Crise hídrica e cooperação

No início do século a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação advertiu o mundo para a escassez de água doce, indicando a necessidade de mudança de hábitos e de novas tecnologias para economizá-la. Desde então, quase nada foi feito e hoje acusamos São Pedro e os governos por não terem investido na manutenção e na expansão do sistema para atender à demanda em crescimento. É cômodo atirar pedras, em particular quando os alvos têm mesmo responsabilidade, e no caso não se pode negar que São Pedro não tem sido camarada e que os governos falharam flagrantemente ao apostar nas chuvas de verão, que, parece, não virão. O fato é que somos todos, sociedade e governos, responsáveis.

Antônio Márcio Buainain , O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2015 | 02h03

Ninguém pode usar a desculpa favorita do Palácio e alegar que não sabia. Há 15 meses os principais jornais noticiam o assunto e temos acompanhado, diariamente e com imagens impactantes, o esgotamento das represas. Ainda assim, continuamos a desperdiçar água como se ela não fosse faltar. Infelizmente vai, e todos seremos atingidos, os pobres, do MSCA (Movimento dos Sem Caixa d'Água), mais que a classe média e os ricos, que já estão aumentando a capacidade de armazenagem e contratando a perfuração de poços.

A catástrofe pode ser retardada se a sociedade passar a tratar a água como o líquido precioso que é, economizando cada gota, ainda que com sacrifícios. No entanto, a experiência não autoriza muito otimismo quanto à cooperação espontânea. É conhecido o dilema do prisioneiro, proposto pela teoria dos jogos: 2 suspeitos são detidos com base em evidências insuficientes para condená-los duramente. Se ambos permanecerem em silêncio, receberão uma pena leve (1 ano); se um delatar o outro, e este outro permanecer em silêncio, o que delatou será liberado por falta de provas e o considerado culpado receberá pena de 20 anos; mas, se cada um entregar o outro, ambos receberão penas de 10 anos. Qual o resultado do jogo? Na maioria dos casos, cada um delata o outro e os dois levam penas mais elevadas do que teriam recebido se tivessem cooperado e ficado em silêncio. E qual a lição? A cooperação é debilitada diante da possibilidade de uma boa vantagem individual.

No caso da água, o condomínio se reúne e todos decidem economizá-la. Saímos da reunião aliviados, com elevado espírito de cidadania. Mas o que ocorre na sequência? Tende a prevalecer a lógica individualista dominante numa sociedade que construiu pouco capital social, cultivou o jeitinho como valor positivo e aplica a Lei de Gerson, de levar vantagem em tudo, como modo de vida e de conquista social. A lógica do individualismo funcionaria mais ou menos assim: como meus vizinhos já estão economizando, ninguém vai notar se eu continuar consumindo como antes. Como os vizinhos pensam igual, o consumo não cai. Mas também posso raciocinar da seguinte forma: o que adianta eu economizar, se os meus vizinhos não economizam? O resultado é o mesmo: o consumo não cai.

É claro que essa colocação não faz justiça às muitas famílias que estão racionalizando o uso d'água, independentemente de bônus ou do valor da conta. Mas a experiência de crises de abastecimento revela que, sem coordenação e sem o uso de mecanismos coercitivos, punitivos e de premiação, tende a prevalecer o comportamento oportunista e individualista, que não produz, como preconiza a teoria do mercado, o bem comum. Ao contrário, produz a tragédia dos comuns: o esgotamento do recurso de uso coletivo.

Numa sociedade tão desigual como a brasileira, a tragédia será desigualmente distribuída. É hora de os governos federal, estaduais e municipais levarem mais a sério o assunto. Ainda está em tempo de evitar um colapso de dimensão desconhecida para o País. O ser humano pode sobreviver mais de um mês sem comer, mas morre de sede em no máximo 5 dias. Vale também para a economia: é só imaginar o impacto sobre a produção e o emprego quando a indústria, a agricultura e os negócios em geral começarem a fechar por não terem água para funcionar.

* É professor de economia da Unicamp. E-mail: buainain@eco.unicamp

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