José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão
Imagem Fábio Alves
Colunista
Fábio Alves
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Crise hídrica é um risco de alta para a inflação e de baixa para a atividade econômica

É duro ter de conter o otimismo justamente quando se avista uma luz no fim do túnel, após a pandemia de covid ter causado tanto estrago

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2021 | 04h00

A crise hídrica, que forçou o acionamento das usinas termoelétricas, cuja geração de energia é mais cara, já entrou nos cálculos de economistas e analistas para a inflação de 2021, mas seu impacto sobre o desempenho da atividade econômica no segundo semestre ainda não está sendo estimado.

Por enquanto, o mercado segue no escuro sobre como a crise hídrica vai afetar o fornecimento de energia e, por tabela, os níveis de operação da indústria e de outros setores da economia.

Isso porque, apesar de o governo ter descartado – e os especialistas do setor também consideram a possibilidade baixa – um racionamento de eletricidade, o risco de restrições na oferta de energia continuará pairando enquanto os níveis de chuva permanecerem abaixo do necessário.

Em relação à inflação, muitos analistas já estão trabalhando com a hipótese de que o patamar 2 da bandeira vermelha – o mais caro para a conta de luz dos consumidores – vai vigorar até o fim do ano. Há até o risco de esse valor ter um acréscimo, diante dos custos adicionais de geração.

A crise hídrica contribuiu para que as projeções de inflação em 2021 subissem rapidamente nas últimas semanas. Na mais recente pesquisa Focus, o consenso das estimativas aponta para uma alta de 5,90% do IPCA neste ano.

Quanto ao desempenho da atividade econômica, as recentes previsões ainda refletem um otimismo gerado pelo resultado do PIB do primeiro trimestre deste ano, que cresceu 1,2% ante o último trimestre de 2020, enquanto a projeção do mercado era de alta de 0,70%.

Depois da divulgação do PIB do primeiro trimestre, houve uma rodada de revisões para o resultado de 2021, com as estimativas migrando para um crescimento acima de 5,0%.

Assim, a crise hídrica é um risco de alta para a inflação e de baixa para a atividade econômica. O que os analistas ainda não conseguem mensurar é o quanto uma eventual restrição de oferta de energia poderá afetar o PIB. Ninguém tem noção precisa de como serão ainda os próximos passos na gestão da crise hídrica pelo governo, incluindo as estratégias para equilibrar consumo e oferta de energia.

De imediato, todavia, é possível dizer que a crescente discussão sobre eventual racionamento de energia elétrica poderá afetar, no curto prazo, a confiança de empresários e consumidores, o que pode, por tabela, prejudicar o investimento e o consumo.

Outra dúvida: se o preço da energia subir de forma mais drástica, com valores acrescidos às tarifas do patamar 2 da bandeira vermelha, poderia a indústria, por exemplo, reduzir sua produção em razão de o custo mais elevado da eletricidade desestimular a manutenção dos atuais níveis de operação?

O economista-chefe de um grande fundo de investimento explica que o repasse ou não de custos mais elevados da energia dependerá da elasticidade da demanda ao preço. Se for um bem com demanda mais sensível ao preço, como refrigerante, o repasse será menor. Se for um bem com demanda muito inelástica, isto é, menos sensível, como remédios, o repasse será maior.

“Há um risco relevante de a crise hídrica limitar a melhora da atividade com a reabertura da economia prevista para o segundo semestre, com o avanço da vacinação contra covid”, diz Igor Lima, gestor de ações da Trafalgar Investimentos.

Ele afirma ainda não prever decisão explícita de racionamento por parte do governo, como aconteceu em 2001. “O ajuste poderá acontecer via preços, seja no mercado livre ou nas tarifas de energia, isto é, chegar a um ponto em que o preço da eletricidade poderá ficar tão alto que, para alguns setores da indústria, valerá mais a pena não operar.”

Segundo Lima, as ações de algumas empresas na Bolsa poderão ser afetadas negativamente dependendo de como o governo vai administrar a crise hídrica e a oferta de energia. Além das empresas do próprio setor elétrico, Lima vê também um impacto negativo em indústrias com participação significativa da energia nos custos de produção, como a siderurgia.

Diante das incertezas, é prudente os economistas ainda não levarem em conta as possíveis consequências da crise hídrica sobre o PIB. É duro ter de conter o otimismo justamente quando se avista uma luz no fim do túnel após a pandemia de covid ter causado tanto estrago. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.