Crise, forecasting e adivinhação

Final de ano. Vou resistir à tentação de especular sobre o futuro - atividade a que economistas, empresas especializadas e instituições internacionais se dedicam com grande seriedade e que designam pelo nome técnico de forecasting (em inglês dá mais credibilidade) ou análise de cenários (que tem a vantagem de oferecer várias opções de futuro). Usam modelos e instrumentos analíticos sofisticadíssimos para antecipar o futuro, mas a natureza da atividade é a mesma da praticada, com mais simplicidade, mística e menor custo, por mães e pais-de-santo, cartomantes e afins, com o nome de previsão, ou pelas ciganas que ainda hoje circulam em cidades do interior, como adivinhação. Revi, nesses últimos dias, dezenas de artigos e edições de revistas especializadas em economia e finanças, publicadas no final de 2007 e primeiras semanas de 2008, que em geral dedicam edições inteiras e/ou cadernos especiais à síntese do ano velho e o que esperar do futuro; também busquei as revistas de moda, fofocas de TV e celebridades - que em geral publicam as visões dos gurus de plantão sobre o ano-novo -, para relembrar o que os modelos e os astros nos diziam sobre o então ano-novo de 2008. Erraram todos! Deve haver uma maneira de entrar com queixa no Procon ou com questão na Justiça. No mínimo, por enganação, mas um bom advogado não teria dificuldade em encontrar outras motivações. Diante dessa constatação, o artigo de final do ano perde seu tema natural e fica sem rumo. Olhando para trás fica claro que a crise não chegou de repente, não caiu do céu sem aviso nem foi obra do acaso. Agora é fácil perceber os inúmeros sinais de fumaça. Faltou-nos competência para enxergá-los e decifrá-los. As vozes isoladas que insinuavam, timidamente, que algo não estava bem, caíam em ouvidos de mercador. A psicologia explica este comportamento geral: ninguém gosta do papel de estraga-prazeres e menos ainda de deixar uma festa de arromba quando ela está no auge. Festas boas só terminam quando acaba a bebida, o cansaço se impõe ou com a chegada da viatura policial, chamada por um vizinho ranzinza. Às vezes é preciso um batalhão de choque, cuja intervenção pode provocar um estrago maior do que deixar a festa acabar naturalmente, torcendo para que um desastre maior não ocorra. O momento é próprio para atirar pedras e apontar culpados, do mercado ao presidente Bush, mas a verdade é que até poucos meses atrás, durante a festa, o mundo todo desfrutava dos benefícios da "exuberância irracional", das facilidades propiciadas pelos mercados financeiros "irresponsáveis" e pela riqueza sem dúvida fictícia produzida pelos especuladores movidos pela cobiça. O acaso tem sempre um papel importante na vida dos homens e das nações, mas raramente sela os "destinos", que são moldados pelas decisões e ações cotidianas em épocas de normalidade e de crise. Quando se examina a história, constata-se que a competência e a capacidade para enxergar os fatos, aproveitar e potencializar oportunidades e resistir e/ou responder às adversidades geradas pelo acaso são muito mais determinantes que a sorte e/ou o azar. Parte do impacto da crise depende de ações e omissões do passado: quanto e como foi feita a lição de casa, qual o nível de competitividade das empresas e produtores em geral, qual a solidez do sistema financeiro e a capacidade sistêmica para absorver choques adversos. É possível listar déficits em todas as áreas que poderiam ter sido evitados. Essas condições estão dadas e não podem ser mudadas de imediato. Melhor olhar o futuro. Mas é preciso reconhecer que o Brasil tem, hoje, condições de pelo menos tentar combater a crise com chances de sucesso - cujo impacto dependerá também da competência do governo para fazer as jogadas certas. É bom alimentar o consumo no período das festas, mas o futuro depende da manutenção dos investimentos, públicos e privados, responsáveis pelos empregos e renda que alimentam o consumo e permitem o pagamento das contas. Num momento de incerteza, quem pode investir e estimular investimentos é o governo, cuja margem de manobra é limitada. Como prometi não especular sobre o futuro e não acredito no determinismo do acaso, melhor pôr um ponto final desejando que as previsões que estão sendo feitas estejam erradas e que o ano-novo, que inicia sob o signo da crise, seja um ano de paz e prosperidade. *Antônio Márcio Buainain é professor do Instituto de Economia da Unicamp. E-mail: buainain@eco.unicamp.br

Antônio Márcio Buainain*, O Estadao de S.Paulo

29 Dezembro 2008 | 00h00

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