Crise e eleições nos EUA pressionam países para concluir Doha este ano

Para o chanceler Amorim, acordo global de comércio será um sinal para a superação da turbulência financeira

Rolf Kuntz, O Estadao de S.Paulo

26 de janeiro de 2008 | 00h00

Pressionados pela crise financeira e pelas eleições nos Estados Unidos, ministros das maiores potências comerciais decidiram correr para concluir neste ano a Rodada Doha de negociações comerciais - porque a próxima oportunidade, concluíram, provavelmente só ocorrerá dentro de alguns anos. Um acordo global de comércio será um sinal poderoso para a superação da turbulência financeira, disse o chanceler brasileiro Celso Amorim, depois de um almoço com representantes de outros 14 países mais a União Européia, formada por 27 Estados membros. "A crise é uma janela não de oportunidade, mas de necessidade", argumentou o ministro brasileiro, comparando a situação com a de um ano atrás. Se o acordo não for alcançado neste ano, novas negociações só deverão começar em 2010, disse o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson. Se o novo presidente americano substituir Susan Schwab como representante de Comércio Exterior, o Congresso levará meses para confirmar a indicação e isso consumirá 2009. Também poderá haver mudança na União Européia. Além disso, o novo presidente dos Estados Unidos, argumentou Amorim, terá de passar por uma fase de aprendizado a respeito de comércio exterior. Ele preferiu não comentar as bandeiras dos principais candidatos democratas, em geral contrárias à ampliação dos acordos comerciais dos Estados Unidos e até favoráveis à revisão dos tratados em vigor. OTIMISMO CAUTELOSOO diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, mostrou-se cautelosamente otimista. "Acho que algo poderá ocorrer nesta temporada", disse Lamy, referindo-se à possibilidade de um avanço político mais em semanas do que em meses. Os negociadores acumularam uma grande massa de resultados, há um horizonte bem definido - 2008 - "e está na hora de pousar o avião", argumentou. Anúncios semelhantes foram feitos em Davos, Suíça, nos últimos dois anos, depois de reuniões de grupos selecionados de ministros, e esse fato foi lembrado, ontem, mais de uma vez. Mas as condições deste ano são especiais e novas pressões estão presentes, como lembrou Amorim. O próximo grande passo deverá ser uma conferência ministerial, provavelmente em abril, com participação dos 151 países membros da OMC. Mas isso ocorrerá somente se forem produzidos, até lá, esboços bastante avançados de acordos sobre os grandes temas da negociação, com destaque para o comércio de produtos agrícolas e bens industriais, Nas próximas duas semanas, em Genebra, os coordenadores dos grupos de negociação deverão apresentar novos textos com propostas de acordo. Esses textos serão examinados, palavra por palavra, por negociadores técnicos, e depois serão submetidos a autoridades de nível superior. Haverá um duro trabalho até se criarem condições para a conferência ministerial. "Sou otimista, sem ser totalmente ingênuo", disse o chanceler brasileiro. Além da pressão criada pela crise financeira - o grande tema do Fórum Econômico Mundial, nesta semana -, há pelo menos dois outros fatores favoráveis à conclusão do acordo neste ano, disse o ministro: 1) as diferenças entre os negociadores já não são tão grandes em termos de números, isto é, de valores e porcentagens; são principalmente políticas; 2) há um grande interesse de líderes políticos na conclusão do acordo (referência indireta ao presidente George W. Bush, agora em seu último ano de mandato). O compromisso de Bush com a conclusão do acordo em 2008 foi reafirmado ontem pela negociadora Susan Schwab. Se os ministros conseguirem montar um pacote satisfatório, assegurou, não será difícil obter apoio do Congresso para renovar a autoridade negociadora do Executivo, extinta desde julho. Essa autoridade inclui o poder de firmar acordos que os congressistas podem aprovar ou rejeitar, mas não emendar. TEXTO FROUXOPara o Brasil, disse Amorim, é essencial que os próximos papéis apresentados para discussão política ofereçam equilíbrio quanto ao espaço para negociação. Os textos apresentados até agora, segundo ele, não preenchem esse requisito. Quando tratam de agricultura são bastante frouxos, mesmo em relação a números, para permitir muita discussão. Quando tratam de produtos industriais, são muito mais estritos e mais impositivos. Antes do almoço organizado pela ministra suíça do Comércio Exterior, Doris Leuthard, houve muita conversa bilateral entre ministros e vários encontros com o diretor-geral da OMC. As conversas ocorreram nos dois dias anteriores e na manhã de ontem. Susan Schwab passou ontem cedo mais de meia hora fechada com Pascal Lamy. Noutra parte de Davos, Amorim se encontrava com Peter Mandelson e depois com o ministro de Comércio da Índia, Kamal Nath - o mais cético, em seus comentários, quanto à possibilidade de um acordo ainda neste ano.

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