Crise mundial ajuda Brasil a equilibrar contas

O resultado das transações do Brasil com o exterior, em junho, dão uma dimensão da crise econômica que abala não só o País, mas o mundo. Com a retração no nível de atividade econômica, tanto aqui quanto lá fora, os fluxos de comércio e de recursos entre países vem caindo de forma significativa. Essa crise tem ajudado o Brasil a reduzir o déficit nas suas contas externas. Graças a uma forte queda nas importações e nos gastos com serviços, o déficit externo brasileiro acumulado em 12 meses atingiu, em junho, US$ 18,153 bilhões, o menor nível desde setembro de 1996."O problema é que esse ajuste nas contas brasileiras até agora tem se dado pelo baixo crescimento da economia e, persistindo o ambiente de aversão ao risco Brasil, a queda de fluxo de capitais e a retração mundial, provavelmente no segundo semestre será preciso um ajuste maior?, diz o economista Dany Rappaport, da consultoria Tendências. Por conta dessa tendência de queda que vem se verificando nas contas externas, o BC já estuda a possibilidade de rever a sua projeção, de encerrar 2002 com um déficit externo de US$ 19,6 bilhões, para algo próximo a US$ 18 bilhões.Os dados divulgados pelo BC mostram ainda que os investimentos estrangeiros diretos, que servem para financiar o déficit externo, têm um perfil diferente, típico de períodos de maior turbulência. Em vez de dinheiro novo, empresas que têm dívidas com bancos ou com suas matrizes no exterior estão convertendo esse endividamento em participação no capital. Foram essas operações que garantiram o fluxo elevado de investimento direto no mês passado: US$ 1,530 bilhão. Desse total, US$ 505 milhões são novos recursos que ingressaram no País. O resto já estava aqui na forma de empréstimo e foi convertido em investimento direto. Também são essas operações que permitiram ao BC manter sua projeção de um fluxo de investimentos diretos da ordem de US$ 18 bilhões para este ano.Na prática, essa conversão de dívidas em investimentos significa dizer que se o Brasil não está ganhando novos recursos, como vinha ocorrendo nos últimos anos, também não está perdendo. Esse é o fator positivo para o BC, num cenário internacional pouco animador. "Esse é um cenário de volatilidade. Em vez de remeter os recursos, se desfazendo de um fluxo de caixa para comprar dólar com taxa de câmbio desvalorizada, algumas empresas estão preferindo transformar essas dívidas em investimento", explica Altamir Lopes, chefe do Departamento Econômico do BC.Segundo ele, nem mesmo em 1999, ano da mudança no regime cambial, houve um comportamento parecido. A diferença é que, como desta vez a preocupação não é só com o Brasil e muitos grupos internacionais estão tendo prejuízos até mesmo nos Estados Unidos, a ordem é procurar uma forma de perder menos dinheiro. "Como eles acham que as perspectivas do médio prazo do Brasil são boas, é melhor deixar os recursos aqui do que remetê-los. Até porque se eles levassem o dinheiro para fora teriam que aplicar em algum lugar", argumenta Lopes.Outro problema de ter um ajuste externo feito com base num crescimento econômico menor é que, se o nível de atividade aumentar, as contas externas deverão seguir o mesmo caminho. No mês passado especificamente, o déficit externo brasileiro ficou em US$ 1,294 bilhão, o melhor resultado para o mês de junho desde 1994. Essa recuperação, conforme destacou o próprio chefe do Depec, se deu em função de resultados comerciais melhores. As importações caíram quase 30% em comparação com o mesmo mês de 2001: US$ 4,766 bilhões contra US$ 3,404 bilhões. O ganho só não foi maior porque as exportações também se retraíram, em 20%: US$ 5,042 bilhões ante US$ 4,079 bilhões.A conta de serviços e rendas - que registra as receitas e despesas em itens como viagens internacionais, fretes, seguros, remessas de lucros e dividendos e pagamento de juros - também apresenta uma forte contração. Os gastos de turistas brasileiros em viagem ao exterior têm minguado mês a mês. Em junho, essas despesas líquidas, já descontadas as receitas obtidas com turistas estrangeiros no País, somaram US$ 98 milhões, menos da metade dos US$ 226 milhões de junho de 2001. Em julho, até hoje, esses gastos eram de apenas US$ 66 milhões."Acreditava-se numa pequena recuperação na conta de serviços mas com o quadro que vemos, que não é um quadro de recessão mas de baixa atividade, essa queda deve se acentuar", afirma Lopes. Para julho, ele projeta um déficit nas contas externas de US$ 800 milhões. Se isso se confirmar, o déficit acumulado em 12 meses ficará abaixo de US$ 17 bilhões.A contração em junho só não foi maior na conta de serviços e rendas porque a crise acelerou a remessa de lucros e dividendos que estavam acumulados. No mês passado, essas remessas somaram US$ 699 milhões, quase o dobro dos US$ 371 milhões verificados em junho de 2001. Já os gastos com pagamento de juros caíram de US$ 1,245 bilhão para US$ 996 milhão em função da queda na dívida externa.

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