Crise esfria investimento no Brasil

Empresas reavaliam planos e País deve perder R$ 9 bilhões com a taxa de investimento recuando de 18,4% para 18,2% do PIB, diz FGV

Márcia De Chiara e Marcelo Rehder, de O Estado de S.Paulo,

20 de novembro de 2011 | 23h21

SÃO PAULO - O agravamento da crise mundial já provoca um esfriamento nas decisões de investimentos das empresas no Brasil. O movimento ameaça frustrar as expectativas do governo, que trabalha para que a taxa de investimento atinja 22% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2014, garantindo que o País cresça sem pressões inflacionárias.

Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV) indica, contudo, que o País deve perder neste ano cerca de R$ 9 bilhões de investimentos. Com isso, a relação investimento/PIB deverá recuar para 18,2% este ano. Em 2010, foi de 18,4%. O estudo se baseou em dados do IBGE antes da revisão das contas nacionais de 2009.

Com o acirramento da crise na Europa e a valorização do dólar, houve uma freada nos planos de várias companhias de capital aberto. Na divulgação dos resultados do terceiro trimestre, boa parte delas anunciou corte e adiamento de investimentos.

A cautela em relação aos investimentos apareceu nos balanços das maiores companhias do País, revela o levantamento da empresa de informações financeiras Economática. No terceiro trimestre, o investimento da Petrobrás caiu 30% ante igual período de 2010, de R$ 25,608 bilhões para R$ 17,793 bilhões. No mesmo período, a Vale desembolsou 14,5% menos. A empresa investiu R$ 5,861 bilhões entre junho e setembro deste ano, ante R$ 6,849 bilhões em 2010.

A mudança de rumo já foi captada pelo Indicador Mensal de Investimento (IMI), da FGV. Em setembro, o indicador recuou 0,9% na comparação com o segundo trimestre, já descontados os efeitos sazonais. Foi a primeira queda desde abril de 2009, quando a economia estava sob impacto da crise americana e o índice tinha recuado 8,1%.

A economista Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro Ibre e responsável pelos cálculos do IMI, explica que o investimento caiu no terceiro trimestre por causa da retração de 7,1% na importação de máquinas. O IMI, que é um indicador antecedente do investimento, leva em conta a produção de bens de capital e insumos para a construção, além da compra de máquinas no exterior.

Segundo ela, o resultado da retração do investimento no terceiro trimestre será uma taxa de investimento de 18,2% do PIB neste ano, o equivalente a R$ 733,8 bilhões. Se fosse mantida a taxa de 18,4% de 2010, o investimento chegaria a R$ 742,9 bilhões. Ela considerou um PIB de cerca de R$ 4 trilhões para 2011. "A retração poderá ser pior", diz Silvia, argumentando que o investimento é o fator mais sensível à alteração de cenário.

Mudança. Entre as 234 empresas analisadas pela Economática, excluindo Petrobrás, Vale e Eletrobrás, o investimento cresceu de R$ 21,931 bilhões, no terceiro trimestre de 2010, para R$ 28,735 bilhões, agora. "É um investimento forte, de um país que cresce", diz Fernando Exel, presidente da Economática. A questão é que esses planos foram feitos no período de vacas gordas e hoje o vento mudou.

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