Jason Lee|REUTERS
Jason Lee|REUTERS

Crise de endividamento no horizonte

A questão não é se, mas quando as coisas vão piorar na China

O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2016 | 03h00

A China acertou ao reagir à crise financeira global abrindo as torneiras do crédito. O problema foi não tê-las fechado depois. Nos últimos dois anos, o endividamento do país teve expansão tão acentuada quanto nos dois anos posteriores ao aperto de 2008. A relação dívida/PIB disparou, passando em dez anos de 150% para quase 260%, uma deterioração do porte das que costumam anteceder os colapsos financeiros ou as desacelerações abruptas da atividade econômica.

A China não será exceção a essa regra. Em dois anos, os empréstimos problemáticos dobraram e, oficialmente, já representam 5,5% do estoque de crédito bancário. A realidade é mais tenebrosa. Cerca de dois quintos dos novos empréstimos são usados para pagar juros sobre dívidas pregressas. Em 2014, a conta de juros de 16% das mil maiores empresas foi superior a seus lucros antes do pagamento de impostos.

A China precisa de um volume cada vez maior de crédito para gerar cada vez menos crescimento: antes da crise financeira, pouco mais de um yuan em novos empréstimos acrescentava um yuan ao PIB; agora são necessários quase quatro yuans adicionais de crédito para que o PIB fique um yuan maior. Com a conivência do governo, é possível que os níveis de endividamento continuem aumentando por algum tempo, talvez até por mais alguns anos. Mas não poderão aumentar para sempre.

Quando o ciclo de endividamento chegar ao fim, tanto os preços dos ativos, como a economia real serão levados de roldão. E vai sobrar para todo mundo. É verdade que a China tem tomado o cuidado de restringir suas obrigações externas (o país é credor líquido). Os perigos que o país enfrenta são de fabricação nacional. Mesmo assim, os estragos causados por uma crise de crédito na China seriam imensos.

O país é dono da segunda maior economia do mundo; seu sistema bancário é o maior de todos, com ativos que equivalem a 40% do PIB mundial. Seus mercados acionários, mesmo depois do crash do ano passado, valem US$ 6 trilhões juntos, perdendo apenas para o americano. Seu mercado de títulos, com US$ 7,5 trilhões, é o terceiro maior do planeta, e vem crescendo em ritmo acelerado. Em agosto do ano passado, uma desvalorização de meros 2% do yuan deixou as bolsas globais em polvorosa. Uma aterrissagem forçada da economia será dolorosa para todos os que se beneficiam da demanda chinesa.

Apertem os cintos. Os otimistas aludem a dois fatores para dizer que a coisa não é tão séria. Em primeiro lugar, em mais de três décadas de reformas, as autoridades chineses têm demonstrado que, tão logo identificam um problema, dispõem da determinação e da habilidade necessárias para corrigi-lo. A segunda é que seu controle sobre o sistema financeiro, o Estado é dono dos principais bancos e da maioria de seus maiores credores lhes dá tempo para pôr a casa em ordem.

Mas não dá mais para contar com isso. O atual governo chinês não parece estar no comando da situação, e sim a reboque dos acontecimentos. Só no ano passado, a China gastou quase US$ 200 bilhões para oferecer alguma sustentação ao mercado de ações; US$ 56 bilhões em empréstimos estão inadimplentes; as fraudes financeiras custaram aos investidores pelo menos US$ 20 bilhões; e o país perdeu US$ 600 bilhões em capitais. Para estimular o crescimento, as autoridades chinesas criaram uma bolha imobiliária. O crédito continua se expandindo a um ritmo duas vezes superior ao da economia.

Ao mesmo tempo, o governo chinês enfrenta dificuldades para manter as atividades financeiras sob supervisão. Apesar de repetidas tentativas, o mercado paralelo de crédito cresce com vigor: os ativos dos chamados shadow banks (intermediários financeiros que não estão sujeitos às normas que regulamentam os bancos tradicionais) tiveram crescimento anual superior a 30% nos últimos três anos. Em tese, essas instituições não bancárias diversificam as fontes de crédito e permitem reduzir o risco assumido pelos bancos tradicionais. Na prática, a linha divisória entre os dois sistemas não é nada nítida.

Isso gera dois tipos de risco. O primeiro são perdas acima do esperado para os bancos. Sedentos por lucros numa economia em desaceleração, muitas instituições têm cometido a impropriedade de classificar empréstimos de liquidação duvidosa como investimentos, com o intuito de se esquivar do escrutínio das autoridades e reduzir seus requerimentos de capital. Em meados de 2015, o valor desses empréstimos correspondia a cerca de 16% do valor dos empréstimos tradicionais, frente a apenas 4% em 2012.

O segundo risco diz respeito à liquidez. As instituições bancárias chinesas são cada vez mais dependentes dos “produtos de gestão de patrimônio”, por meio dos quais alocam em ativos de longo prazo e remuneram com taxas mais elevadas recursos que, na realidade, nada mais são que depósitos de curto prazo.

Por muitos anos, as autoridades chinesas exigiram que o estoque de crédito dos bancos do país fosse inferior a 75% de sua base de depósitos, garantindo que as instituições mantivessem reservas substanciais para lidar com qualquer emergência. Agora, o patamar real está se aproximando dos 100%, ponto em que uma repentina escassez de financiamento, fenômeno que é um precursor clássico de crises bancárias, passa a ser um evento perfeitamente possível. Os bancos de médio porte têm sido os mais ativos na expansão do crédito ? é aí que se deve procurar por algum mal súbito.

Pandemônio. O fim da festa de endividamento na China não será como os colapsos financeiros do passado recente. O sistema chinês de shadow banking é grande, mas não deu origem a produtos tão complexos, ou de alcance internacional, como os que reuniam maçarocas de hipotecas subprime em 2008. Como o sistema financeiro chinês é relativamente isolado, é pouco provável que o país passe por algo que lembre a crise asiática de 1997-1998, quando vários países, da Tailândia à Coreia do Sul, endividaram-se mais do que deviam externamente.

Alguns temem que a China fique parecida com o Japão dos anos 90, avançando com o freio de mão da economia puxado, rumo à estagnação. Mas o sistema financeiro chinês é mais caótico e está mais sujeito à pressão das fugas de capital, do que o do Japão daquela época: a crise chinesa deve ser mais aguda e repentina do que o mal crônico que se abateu sobre a economia japonesa.

Uma coisa é certa. Quanto mais tempo a China demorar para admitir seus problemas, mais graves serão as eventuais consequências. No ano passado, quando as bolsas chinesas despencaram, faltou um mínimo de coordenação entre as autoridades econômicas. É preciso decidir com antecedência quem monitora o que e quem é responsável por elaborar quais medidas de emergência. Em vez de recorrer a estímulos fiscais e monetários para manter o crescimento acima da meta oficial de, no mínimo, 6,5% (que, de qualquer forma, é desnecessariamente elevada), seria mais prudente que o governo chinês poupasse o seu poder de fogo para usá-lo na eventualidade de uma verdadeira calamidade. O banco central do país também deveria suspender temporariamente o plano de promover a internacionalização do yuan; uma abertura prematura da conta de capitais levaria apenas a grande saídas de recursos, num momento em que o sistema financeiro já se assenta sobre alicerces frágeis.

Acima de tudo, a China precisa frear a implacável expansão do endividamento. A suposição de que o governo de Xi Jinping continuará a socorrer bancos, credores e depositantes é generalizada, e não só na China. Seria importante que as autoridades se dispusessem a tolerar mais calotes, fechar empresas quebradas e deixar que a economia perca velocidade. Não vai ser fácil, mas já é tarde demais para que a China consiga escapar ilesa. A tarefa agora é evitar um desfecho mais trágico.

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