Crise do alumínio faz Novelis fechar fábrica

Empresa vai demitir 350; produção de alumínio primário deve cair 27% no País

FERNANDO SCHELLER , NATALIA GÓMEZ, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2014 | 02h02

A fabricante de alumínio Novelis anunciou ontem que fechará até o fim do ano sua unidade de Ouro Preto (MG), demitindo 350 funcionários. O movimento é mais um baque para essa indústria, que vem enfrentando uma forte crise no País. De acordo com a Associação Brasileira do Alumínio (Abal), a produção brasileira de alumínio primário - matéria-prima para a indústria de transformação - ficou em 69,6 mil toneladas, em agosto, queda de 37% em relação ao mesmo período de 2013.

De acordo com o presidente executivo da associação, Milton Rêgo, a disparada nos preços da energia no País teve efeito direto na competitividade do setor de alumínio. Desde 2008, segundo ele, a produção do setor não para de cair. Nos últimos cinco anos, houve cortes de produção em empresas que têm como sócias gigantes como BHP Billiton, Votorantim Metais e Alcoa (leia box).

Apesar de o problema já se arrastar desde 2008, Rêgo diz que 2014 será "um ano para esquecer" para a indústria de alumínio. A previsão é de que o País feche com produção de 95 mil toneladas, 27% menos do que no ano passado. De janeiro a agosto, a redução acumulada já é de 23%. "Pela primeira vez em muito tempo, o Brasil será importador líquido de alumínio", afirma o presidente da Abal.

No caso da Novelis, o anúncio do encerramento da fábrica reflete um nível de capacidade ociosa que não parava de aumentar. Segundo dados da associação, nos últimos cinco anos, a Novelis reduziu quase à metade sua produção. Em 2008, 50 mil toneladas de alumínio saíram dos fornos da empresa; no ano passado, a produção foi de 29 mil toneladas.

Em comunicado oficial, a Novelis - que fatura US$ 10 bilhões ao ano e faz parte do grupo indiano Aditya Birla - afirmou que a crise do setor teve peso na decisão. "Essa decisão foi tomada em função de questões estruturais que afetam toda a indústria de alumínio primário no Brasil, impactando o custo da operação", disse Tadeu Nardocci, presidente da empresa na América do Sul. A fábrica de Ouro Preto foi inaugurada em 1934 e pertence à Novelis desde 1950.

A empresa também afirmou que o encerramento das atividades da planta também reflete uma estratégia global de usar uma quantidade maior de alumínio reciclado. Segundo a Abal, a tendência da reciclagem do produto é de crescimento. Dados da associação mostram que 35,2% do consumo doméstico de alumínio do País já é abastecido pelo produto reciclado - acima da média global de 29%.

A queda na produção de alumínio primário é compensada, em parte, pela expansão da indústria de transformação do produto. Isso tem evitado, segundo o presidente executivo da associação, a queda do número de empregos na cadeia de alumínio. Em 2008, o setor gerava 28,1 empregos; em 2013, eram 28,9 mil postos de trabalho. A Novelis manterá suas atividades de laminação em Pindamonhangaba e Santo André (SP).

Venda de energia. Em alguns casos, as empresas que reduziram ou encerraram suas atividades de produção de alumínio estão sobrevivendo da venda de energia no mercado livre. Isso porque os preços dispararam desde o ano passado por causa da seca, que compromete os reservatórios das hidrelétricas. Muitas companhias do setor têm contratos de energia de longo prazo, a preços antigos, e vantajosos em relação aos que são praticados atualmente.

Numa situação normal, com reservatórios cheios e chuvas na média, o preço do mercado à vista pode ficar abaixo de R$ 100 o megawatt/hora (MWh). Em janeiro de 2012, por exemplo, estava em R$ 12. Nesta semana, o valor chegou a R$ 822 o MWh. Para quem comprou na baixa, vale vender energia e paralisar a atividade produtiva.

Para o presidente da Abal, essa vantagem nos contratos de energia não é vista de maneira positiva pelo setor. "O negócio das empresas é alumínio, e não energia. Esses contratos (a preços baixos) um dia vão vencer."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.