Crise já interfere em licitações da Petrobrás

Baixo valor do petróleo reduz rentabilidade, suspende exploração de Papa Terra e deve adiar obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco

Nicola Pamplona, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

O cancelamento das licitações para o campo de Papa Terra, anunciado anteontem pela Petrobrás, já indica uma mudança de atitude da empresa após a crise financeira. Com óleo ultrapesado e de baixo valor comercial, o campo perde rentabilidade no cenário atual e pode ter sua exploração adiada. Por enquanto, a estatal diz que pretende negociar com fornecedores para tornar viável o projeto. Mesma estratégia será usada nas licitações da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, cujas propostas ficaram acima do que é considerado viável pela empresa. A companhia criou um grupo de trabalho para estudar o melhor sistema de desenvolvimento de Papa Terra nas condições atuais enquanto negocia preços com os vencedores das licitações das duas plataformas: a Modec, da P-61, e o consórcio Quip, da P-63. O projeto é encarado como importante teste para o pré-sal, já que a Petrobrás planejava utilizar um tipo de plataforma inédito no Brasil, chamado Tension Leg Platform (TLP), também em estudo para campos como Tupi, na Bacia de Santos. Papa Terra tem óleo na faixa de 15° API (escala que identifica a qualidade do óleo - os melhores têm mais de 35°) e reservatórios com grande concentração de parafina, o que encarece o projeto. Não há detalhes sobre o custo de produção do campo, mas uma fonte da Petrobrás diz que, com petróleo em torno dos US$ 35, os preços das plataformas teriam de baixar significativamente para justificar o investimento. Segundo as propostas atuais, as duas plataformas sairiam por US$ 3,3 bilhões. Especialistas costumam dizer que, com a queda do preço do petróleo, projetos em novas fronteiras e de óleo pesado serão os primeiros a ser cortados. A própria Petrobrás já afirmou que sua prioridade agora são campos de retorno rápido, citando as reservas do pré-sal do Espírito Santo como exemplo. O executivo consultado pelo Estado, porém, diz que o primeiro objetivo é tentar ajustar o custo dos equipamentos à conjuntura atual. Caso contrário, o projeto pode ser adiado. PRIORIDADE"Os empresários do setor vão ter que entender que o mundo mudou. Não dá mais para querer margem de lucro de tempos atrás", diz a fonte. Em entrevista concedida ao Estado no fim do ano, o diretor de abastecimento da companhia, Paulo Roberto Costa, disse que o esforço para a redução de custos é prioridade e será generalizado. "A Petrobrás vai agir muito forte no sentido de ter um custo compatível com esse preço de petróleo", afirmou. Na sua área, inclusive, deve haver reavaliação das encomendas da Refinaria de Pernambuco, que estão com preços muito superiores ao considerado viável na atual conjuntura. A companhia já licitou quatro grandes pacotes de equipamentos e agora quer chamar os vencedores para discutir os preços. O mercado não considera, porém, a hipótese de cancelamento do projeto.

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