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Crise externa e inflação

A inflação do Brasil só tem uma explicação: as lambanças do primeiro governo Dilma

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2015 | 21h00

Na última quinta-feira, a presidente Dilma voltou a afirmar em Bruxelas, Bélgica, que a escalada da inflação no Brasil tem duas causas: a crise global e a seca. Errar uma vez no diagnóstico é coisa da vida. Mas insistir no erro é incompreensível.

Não há como apontar a crise mundial como produtora da inflação nacional. Há cinco anos, os preços nos países industrializados estão oscilando entre zero e três por cento ao ano, como se pode conferir no gráfico abaixo. O grande risco temido pelos grandes bancos centrais não é a inflação, mas a deflação. Temem a deflação porque ela derruba a arrecadação, aumenta automaticamente o endividamento e tende a criar ainda mais recessão porque empresas e famílias procuram adiar as compras, uma vez que esperam preços mais baixos à frente.

Se há pressão externa sobre os preços internos é de baixa, e não de alta. As cotações das commodities vêm mergulhando há três anos e as do petróleo, há um ano. Apenas para manter no ar o argumento escapista, a presidente Dilma alega que a iminência da alta de juros nos Estados Unidos provocou a alta do dólar no câmbio interno, fator que encareceu em reais os produtos importados.

Essa também é uma desculpa sem pé nem cabeça. A alta do dólar no câmbio interno foi provocada pela suspensão dos leilões de swap cambial, operações que correspondem à venda de dólares no mercado interno. Essa suspensão ocorreu não para enfrentar os efeitos da reversão das operações de despejo de dólares pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), mas para realinhar as cotações do câmbio aos preços externos. E esse realinhamento teve de ser colocado em marcha porque o câmbio ficou valorizado demais pela administração anterior, que manteve a cotação do dólar excessivamente barata como instrumento artificial de contenção dos preços.

Sobre a outra insistência, a de que a seca é o outro fator que produz inflação, nem vale a pena ir mais fundo. No final do ano passado e início deste, a atropelada dos preços do tomate e da cebola, por exemplo, foi explicada como efeito da seca. Depois choveu, os preços continuaram disparando e a explicação é a de que subiram porque choveu. A Califórnia enfrenta há meses uma estiagem feroz e, no entanto, ninguém nos Estados Unidos culpa a seca pela alta dos preços.

A inflação do Brasil só tem uma explicação: as lambanças do primeiro governo Dilma. O governo gastou demais como estratégia para ganhar as eleições, a infraestrutura foi sucateada, a indústria foi desidratada, o investimento despencou, o sistema elétrico foi desarticulado, o salário cresceu muito acima do aumento da produtividade.

No Brasil ainda há quem engula lorotas articuladas por autoridades do governo. Mas repetir esse discurso na Europa pega mal porque, além das mazelas na condução das políticas, expõe a falta de honestidade do governo.

Apesar da argumentação capenga, a presidente Dilma pelo menos reconheceu que as coisas têm de mudar: "O Brasil não pode conviver com uma inflação alta", afirmou em Bruxelas. Menos mau. É esperar para ver.

CONFIRA:

Veja acima a evolução da balança comercial. Graças à exportação de uma plataforma de petróleo, o movimento do ano já apresenta superávit.

Rua Palestra Itália

É um despropósito a mudança de nome do trecho final da Rua Turiaçu, em São Paulo. O transtorno para empresas e famílias que operam e moram nos edifícios ali não é desprezível, como acham os vereadores. O Palmeiras, cujo estádio toma um lado da rua, foi homenageado. Mas quanta gente não terá de notificar clientes e conhecidos sobre o novo endereço, mudar cadastros e inutilizar impressos?

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