Sérgio Castro/Estadão
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Crise hídrica em São Paulo favorece mercado privado de saneamento

Empresas reforçam área comercial para disputar parcerias público-privadas e contratos de concessão do serviço 

MARINA GAZZONI,Stefânia Akel, Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2015 | 02h05

O medo de falta de água pode fomentar os negócios das empresas privadas de saneamento. Enquanto concessionárias como a Sabesp estudam formas de garantir a entrega de água à população no Estado, empresas privadas aproveitam que o tema está em evidência para vender sistemas de reúso de água e outras opções de abastecimento a indústrias e prefeituras.

A água é um insumo importante para a indústria e, sem ela, muitas empresas podem ser forçadas a interromper a produção. "A água representa de 70% a 90% dos componentes usados para produzir cosméticos e produtos de limpeza", explica o empresário Cássio Barros, presidente da Universal Chemical (Unichem), uma das fábricas terceirizadas que atende clientes como Unilever, L'Oréal e Reckitt Benckiser.

A Unichem aproveitou a construção de sua quarta fábrica em um complexo industrial em Sarapuí, no interior de São Paulo, para fazer uma estação de tratamento de efluentes integrada e um sistema de reúso de água - que não existia.

A estação ficará pronta em março e recebeu investimento de R$ 10 milhões, que será pago pela empresa de saneamento Nova Opersan como parte de um contrato de longo prazo para a gestão do serviço.

O sistema de reúso permitirá que a Unichem economize 10 milhões de litros de água por ano, cerca de 15% do seu produto total. Essa água será utilizada na limpeza e nos sanitários da companhia. "Não tivemos falta de água, mas sabemos que isso é um risco. Nas cidades vizinhas, faltou água", disse Barros.

Negócios. Assim como a Unichem, outras empresas têm procurado serviços de reúso de água e alternativas de abastecimento para reduzir sua dependência das concessionárias que as atendem. Os novos contratos podem aumentar a participação dos grupos privados no mercado de saneamento, hoje em cerca de 10% do total, segundo estimativas de mercado.

Em 2014, o número de unidades de tratamento de efluentes administradas pela Nova Opersan dentro das empresas saltou de 28 para 62. Segundo o presidente da companhia, Sergio Werneck Filho, a expansão é reflexo da crise hídrica, da maior conscientização dos empresários e de um incremento na oferta de serviços da companhia. Desde que foi criada pelo fundo P2 Brasil, do Pátria Investimentos, em 2012, a Nova Opersan fez seis aquisições e hoje oferece serviços que vão do projeto ao descarte de efluentes.

"É difícil saber quantos desses projetos saíram do papel por causa da crise hídrica. Mas é fato que as empresas estão entendendo aos poucos que existem soluções que estão a seu alcance. Não é só rezar para chover", disse Werneck.

O Grupo Águas do Brasil, maior entre as empresas privadas do setor, reforçou a equipe comercial e espera que o burburinho sobre a escassez de água em São Paulo abra oportunidades de novos contratos. "Estamos preparados para disputar novas parcerias público-privadas, projetos para empresas e contratos de concessão", disse o diretor do grupo, Carlos Henrique da Cruz Lima. A previsão da Águas do Brasil é faturar R$ 1,5 bilhão este ano, acima dos R$ 1,3 bilhão de 2014.

O cenário, no entanto, não ajuda a todos no setor. As consultorias de serviços de saneamento temem que a crise hídrica afete o caixa das concessionárias e reduza os investimentos em consultoria. "Em situações emergenciais como a atual, as concessionárias priorizam a compra de pacotes com soluções prontas em vez de contratar estudos de consultorias", disse o presidente da Associação Paulista de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento (Apecs), Luiz Pladevall, entidade que reúne 42 associados.

Crédito. As empresas privadas de saneamento já esperam crédito mais escasso no Brasil em 2015, mas algumas delas terão de lidar também com a incerteza provocada pela Operação Lava Jato. Analistas preveem que companhias como Odebrecht Ambiental e CAB Ambiental, que têm controladoras envolvidas nas investigações, podem sentir dificuldades maiores na obtenção de financiamentos.

"Não acredito que o financiamento para elas será zero, mas o crédito provavelmente ficará mais caro", disse o analista de um banco americano. 

As empresas de saneamento também podem ser vendidas para cobrir eventuais rombos financeiros de seus controladores, avalia o economista Frederico Turolla, sócio da Pezco Microanalysis e especialista em infraestrutura. É o caso da Queiroz Participações, holding que coordena as atividades do Grupo Galvão, e que detém 67% da CAB Ambiental. O grupo negocia com a GP Investments a venda de 33% das ações e ainda trabalha com a expectativa de que o negócio seja concluído no primeiro trimestre. A empresa não comentou o assunto.

Executivos do Grupo Odebrecht, que detém 70% dos papéis da Odebrecht Ambiental, já afirmaram que antecipam dificuldades de crédito em 2015 devido ao ajuste fiscal do governo, mas consideram o setor de saneamento uma prioridade. Procurada, a Odebrecht Ambiental não quis se manifestar. 

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