Alex Silva/Estadão
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'Crise é surpresa total, como um meteoro chegando à Terra', diz Roberto Setubal, do Itaú

Em live, copresidente do Itaú afirmou que turbulência causada pelo coronavírus não tem relação com nada que ele já tenha vivido

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2020 | 11h55
Atualizado 07 de maio de 2020 | 20h34

O copresidente do Conselho de Administração do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, em live promovida nesta quinta-feira, 7, pelo banco, afirmou que a crise gerada pela pandemia do novo coronavírus não tem paralelo com nada que ele tenha vivido. “A crise foi uma surpresa total, como um meteoro chegando à Terra.”

Setubal destacou ainda que a origem dessa turbulência também é completamente diferente. “Normalmente, as crises começaram no sistema financeiro de alguma forma. Aqui não, é outra questão, é da saúde.”

 

Para ele, não há clareza quanto ao término da crise, que pode se arrastar por dois anos, considerando o prazo de retomada. Setubal acredita que não será possível vencer os impactos da pandemia até que a vacina esteja disponível para bilhões de pessoas no mundo.

Na comparação com o que o mundo viveu em 2008, ele afirmou que o sistema financeiro reforçou sua solidez e está mais bem preparado. O País, no entanto, na sua avaliação, está muito mais frágil. “O Brasil tinha uma situação macroeconômica em geral muito melhor. Hoje, temos mais dívida pública, mais alavancagem da economia, estamos muito mais frágeis’, resumiu. Para Setubal, o único fator positivo é o patamar mais baixo dos juros, que facilita a rolagem das dívidas. 

Juros

Apesar de a Selic ter atingido nova mínima histórica ao ser cortada, na quarta-feira, em 0,75 ponto porcentual, para 3,0% ao ano, os juros reais ainda estão muito elevados, segundo o banqueiro. “Assistimos a juros reais sem paralelo no mundo por décadas, 6%, 8%, 10%. Isso acabou claramente. É uma boa coisa que está acontecendo nos últimos anos, e mais acentuadamente agora, com juro de 3% ao ano. Ainda estamos falando de um juro real de 1,0%, 1,5% que, para padrões globais, é muito elevado. Acho que pode cair realmente mais do que isso.”

Segundo Setubal, os juros em patamares baixos fazem com que as pessoas procurem alternativas de investimento com mais risco. “É inevitável”, observou, afirmando que os rentistas no Brasil tinham uma vida “muito tranquila” e “muito fácil”, com investimentos alocados em juros altos e riscos baixos.

O banqueiro mencionou ainda que é “surpreendente” que a quantidade de investidores pessoas físicas continue aumentando na Bolsa, a despeito das turbulências geradas pela pandemia. Isso não aconteceu em outras crises, conforme ele, uma vez que agora, diferente do passado, o Brasil não elevou juros e, assim, não há muitas alternativas de compensar as perdas. “É a primeira vez que em uma crise nós reduzimos os juros.”

'Alienação total'

Setubal comentou ainda a votação do projeto de socorro aos Estados na Câmara dos Deputados, na quarta-feira, em que parlamentares livraram diversas categorias de servidores do congelamento de salário. Para ele, o episódio é uma “alienação total” em meio à pandemia, uma situação “kafkiana” (algo absurdo, referindo-se ao escritor alemão Franz Kafka).

“O Brasil inteiro está perdendo renda, o Produto Interno Bruto (PIB) vai cair uns 5%, 6%, as empresas estão valendo menos, os salários sendo reduzidos e o setor público está aprovando só para ele aumentos salariais programados para os próximos anos como se nada tivesse acontecendo no resto do País”.

Segundo Setubal, o setor público sairá dessa crise maior ainda do que já é, com o agravante de ter uma situação fiscal “complicada”. Já o setor privado deve perder renda e ficar proporcionalmente menor, e ainda terá de pagar mais imposto para sustentar o aumento salarial do setor público. 

“Alô, onde estamos? Vamos todo mundo acordar para ver a nossa realidade, que é a de um país que ficou mais pobre.”

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