados Unidos ocupam uma posição central no coração da economia global, o resto do mundo enfrentaria o risco de uma maior fragmentação econômica e financeira, resultando em perdas de eficiência e maior risco de guerras comerciais e cambiais.

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