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A economista Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria Tendências. Tendências

‘Crise entre Poderes mantém risco elevado, afetando preços na veia’, diz economista

Para Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria Tendências, ao lado do risco fiscal, a instabilidade em Brasília pode fazer com que investidores deixem o País, desvalorizando o real, o que, por sua vez, pressiona a inflação

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 13h39

Após a inflação atingir 0,96% em julho  - o maior resultado para o mês desde 2002 -, a consultoria Tendências reviu sua estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2021 de 6,1% para 7%. Há, porém, riscos importantes no radar que podem pressionar os preços ainda mais até o fim do ano. Isso porque essa estimativa da consultoria considera que os precatórios não serão retirados do teto dos gastos e que o Bolsa Família não vai passar da casa dos R$ 300. A ala política do governo Jair Bolsonaro defende, no entanto, que o auxílio chegue a R$ 400.

Segundo Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências, a crise política também pode elevar a inflação nos próximos meses. Ao lado do risco fiscal, a instabilidade em Brasília pode fazer com que investidores, preocupados com o futuro da economia, deixem o País, desvalorizando o real, o que, por sua vez, pressiona a inflação. “Quando você começa a olhar para 2022 e vê muita tensão entre Poderes, até dúvidas em relação ao processo eleitoral, isso mantém o risco elevado e o câmbio depreciado. Isso afeta os preços na veia”, diz a economista.

O mercado já esperava uma inflação alta em julho, elevando o acumulado em 12 meses. Mas que impacto um IPCA nesse patamar pode ter na economia?

A inflação veio um pouco acima do que nós (a Tendências) prevíamos. Nosso número era 0,88%. Estávamos vendo essas pressões, principalmente em energia elétrica e combustíveis, mas mesmo alimentação no domicílio surpreendeu um pouco. As pressões estão mais fortes do que a gente imaginava. Tanto que estamos revisando nossa projeção de IPCA para 2021. Tínhamos 6,1% e estamos revisando para 7%, que é bem acima do que esperávamos há alguns meses. O problema é que essa inflação corrói o poder de compra das famílias. A cesta de bens e serviços está mais cara, e o poder de compra diminui. Isso limita o ritmo de crescimento da atividade econômica, principalmente quando a gente pensa no consumo das famílias. A inflação afeta todo mundo e mais ainda as classes de baixa renda, em que o peso desses itens como alimentação em domicílio têm um peso mais relevante. Uma inflação na casa de 7% é negativa para a economia brasileira. Não é à toa que o Banco Central tem reagindo aumentando a Selic e subindo o tom. Antes, falava em normalizar a política monetária, que seria colocar o juro em patamar neutro. Agora, com a percepção de risco aumentando, o BC está vendo que é necessário elevar o juro acima do patamar neutro. Isso para evitar que a inflação seja um risco também em 2022.

Parte dessa inflação se deve a fatores climáticos, mas tem uma parte que é influência do dólar mais elevado, que eleva os preços dos produtos importados e de commodities. No começo do ano, quando havia uma forte preocupação com  a situação fiscal do País, o dólar avançou bastante. Quais fatores estão pensando mais no IPCA?

São três causas. A primeira é um ambiente ainda desafiador por causa da pandemia. Desde o ano passado, ela afetou a produção de vários itens, inclusive industriais. Além disso, com os fortes estímulos fiscais e monetários que foram dados a várias economias, a demanda reagiu muito mais rápido do que a oferta. A pandemia afetou a oferta de muitos produtos. Vemos vários setores tentando normalizar a produção, mas, quando faltam insumos e bens,  o preço vai para cima. Então ainda existe esse efeito em vários segmentos. Outra parte da inflação decorre da questão climática. Ela está afetando tanto a produção de alimentos como a de energia elétrica. A terceira explicação tem a ver com os riscos fiscais e o ambiente político. A gente vem desde o ano passado com essa percepção de risco fiscal bastante elevada. Não é só a pandemia justificando gastos excepcionais. Há pouco comprometimento (do governo) com as regras fiscais. Quando começam a tirar gastos da regra do teto dos gastos, essa percepção de risco fica muito elevada. Preocupa a ideia de reforçar programas sociais tendo em vista a reeleição em 2022 ou a de tirar precatório do teto. É uma combinação de preocupação fiscal com ambiente político. Quando você começa a olhar para 2022 e vê muita tensão entre poderes, até dúvidas em relação ao processo eleitoral, isso mantém o risco elevado e o câmbio depreciado. Isso afeta os preços na veia.

O governo está com novas medidas que aumentam os gastos públicos e a preocupação com a situação fiscal do País. Isso pode interferir mais na inflação?

A gente (a Tendências) sempre foi cauteloso em relação ao ambiente político e à questão fiscal. Estamos olhando com cuidado o que vai sair no Orçamento para 2022 e esse imbróglio da questão dos precatórios. Mas, pensando na manutenção do teto dos gastos, o Bolsa Família, ou Auxílio Brasil, precisa ficar na casa dos R$ 300. Estamos trabalhando com esse cenário base, em que a regra do teto é respeitada. Assim, temos ainda um câmbio de R$ 5,20 no fim do ano. Se mudar esse cenário - sai, por exemplo, um Bolsa Família de R$ 400, tiram precatórios do teto dos gastos e não pagam uma parcela relevante deles -, aí pode ter um câmbio mais elevado, afetando certamente a inflação.

Mas há uma expectativa de que a inflação termine o ano em um patamar mais baixo, na casa dos 7%, apesar desses vários riscos. O que permitirá isso?

Se você comparar a inflação mês a mês com o mesmo período do ano passado, os números de abril, maio e junho de 2020 foram muito baixos. Aí, nessa métrica de 12 meses, a base de comparação estava fraca, o que contribui para os atuais números altos. Quando  você vai para setembro e outubro de 2020,já havia uma inflação mais alta, ao redor de 0,6% ou 0,9%. Esse efeito é super importante e explica parte da desaceleração. Para os próximos meses, vemos a alimentação ainda pra cima, muito por conta do preço dos alimentos. Por outro lado, a não ser que se tenha novos ajustes nas bandeiras de energia, o preço da energia elétrica deve se moderar. Já os serviços, com a reabertura das atividades e a recuperação do fluxo de pessoas, devem continuar puxando a inflação para cima.

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Com alta da energia, inflação de julho é a maior para o mês desde 2002 e chega a 8,99% em 12 meses

Conta de luz respondeu por mais de um terço do IPCA do mês passado, segundo o IBGE; aumentos no gás de botijão, aluguel residencial e alimentos também contribuíram para o resultado

Daniela Amorim, Thaís Barcellos e Guilherme Bianchini , O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 09h10
Atualizado 10 de agosto de 2021 | 13h50

RIO e SÃO PAULO - A inflação oficial no país acelerou a 0,96% em julho, o maior resultado para o mês desde 2002, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira, 10.

O resultado veio dentro do esperado, mas o cenário é bastante desafiador e não dá sinais de folga, avaliou o economista Victor Wong, da gestora de recursos Vinland Capital. "As expectativas de inflação estão sensíveis à inflação corrente. Inércia de inflação alta e expectativas acima da meta tornam o quadro mais desafiador", disse.

Os avanços de preços em bens industriais e em serviços deixa um sinal de alerta muito forte, opinou o economista-chefe da AZ Quest, Alexandre Manoel. A pressão nos preços administrados pelo governo, em razão da crise hídrica, também chama a atenção.

“Caso a tendência de serviços evolua conforme a economia volte ao pré-pandemia, o ciclo da alta de juros pode ser maior. Um país com o histórico do Brasil não pode brincar com a inércia inflacionária. Tem que agir, como o Banco Central vem fazendo”, afirmou Manoel.

O economista-chefe da AZ Quest mantém a previsão de alta de 1 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, na reunião de setembro do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, mas avalia que há chance de acréscimo de 1,25 ponto porcentual, encerrando 2021 aos 7,50% ao ano.

Os custos mais elevados da energia elétrica, passagem aérea e gasolina foram responsáveis juntos por mais da metade da inflação de julho, mas os aumentos permanecem disseminados, alcançando 64% de todos os itens investigados.

"São diversos os fatores que influenciam no movimento de preços. Existe a questão de repasse de custos, altas de energia elétrica, combustíveis, gás. Isso tudo pode influenciar lojista e empresário a repassar esse aumento de custos para o consumidor final", afirmou André Almeida, analista do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE. "O mês de julho teve influência, principalmente, da alta da energia elétrica, gás, combustíveis, passagens aéreas", completou.

A energia elétrica subiu 7,88% em julho, o equivalente a mais de um terço da inflação, em função da alta de 52% na cobrança extra sobre a conta de luz pelo acionamento da bandeira tarifária vermelha patamar 2. O encarecimento da energia elétrica também é consequência de reajustes tarifários em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

Houve aumentos ainda nos preços do gás de botijão, gás encanado, aluguel residencial, condomínio e taxa de água e esgoto. Os alimentos também ficaram mais caros, puxados pelo encarecimento do tomate, frango em pedaços, leite longa vida e carnes.

O único grupo com queda de preços foi o de Saúde e cuidados pessoais, graças à redução no valor do plano de saúde, determinada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

A taxa de inflação acumulada pelo IPCA em 12 meses subiu a 8,99% em julho, o maior patamar desde maio de 2016. Segundo o IBGE, os aumentos sucessivos em itens monitorados pelo governo, como a energia elétrica e os combustíveis, vêm contribuindo para esse movimento, junto com o encarecimento das carnes.

As carnes ficaram 34,28% mais caras nos últimos 12 meses. A energia elétrica acumula um aumento de 20,09%. A gasolina subiu 39,65% nos 12 meses encerrados em julho, enquanto o etanol aumentou 57,27%. O gás de botijão ficou 29,29% mais caro.

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