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''Crise desafia modelo de globalização''

Ernesto Zedillo: economista e ex-presidente do México

, O Estadao de S.Paulo

28 de fevereiro de 2009 | 00h00

O protecionismo precisará ser punido para que governos pensem duas vezes antes de adotar barreiras. A recomendação é do ex-presidente do México (1994-2000), Ernesto Zedillo, hoje um dos principais economistas defensores do sistema multilateral do comércio.Zedillo admite que o mundo viveu uma "cegueira coletiva" nos últimos anos e alerta que a globalização é, acima de tudo, um fenômeno político. Para ele, a crise "desafia" o modelo de globalização e pede o fortalecimento de organismos internacionais. A seguir, os principais trechos da entrevista. Há algum risco de os avanços da globalização serem freados?Nos disseram que essa globalização era diferente de tudo o que já havíamos visto, pois era baseada em avanços tecnológicos. Mas a globalização é um fenômeno político e, portanto, sempre pode ser revertido. Não é mais apenas o comércio que está sendo desafiado. É o modelo de globalização em si. Se tivermos uma diminuição da interdependência, o mundo será mais perigoso. Temos de fazer o possível para evitar o desastre.Como evitar então as tentações protecionistas no comércio?A única coisa que vai fazer líderes pensarem duas vezes antes de adotar medidas protecionistas é se esses líderes se derem conta de que vão sofrer retaliações. Não estou dizendo que guerras comerciais são convenientes. Mas, se queremos evitar uma guerra, temos de deixar claro quais serão os custos para quem impuser barreiras. Os governos terão de deixar claro que haverá sangue. Só a punição funcionará. Precisamos de leis duras, não de palavras doces.Uma vez superada a crise, como o mundo deve se organizar?O caminho é fortalecer as instituições multilaterais. As reformas das entidades não avançaram enquanto a globalização estava em sua era de ouro e agora vamos pagar caro por isso. A reforma da ONU foi um fracasso. O FMI fracassou e agora faz falta. Já o sistema multilateral de comércio foi vítima da indiferença do Estados. Os países deram pouca atenção para reformas que garantiriam uma melhor administração da globalização. Hoje, o sistema comercial está em estado de sítio. A crise é de falta de governança global.Como foi que chegamos a esse ponto? Vivemos uma cegueira coletiva nos últimos anos. Todos os ingredientes da crise estavam sendo anunciados e não prestamos atenção. Estamos num quarto escuro, não sabemos onde está a luz nem a porta. Ficamos só à espera de pacotes que comecem a funcionar. Mas a realidade é que não sabemos de nada. É uma vergonha para a profissão de economista e deveríamos até nos perguntar onde estão aqueles que foram premiados pelo Nobel. O que vivemos hoje é uma crônica de um desastre anunciado.Por que os economistas falharam tanto em suas previsões? A verdade é que não temos um marco conceitual nem modelos para nos guiar nesse momento. Hoje, o maior risco é que políticas destrutivas podem acabar sendo adotadas, com enormes custos políticos e sociais.Como a América Latina deve reagir neste momento? É verdade que estamos numa posição melhor para enfrentar o choque. Antes, estaríamos devastados. Mas a notícia ruim é que nunca completamos nossa lição de casa. Apenas o Chile o fez. O resto terá de seguir a maré, não afundar nos próximos dois anos e esperar que outros controlem a crise.

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