Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Crise generalizada derruba salários e vagas no setor de óleo e gás

Consultoria detecta redução de 25% no número de vagas para a área e um recuo médio de 30% nos salários dos gerentes

MARIANA DURÃO, O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2015 | 02h03

RIO - Preços do barril de petróleo em baixa, denúncias de corrupção, aperto financeiro na Petrobrás, escassez de leilões, economia desaquecida, freio em projetos de exploração. O inferno astral da indústria de óleo e gás ronda o mercado de trabalho. Petroleiras e prestadoras de serviços eliminam vagas e a remuneração de técnicos e executivos do setor está em queda.

A consultoria de recrutamento Michael Page detecta uma redução de 25% no número de vagas para a área e um recuo médio de 30% nos salários de média e alta gerência. Presente em 36 países, a Michael Page é especializada no recrutamento de profissionais para cargos de chefia nas principais empresas instaladas no País, inclusive no setor de petróleo e gás natural. A consultoria funciona como intermediária na contratação de executivos, identificando nomes disponíveis no mercado e apresentando aos seus clientes.

Segundo a Michael Page, vários cargos registram uma variação salarial negativa. Um geólogo que chegou a ser contratado por até R$ 48 mil em 2013 agora atinge no máximo R$ 35 mil. Para gerentes de exploração, o valor teto caiu 33%, de R$ 75 mil para R$ 50 mil. O estudo não inclui remuneração variável e benefícios. Os salários se referem a profissionais com experiência de mais de oito anos.

Os valores estão longe de serem baixos, mas são um termômetro da desaceleração do emprego no setor. Segundo Giovanna Dantas, gerente executiva de Oil&Gas da Michael Page, na prática as contratações vêm sendo feitas pelo piso e não pelo teto das posições. A carteira da consultoria revela redução de 25% nas vagas na área, sendo muitas destinadas à substituição e não à ampliação dos quadros.

"Hoje infelizmente não temos no Brasil grandes projetos de exploração, onde se concentra a mão de obra pesada. A Petrobrás não está com caixa para investir e aí você começa a desencadear demissões", diz Giovanna.

Os salários na atividade petroleira no Brasil tiveram um boom no passado recente, com a ascensão do pré-sal e a boa fase de empresas como a HRT e a OGX, cujo controlador Eike Batista ficou famoso por caçar (e roubar) talentos de concorrentes como a Petrobrás. A isca era um pacote de remuneração estratosférico e que acabou inflando os contracheques.

O vento começou a virar no segundo semestre de 2013, quando a OGX comunicou a inviabilidade de campos de petróleo e a Petrobrás, pressionada pela defasagem dos preços dos combustíveis, freou gastos e passou a renegociar contratos. Desde lá a estatal vem reduzindo investimentos, em especial na perfuração de poços. O quadro se agravou com os escândalos revelados na Operação Lava Jato.

Para Vanessa Zehetmeyer, responsável pela área de óleo e gás na Hays, consultoria especializada em recrutamento e seleção para empregos de média e alta gerência, 2015 será o ano de arrumar a casa e apenas fazer contratações estratégicas. "Não vejo forte redução do nível salarial, mas não haverá mais a ascensão de antes. Profissionais acostumados a negociar a troca de empresa com aumento de 40% terão dificuldade."

Em princípio, o movimento sugere um retorno dos salários ao nível anterior ao boom, mas a situação pode piorar. O bloqueio de 23 empresas às licitações da Petrobrás deve contribuir para elevar a oferta de profissionais. A lista incluiu grupos como Queiroz Galvão, OAS, Andrade Gutierrez, Techint, Camargo Corrêa, Mendes Junior e Odebrecht. A incerteza já leva contratados a buscar uma recolocação, mesmo por remuneração menor.

Enxuta após a recuperação judicial a Óleo e Gás Participações (ex-OGX) anunciou no dia 21 um corte de 40% da folha de pagamento, cerca de 35 pessoas.

No setor fala-se também em demissões pela SBM Offshore no País. Acusada de pagar propina a funcionários da Petrobrás, está impedida de fazer novos negócios com a estatal e perdeu o contrato de aluguel de uma plataforma. Em dezembro, a SBM divulgou que faria 1,2 mil cortes no mundo em 2014 e 2015.

O Estado ouviu funcionários de operadoras e fornecedoras que preferiram não se identificar. Os rumores são de demissões em curso na Schlumberger, em especial em Macaé, além de temor de que o mesmo ocorra na Baker Hughes.

A BP Energy cortou pessoal no Brasil após a venda do campo de Polvo, na Bacia de Campos, para a HRT. O negócio foi concluído há um ano e, segundo fontes, depois disso a BP reduziu à metade seu escritório em um prédio na Avenida Atlântica, no Rio, onde ocupava oito andares. "Quase todos os gringos foram embora", diz um ex-funcionário. Procurada, a BP disse que "não se posiciona em relação a estes números (de demissões) por ser uma informação estratégica".

Reflexos. Diante da derrocada do petróleo e das atividades de perfuração, as empresas anunciaram recentemente demissões globais. A Halliburton admitiu ter eliminado 1 mil de 80 mil empregos no fim de 2014. Já a Baker demitirá 7 mil. A Schlumberger reduzirá o quadro global em 7% ou 9 mil vagas.

A executiva da Hays confirma que algumas empresas estão demitindo, seja por projetos postergados ou cancelados. Mas não vê motivo para alarmismo. "Profissionais de nível técnico e de engenharia temem repetir a década de 90, quando muitos foram atuar em outras áreas, como autônomos, taxistas", diz Vanessa, ponderando que a situação é diferente. "Temos o pré-sal, que tem de acontecer, embora a velocidade possa mudar."

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