Pavel Golovkin/ AFP
Pavel Golovkin/ AFP

Crise dos fertilizantes e inflação estão na agenda da viagem de Bolsonaro à Rússia

Mais de 20% do fertilizante importado usado no Brasil vem da Rússia, e país restringiu as vendas do insumo para garantir o abastecimento interno

Eduardo Gayer, enviado especial, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2022 | 15h22
Atualizado 14 de fevereiro de 2022 | 18h06

MOSCOU - Apesar do acirramento de tensões entre Rússia e Ucrânia, o presidente Jair Bolsonaro chega a Moscou nesta terça-feira, 15, em sua segunda viagem internacional de 2022. Lá terá encontros com o presidente Vladimir Putin e empresários. Para além de tentar fortalecer a pauta comercial entre os países, há o objetivo de manter aberto o fluxo de fertilizantes, essenciais para o agronegócio brasileiro. O aperto na oferta do insumo tem o potencial de pressionar o preço dos alimentos e, consequentemente, a inflação, pesadelo do presidente em ano eleitoral.

A chance de a Rússia invadir a Ucrânia durante a viagem de Bolsonaro - e ganhar resposta à altura dos Estados Unidos - assusta integrantes do Palácio do Planalto, em especial do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), comandado pelo ministro Augusto Heleno. A ala política do governo chegou a pressionar pelo adiamento da visita oficial, mas o presidente não cedeu. Depois de Moscou, ele segue para Budapeste, capital da Hungria, para agenda com o primeiro-ministro Viktor Orbán, nacionalista de extrema-direita.

Para além da delicada questão geopolítica na qual o Brasil pode se envolver, a viagem presidencial enfrenta outro desafio: o desfalque causado pela ausência da ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Com covid-19, a favorita do Centrão para a vice de Bolsonaro em 2022 é a principal articuladora junto a Moscou quando o assunto é crise dos fertilizantes.

Hoje, o Brasil importa 85% dos fertilizantes utilizados nas lavouras. Desse montante, 22% vem da Rússia, que no ano passado restringiu as exportações desses insumos para garantir o abastecimento interno em meio à crise energética global. Os russos ainda bloquearam, em fevereiro deste ano, a venda de nitrato de amônio para outros países até abril. Neste caso, a dependência do Brasil é ainda mais elevada: 98% do produto vem de lá.

O decreto protecionista de Putin está no radar dos investidores. "Com a disponibilidade restrita no mercado, a tendência é de valorização dos preços", diz o Itaú BBA, em nota enviada a clientes. O tema também é monitorado pelo governo federal, que deseja evitar um choque no preço dos alimentos às vésperas das eleições e diante de uma inflação já elevada. Em janeiro, o IPCA acumulado em 12 meses bateu 10,38%, maior índice em seis anos.

Antes da proibição do nitrato de amônio, em novembro de 2021, Tereza Cristina chegou a ir a Moscou e ganhou o compromisso de que o Brasil não seria mais afetado por restrições, o que não aconteceu. Por isso a grande expectativa em torno de qual seria a próxima estratégia da Rússia para manter o abastecimento interno sem desregular substancialmente a cadeia global do insumo.

De acordo com fontes ouvidas pelo Broadcast/Estadão, o Executivo federal ainda espera melhorar a balança comercial com a Rússia após a visita oficial de Bolsonaro. Em 2021, o déficit comercial foi de US$ 4,1 bilhões - foram US$ 5,70 bilhões em importações ante US$ 1,59 bilhão em exportações.

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