Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Crise derruba venda de veículos para Argentina

Exportações para vizinho caem 22,4% entre maio e agosto e desafiam montadoras a mirar mercado interno e buscar negócios em outros países

André Ítalo Rocha, Impresso

06 Setembro 2018 | 04h00

As turbulências vividas pela Argentina derrubaram as exportações de veículos para o vizinho e criaram um problema para as montadoras instaladas no Brasil. No acumulado de maio – quando as vendas começaram a cair – a agosto a queda nas vendas é de 22,4%, foram US$ 1,86 bilhão neste ano ante US$ 2,41 bilhões em 2017.

Desde maio, são registradas quedas sucessivas na comparação com o mesmo mês do ano passado. Em maio 10%, 19% em junho, 40% em julho e 21% em agosto, segundo dados do Ministério da Indústria Comércio Exterior e Serviços (Mdic).

Essas quedas consecutivas têm forçado as empresas que exportam para lá a repensarem a estratégia, aumentando as apostas no próprio mercado brasileiro e buscando novos negócios em outros países.

A Volkswagen, por exemplo, que é líder em exportações, decidiu destinar aos consumidores brasileiros parte da produção que seria mandada para a Argentina. A empresa alemã também está intensificando negócios com Chile e Colômbia - neste último a situação está mais favorável em razão de um recente acordo assinado com o Brasil para ampliar o comércio de carros. Apesar disso, o ano da montadora deve terminar com uma exportação inferior à prevista em 6 mil veículos.

O esforço em buscar outros mercados ocorre depois de a Argentina ter “salvado” a produção brasileira durante a crise econômica. Quando as vendas por aqui registravam quedas recordes, em 2015 e 2016, as da Argentina cresciam. Como consequência, os argentinos, que já eram os principais consumidores de carros brasileiros vendidos ao exterior, passaram a representar 70% da clientela estrangeira. O boom, inclusive, gerou um desequilíbrio no acordo entre os dois países para comércio de veículos.

Crédito favorável

Além da necessidade do Brasil de escoar a produção, a Argentina contava também com condições de crédito mais favoráveis e descontos oferecidos pelas montadoras, impulsionando o consumo. A festa começou a acabar em maio deste ano, quando o Banco Central argentino subiu, em duas semanas, a taxa básica de juros de 27,25% para 40% ao ano, numa tentativa de conter a disparada do dólar em relação ao peso.

Sem as mesmas condições de antes, os financiamentos despencaram no mercado argentino. O número de veículos financiados caiu 12,2% em junho e 17,2% em julho, sempre na comparação com igual mês do ano passado, de acordo com balanços da Acara, associação que representa as concessionárias do país. Nas vendas totais, que incluem as aquisições à vista, foram registradas quedas de 18,2% em junho, 22,8% em julho e 25% em agosto.

A piora do cenário argentino nos últimos meses, com os juros chegando a 60% na última semana, levou as montadoras instaladas no Brasil a reverem suas projeções. Se antes as empresas esperavam um novo recorde de vendas na Argentina, próximas da casa de 1 milhão de unidades, agora falam em queda para algo abaixo de 900 mil, marca alcançada no ano passado, recorde do setor no país.

O agravamento já era esperado pela consultoria IHS Markit, especializada no setor. “As vendas na Argentina, quando cresciam, foram muito infladas, em parte por causa da crise brasileira, que empurrou carros para lá, e também porque os preços dos veículos foram subindo menos que a inflação, tornando o carro muito rentável”, disse o analista Roberto Barros, que espera uma queda de 8,5% nas vendas de veículos no país vizinho. Para 2019, a IHS espera um novo recuo, dessa vez de 12%.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.