Crise de empresas e de Estados afetou carteira do banco

Em recuperação judicial, Oi deve R$ 3,2 bilhões ao BNDES; governo do Rio também está inadimplente com a instituição

Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2017 | 05h00

O mundo corporativo brasileiro teve muitos tropeços recentemente, e vários deles afetaram o BNDES. Um dos grandes aconteceu há quase um ano. Escolhida para ser uma das “campeãs nacionais”, a operadora Oi teve de jogar a toalha em junho de 2016, quando entregou o pedido de recuperação judicial para reestruturar dívidas de R$ 65 bilhões. Dessa montanha de dinheiro, R$ 3,2 bilhões deveriam ser pagos ao banco de fomento.

Com a recuperação judicial aceita, a Oi interrompeu pagamentos a todos os credores. A situação não chegou a ser surpresa. Por isso, ao perceber o risco crescente de a operadora não quitar dívidas, credores pioraram gradualmente o risco da companhia nos trimestres que antecederam a bancarrota.

O setor de telecomunicações é só um dos que trouxeram dor de cabeça ao BNDES. A Operação Lava Jato fez com que problemas financeiros viessem à tona. A agência de classificação de risco Moody’s destaca que a carteira de contratos da Odebrecht diminuiu 33% entre 2014 e junho de 2016. Com isso, o dinheiro em caixa começou a minguar.

Dados do BNDES mostram que a Odebrecht e subsidiárias tomaram empréstimos de R$ 1,845 bilhão ao longo dos últimos anos. O grupo informou que os pagamentos ao banco estão em dia, mas decisões como a anunciada pela Moody’s afetam diretamente a avaliação sobre a capacidade de pagamento da empresa e, por isso, ajudam a piorar a nota.

Até mesmo fora do mundo corporativo há problemas. O Estado do Rio de Janeiro obteve R$ 7,895 bilhões em créditos da instituição nos últimos anos para financiar inúmeros projetos.

Com a calamidade financeira no Rio, vários pagamentos foram suspensos. Neste caso, porém, o empréstimo tem garantias que podem ser executadas pelo banco de fomento em caso de atraso nos pagamentos. O problema é que o respaldo é dado pela União, que, na outra ponta, também é controladora e reguladora do BNDES. O acionista integral do banco de fomento é o Tesouro Nacional.

Procurada, a Odebrecht afirmou que não tem crédito direto com o banco e que as empresas do grupo que têm contratos de financiamento estão adimplentes. O governo do Rio confirmou que está inadimplente com o BNDES, mas que há garantias do Tesouro Nacional e, por isso, a União tem quitado a dívida no prazo. A Oi informou que não comentaria o tema.

Em nota enviada ao Estado, o BNDES cita alguns porcentuais diferentes dos que constam no banco de dados do Banco Central. No segundo semestre de 2016, o banco diz que 61% da carteira obtiveram nota “AA” ou “A” e a parcela classificada como “B” ficou em 29%. Mesmo com a diferença dos valores, o BNDES reconhece que os dados “indicam moderada queda de qualidade da classificação da carteira entre 2015 e 2016”.

No banco de dados do BC, o chamado IF.data, os dados se referem a dezembro de 2016 e não há o recorte semestral como citado pelo banco. A autoridade monetária explica que os números “podem divergir porque algumas das publicações são baseadas em documentos que contêm dados agregados".

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