Hazel Thompson/The New York Times/26/9/2010
Hazel Thompson/The New York Times/26/9/2010

Crise financeira de 2008 poderia ter sido evitada

Comissão americana conclui que Fed e outros órgãos do governo dos EUA falharam

Sewell Chan, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2011 | 00h00

A crise financeira de 2008 foi um desastre que poderia ter sido evitado e, no entanto, foi provocado por vários erros de regulamentação do governo, pela má administração das empresas e pela insensata avidez do risco de Wall Street, segundo as conclusões de um inquérito federal.

A comissão governamental que investigou a crise financeira lança uma série de acusações e critica energicamente duas administrações, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) e outras agências reguladoras que permitiram uma mistura calamitosa: a concessão descuidada de empréstimos hipotecários, a excessiva combinação de instrumentos financeiros e as vendas de empréstimos a investidores, além das apostas arriscadas com títulos respaldados pelos empréstimos.

"A maior tragédia seria aceitar o refrão de que ninguém se deu conta de que isso aconteceria, e portanto nada poderia ter sido feito", escreveu a comissão nas conclusões do relatório, que foi examinado pelo The New York Times. "Se aceitarmos esta ideia, isso voltará a acontecer."

Enquanto a Comissão de Investigação da Crise Financeira, acusa várias instituições financeiras de ganância, inépcia ou ambas as coisas, algumas de suas conclusões mais graves dizem respeito às falhas do governo, com embaraçosas implicações para ambos os partidos políticos.

Mas o painel também estava dividido em termos de sua linha política, o que poderá abrandar o impacto das conclusões.

Muitas destas foram amplamente descritas, mas a síntese das entrevistas, documentos e testemunhos, assim como a aprovação pelo governo, conferem ao relatório - que será divulgado hoje sob a forma de um livro de 576 páginas - grande densidade e autoridade.

Quando a comissão bipartidária foi criada, em maio de 2009, a intenção do Congresso e do presidente Barack Obama foi empreender um exame abrangente das causas da crise.

Durante 19 dias, a comissão realizou audiências e entrevistas com mais de 700 testemunhas; e prometeu divulgar uma quantidade de transcrições e de outro material sem tratamento pela internet.

Comissão. Dos dez membros da comissão, somente os seis nomeados pelos democratas endossaram o relatório final. Três republicanos prepararam um documento com suas divergências concentrando-se em um conjunto de causas mais restrito; um quarto republicano, Peter Wallison, ex-funcionário do Tesouro e ex-assessor da Casa Branca do presidente Ronald Reagan, redigiu um documento discordando do relatório final, atribuindo toda a culpa à política do governo que promoveu a compra da casa própria. O painel também foi abalado reiteradamente por divisões internas e pela rotatividade da equipe.

O relatório da maioria culpa dois "chairmen" do Fed: Alan Greenspan, cético a respeito da necessidade de regulamentação, que presidia o Fed quando a bolha da habitação explodiu, e seu sucessor, Ben Bernanke, que não previu a crise, mas depois teve um importante papel no seu tratamento. O documento critica Greenspan por defender a desregulamentação financeira e menciona um "erro fundamental na contenção do fluxo de hipotecas tóxicas" sob a sua presidência, como "o exemplo principal" de negligência do governo.

Também critica a "incoerente resposta" do governo Bush à crise - permitindo que o Lehman Brothers fosse à falência em setembro de 2008, por exemplo, depois de socorrer outro banco, o Bear Stearns, com ajuda do Fed - afirmando que "aumentou a incerteza e o pânico nos mercados financeiros".

Como Bernanke, o secretário do Tesouro de Bush, Henry Paulson, previu em 2007 - conforme ficou comprovado, equivocadamente - que o derretimento dos empréstimos subprime seria contido, observa o documento.

Os democratas também foram alvo de críticas ásperas. A decisão, em 2000 de proteger derivativos de balcão da regulamentação, tomada no último ano do mandato do presidente Bill Clinton, é considerada "um passo decisivo fundamental no avanço da crise financeira".

Timothy Geithner, que foi presidente do Federal Reserve de Nova York durante a crise e atualmente é o secretário do Tesouro de Obama, tampouco saiu ileso. O relatório conclui que o Fed de Nova York não levou em conta sinais de problemas no Citigroup e no Lehman, embora não tivesse como responsabilidade principal supervisionar essas instituições. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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