Crise deve prejudicar exportações brasileiras

Para economistas, a balança comercial e os investimentos estrangeiros diretos serão os mais afetados

Cristina Canas, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

Diante do consenso de que a Europa passará por uma segunda onda de recessão, derivada das medidas implementadas para controlar os déficits fiscais dos países da região, os economistas brasileiros estão de olho no impacto que isso terá no País. Principalmente, na balança comercial e no volume de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED).

As estimativas para essas variáveis ainda não foram prejudicadas, mas isso pode ser uma questão de tempo. Afinal, em conjunto, a Europa é responsável por 22% das exportações do País. Nos investimentos, a importância é ainda maior, de 40%, no acumulado deste ano.

Quando se analisa o impacto de cada país isoladamente, é no investimento que os países mais atingidos pela crise têm maior peso. De janeiro a abril, a Espanha, sozinha, respondeu por 4% dos investimentos estrangeiros no Brasil. Portugal ficou com 3,1%. Na pauta de exportações, esses dois países não têm expressão individual. A Grécia não é destaque em nenhum dos dois setores.

O problema é que, se o déficit fiscal atinge mais fortemente as economias periféricas da Europa, a recessão deve ser mais disseminada, já que todos estavam apenas esboçando uma recuperação após a crise de 2008. De acordo com os últimos dados de PIB, a Europa cresceu 0,2% no primeiro trimestre de 2010 ante o último trimestre de 2009. Em relação ao primeiro trimestre do ano passado, a alta foi de 0,5%.

Balança comercial. O economista-sênior do BES, Flávio Serrano, acredita que a primeira variável a sentir os efeitos dessa recessão europeia será a balança comercial. A sua percepção é de que o ajuste para cima no superávit comercial de 2010, captado pela pesquisa Focus divulgada segunda-feira, ainda é decorrente da maré de alta nos preços das commodities do início do ano até abril.

"Isso foi interrompido", disse Serrano, acrescentando que os preços das commodities vão parar de subir e a tendência é de que a balança comercial fique um pouco abaixo das estimativas atuais - US$ 13,75 bilhões na Focus de ontem. "Na situação atual, com as commodities estáveis ou em queda e a atividade doméstica em alta, a balança comercial deve ter saldo um pouco menor." O BES mantém projeção de superávit de US$ 13,5 bilhões de antes do agravamento da crise, mas não descarta revisão para baixo.

Para a economista-chefe da Rosemberg Associados, Thaís Zara, depois do impacto inicial nos investimentos em carteira, principalmente ações, a crise europeia deve afetar mais o investimento. Ela ressalta a importância de Espanha e Portugal nessa variável. Thaís avalia, no entanto, que o impacto será mais no longo prazo. "A recessão europeia tem impacto, mas vai demorar um pouco a ser sentida. Isso deve ser percebido no fim do ano e início de 2011, a menos que haja uma restrição de liquidez, o que não é o mais provável."

Um outro economista de mercado, que prefere não ser identificado, ressalta que a recessão da Europa, por enquanto, não deve ter o mesmo impacto global da quebra do Lehman Brothers, em 2008. Ainda assim, concorda que pode haver redução das exportações brasileiras. Ele também vislumbra estagnação ou queda nos preços das commodities, com o novo cenário. "Se a crise da Europa afetar o restante do mundo mais fortemente do que se espera, então os efeitos serão maiores e não sabemos exatamente o que ocorrerá", alerta esse economista.

O economista da corretora Gradual, André Perfeito, concorda: "Se houver um colapso do euro, não tem como precificar; então, tudo que estamos vendo é pouco". Porém, ele não vê essa possibilidade. Perfeito está entre os mais otimistas e acredita que a economia real da Europa está mais forte do que se avalia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.