Crise e desemprego fazem França adiar reformas polêmicas

Presidente recua na adoção de projetos polêmicos por temer revoltas sociais.

Daniela Fernandes, BBC

09 de janeiro de 2009 | 17h57

Em razão da atual crise econômica e do aumento do desemprego na França, o presidente Nicolas Sarkozy, conhecido por seu estilo implacável na aplicação de reformas que desagradam os trabalhadores, está sendo obrigado a recuar na adoção de projetos polêmicos por temer a explosão de revoltas sociais no país.Pela primeira vez desde sua posse, em maio de 2007, Sarkozy preferiu evitar a queda-de-braço e adiou recentemente duas reformas amplamente defendidas na campanha presidencial: a do ensino secundário e a da liberalização do trabalho aos domingos.Em dezembro, inúmeras manifestações estudantis em toda a França contra a reforma do ensino secundário coincidiram com a onda de violentos protestos de jovens nas ruas de Atenas, na Grécia. Os manifestantes franceses protestavam contra o projeto que previa, além do corte de 13,5 mil vagas de professores, a possibilidade de os colégios escolherem livremente algumas das disciplinas ensinadas.O governo francês, temendo que o conflito pudesse se alastrar no país nas mesmas proporções registradas na Grécia e aumentar ainda mais o clima de contestação social, preferiu adiar por um ano as discussões sobre a reforma do ensino secundário. Trabalho aos domingosNo início de 2009, foi a vez de o projeto de flexibilização do trabalho aos domingos também ser adiado pelo governo, sem data prevista para ser retomado.Além da oposição dos sindicatos e da esquerda, que apresentou uma série de emendas ao projeto, os próprios políticos do partido de Sarkozy, o UMP, criticaram a medida.Muitos deles avaliavam que a reforma favoreceria as grandes redes em detrimento dos comerciantes de pequeno porte."A crise econômica está influenciando esta mudança de estratégia do governo, que está atento à opinião pública", disse o pesquisador Olivier Rozenberg, do Centro de Pesquisas Políticas da França (Cevipof), à BBC Brasil. "Sarkozy teme movimentos de revolta."Segundo Rozenberg, os líderes europeus em geral estão preocupados com a generalização de protestos nas ruas. "Os governos europeus estão impotentes diante da crise. O desemprego e as falências de empresas aumentam a cada mês", afirma. "Eles não conseguem combater isso e não querem aumentar o descontentamento da população.""Trator"O chamado estilo "trator de reformas" de Sarkozy não é mais o mesmo dos últimos meses. Em novembro de 2007, o presidente francês não cedeu um palmo nas principais mudanças no sistema de aposentadorias dos funcionários dos transportes públicos, apesar de uma grande greve que paralisou a França durante cerca de dez dias.Naquela época, ferroviários e metroviários voltaram ao trabalho sem conseguir derrubar o aumento do tempo de contribuição exigido pelo presidente."Sarkozy se esforça para não deteriorar ainda mais a opinião pública", afirma François Miquet-Marty, diretor do instituto de sondagens Viavoice. "O futuro é pouco promissor, e o presidente está agora em uma posição defensiva."A situação nas periferias pobres da França também é instável. Na noite de reveillon, mais de 1,1 mil carros foram incendiados nos subúrbios do país, um aumento de 30% em relação à mesma data do ano anterior, apesar de o esquema de segurança ter sido amplamente reforçado.Ano movimentadoO ano de 2009 começa movimentado em termos de protestos sociais na França, com manifestações de funcionários públicos, juízes, desempregados, trabalhadores de montadoras, sem-tetos e estudantes, apenas nos últimos dias.O governo teme justamente que as diferentes categorias se unam em um grande movimento de contestação social. Os sindicatos tentam criar uma grande mobilização nacional e realizar uma greve geral no dia 29 de janeiro.Outros movimentos surgidos recentemente, como o dos "Robin Wood dos supermercados", também dão idéia do descontentamento dos franceses nesse clima de crise.Grupos que reúnem desempregados e trabalhadores em condições precárias estão invadindo supermercados em Paris e outras cidades, como Rennes e Grenoble, para pilhar as prateleiras e distribuir alimentos entre as pessoas necessitadas."A preocupação dos franceses em relação ao contexto econômico atual é grande", afirmou o ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin ao jornal Le Parisien. "Se houver a impressão de que a ação do governo não produz resultados, há riscos de uma radicalização dos movimentos sociais."BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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