Crise na Petrobrás piora o cenário para a economia

Investimentos de R$ 100 bilhões previstos pela estatal podem ficar comprometidos, o que puxaria para baixo o crescimento do País

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2014 | 21h16

 A crise na Petrobrás pode prejudicar dois pontos chave da economia brasileira: os investimentos e o setor externo. A piora provocada pela estatal na economia vai se somar ao cenário já ruim para o ano que vem: a economia brasileira deverá crescer pouco - menos de 1% -, e a inflação continuará pressionada, próxima ao teto da meta.

O envolvimento da Petrobrás e grandes construtoras num esquema de corrupção é investigada na Operação Lava Jato. Nas últimas semanas, o agravamento das denúncias tem produzido impactos no andamento dos projetos da companhia. 

A Petrobrás detém uma grande fatia dos investimentos programados para a economia brasileira no ano que vem. A estatal planeja investir cerca de R$ 100 bilhões - a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) deverá ficar entre R$ 800 bilhões e R$ 900 bilhões, segundo estimativa da Tendências Consultoria Integrada. “É difícil mensurar quanto desse investimento pode ser realmente afetado, quanto vai deixar sair do papel, mas deve haver algum impacto”, afirma Alessandra Ribeiro, economista da Tendências.

O estrago da Petrobrás nos investimentos pode ser ainda pior quando se leva em conta o efeito multiplicador. Para cada real gasto, R$ 1,9 é gerado na economia como um todo. “Se estamos falando (de um peso da Petrobrás) de 10%, com o efeito multiplicador, chega ao redor de 20%”, diz a economista.

A melhora do investimento se tornou fundamental para o avanço da economia brasileira. Por muitos anos, o consumo das famílias funcionou como o motor do PIB brasileiro, o que não ocorre mais. Dessa forma, era esperado que o investimento suprisse essa lacuna. 

Por ora, há um desânimo com o crescimento previsto para a economia do País em 2015. A expectativa do relatório Focus, feito pelo Banco Central, estima um crescimento de 0,69%. 

Para o economista-chefe do banco de investimentos BTG Pactual, Eduardo Loyo, a crise da Petrobrás adiciona incerteza na economia, num momento em que se esperava uma melhora. O fim do processo eleitoral e a credibilidade do ajuste na política econômica a ser liderado pelo futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy, eram dois fatores que poderiam trazer confiança. “Há uma quantidade de ruídos e fricções no cenário tanto político quanto empresarial associado a esse caso da Petrobrás. Esse cenário de ruídos e fricções pode acabar tendo sobre o desempenho da atividade, em particular sobre o apetite dos investimentos, efeito semelhante ao que houve ao longo de 2014”, diz.

A possível lentidão dos investimentos da Petrobrás também deve tornar difícil a recuperação consistente do comércio internacional, no médio e longo prazo. Neste ano, o Brasil deverá ter um déficit comercial de petróleo e derivados de cerca de US$ 21,5 bilhões, segundo projeções da consultoria GO Associados. Na balança comercial como um todo, o cenário é desalentador. Entre janeiro e novembro, o déficit acumulado é de US$ 4,22 bilhões - o pior resultado para o período desde 1998. 

“A empresa poderia reduzir o déficit comercial como forma de compensar o ciclo de baixa de commodities que o mundo vive hoje e que não vai ser equacionado no curto prazo”, diz Fábio Silveira, diretor de pesquisas da GO Associados. / COLABORARAM DANIELA AMORIM E VINICIUS NEDER

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