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Crise na Líbia expõe racha na Opep

Irã e Venezuela discordam da proposta saudita de aumentar produção de petróleo; pressão sobre as cotações internacionais do barril continua

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 00h00

O petróleo de Muamar Kadafi vira arma política, dentro e fora da Líbia, e sua cotação volta a explodir. Ontem, rebeldes anunciaram que tomaram poços e dutos no sul do país, enquanto o ditador líbio ameaça a comunidade internacional com o fechamento das torneiras das refinarias.

Fora do país, o governo saudita começou a negociar o abastecimento extra de petróleo para os países que dependiam do fornecimento da Líbia e, assim, acalmar os mercados. Mas os presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e o iraniano Mahmoud Ahmadinejad declaram que são contrários a uma decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de aumentar a produção nesse momento, rachando o cartel.

Com o uso político do petróleo dentro e fora da Líbia, o barril se aproximou dos US$ 120 e a crise no norte da África já afeta a Europa, que recebe 80% do petróleo de Kadafi. A gasolina já deu sinais de subir, refinarias começam a ter dificuldades e empresas aéreas prometem repassar os preços do combustível aos passageiros.

Uma semana depois da eclosão dos conflitos, a Líbia está produzindo menos 25% do seu volume normal. Ontem, Kadafi usou sua declaração à TV estatal para fazer uma ameaça à UE e à comunidade internacional. "Se os cidadãos não vão trabalhar, o abastecimento de petróleo será cortado." Enquanto falava, o preço do barril registrava a alta de 10% na semana e o maior valor em mais de 30 meses.

Foi seguido por declarações de rebeldes de que todos os campos no sul da Líbia já não estavam sob seu controle. A meta dos rebeldes é secar a fonte de renda do governo. No caso da Líbia, 90% da arrecadação do governo vem do petróleo.

Diante do risco de desabastecimento, os sauditas tomaram a iniciativa de negociar um novo fornecimento, uma medida que viria acompanhada de alta na produção do cartel do petróleo. Em Riad, a constatação foi de que até a recuperação da economia mundial estaria ameaçada e um preço "justo" para o barril seria algo entre US$ 70 e US$ 80.

Uma das opções dos sauditas seria aumentar a produção e fornecer diretamente à Europa. Outra medida em estudo seria fechar um acordo com países africanos, como a Nigéria. O petróleo dessa região que iria para a China seria desviado para a Europa. Já o petróleo saudita que iria para Europa seria desviado para a China.

Mas nem todos na Opep concordam com os sauditas. Irã e Venezuela rejeitam a ideia de alta na produção, que faria os preços voltarem abaixo de US$ 100. Caracas e Teerã deixaram claro que são contrários à convocação de uma reunião de emergência do cartel, o que na prática impede qualquer decisão até junho. Ambos insistem que o fornecimento mundial não foi afetado.

Furacão. Não é essa avaliação do presidente da empresa italiana Eni, Paolo Scaroni. Segundo ele, a Líbia produz hoje apenas 400 mil barris por dia, ante uma média de mais de US$ 1,6 milhão antes da crise. O choque de abastecimento seria o maior no mundo desde o furacão Katrina, no Golfo do México, em 2005.

O governo russo também decidiu aproveitar a situação e declarar que estava pronto para suprir a Europa de petróleo, se necessário. Moscou e Bruxelas vem travando há anos uma guerra por causa do abastecimento, enquanto os europeus tentam reduzir sua dependência em relação aos russos. Mas a realidade é que, na Europa, que recebe 80% do petróleo líbio, refinarias como a Saras e Petroplus já encontram dificuldades para substituir o petróleo leve de Trípoli.

Uma opção poderia ser a Nigéria, mas analistas acreditam que o país africano não teria condições de rapidamente aumentar sua produção. A Argélia seria outra opção. Mas já produz acima até da cota estabelecida pela Opep. O petróleo do Azerbaijão também é considerado, mas o custo é mais elevado.

O consumidor também já começa a sofrer o impacto da crise. Segundo a Comissão Europeia, o litro de gasolina ontem estava a 1,28 na bomba, 1,2% acima da taxa na semana passada e perto do recorde para o período de inverno, estabelecido em 2008. Naquele momento, o barril estava a quase US$ 150.

O problema é que o preço de ontem não refletia ainda a alta do barril provocada pela crise na Líbia e é ainda um reflexo da tensão na Argélia, Tunísia e Egito.

A França deve sofrer, já que importa 15% de seu abastecimento da Líbia, onde a empresa Total tem importantes investimentos. "A alta do preço na bomba será inevitável", afirmou Jean-Louis Schilansky, presidente da União Francesa da Indústria Petroleira. A França, portanto, já se prepara para ver o litro chegar a 1,49, superior a junho de 2008.

A alta se soma ao aumento de 16% nos preços de energia na França em 12 meses, com impacto mais acelerado nos últimos dias. Na Espanha, o preço já se equipara ao recorde de dois anos atrás, com apenas oito centavos abaixo do nível mais baixo. A Repsol, que investiu mais de US$ 600 milhões na Líbia, admitiu ontem que já cortou sua produção pela metade no país árabe e que a interrupção terá impacto nas contas da empresa.

Outro impacto para o consumidor será sentido nos preços das passagens aéreas. A finlandesa Finnair já indicou que vai repassar a alta aos passageiros.

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