Crise na Petrobrás reduz previsão de PIB

Bancos e consultorias reveem para baixo suas projeções para a economia após anúncio de que a estatal cortará investimentos em 30%

JOSETTE GOULART, Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

08 Fevereiro 2015 | 02h03

Os efeitos da Operação Lava Jato começam a chegar com mais força na economia. O anúncio de que a Petrobrás vai cortar em 30% seus investimentos neste ano levou grandes bancos e consultorias a revisarem suas previsões de crescimento e para a taxa de investimento do País. As contas foram refeitas e mesmo aqueles que estavam mais otimistas, prevendo um pequeno crescimento, já projetam agora uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) no ano.

Na semana passada, os dois maiores bancos privados brasileiros puxaram a fila. Itaú e Bradesco, que acreditavam que o PIB poderia crescer 0,5%, agora projetam queda de 0,5%. A consultoria Tendências está ainda mais pessimista. Previa queda de 0,5%, levando em conta que as empresas envolvidas na Lava Jato reduziriam em 15% os investimentos. Como a Petrobrás vai cortar 30%, a retração deve ser de 0,9%. E essas projeções não levam em conta eventual racionamento de água e de energia.

"Não tínhamos a dimensão de que a Lava Jato seria tão relevante", diz Alessandra Ribeiro, economista da Tendências. A questão é que qualquer mudança nos projetos de investimentos da Petrobrás, a maior empresa do Brasil, o efeito é multiplicador. Sozinha, a Petrobrás é responsável por 10% de tudo o que se investe no País. E se corta, portanto, um determinado investimento, atinge toda a cadeia de fornecimento e também o poder de compra dos trabalhadores. A relação é de R$ 1 para R$ 1,90. Ou seja, se a Petrobrás investe R$ 1,00, a cadeia investe R$ 0,90.

Sem crédito. Além disso, as grandes construtoras do País, quase todas envolvidas na Lava Jato, também têm um peso significativo no PIB. Juntas, seus investimentos chegam a 2,8% do que se produz na economia, segundo a Tendências - mais do que os 2% da Petrobrás. Essas empresas estão temporariamente sem crédito e podem começar a ter de reduzir o ritmo de execução de obras de infraestrutura, como alertou o economista-chefe do Itaú, Ilan Goldfajn, em artigo publicado no Estado na semana passada. Além disso, por causa dessa restrição de caixa, muitos dos negócios dos diferentes setores em que atuam poderão ser vendidos. Até as operações serem concretizadas e o novo investidor assumir o ritmo, o ano já passou.

As três grandes construtoras do País, Andrade Gutierrez, Odebrecht e Camargo Corrêa, perguntadas se já tinham revisto planos de investimentos neste ano, não quiseram comentar o assunto. Mas o Estado apurou que todas colocaram o pé no freio, mesmo aquelas com mais liquidez em caixa.

Investimentos. O consultor Fernando Garcia, da Ex Ante Consultoria, diz que, diante desse cenário, a taxa de investimento do Brasil este ano deve ficar em torno de 17% do PIB, caindo em relação a 2014. Essa taxa, que no mundo econômico é chamada de "formação bruta de capital", em 2009 foi de 18% do PIB. Na década anterior, não ultrapassava 16,5%. O que se almeja é chegar pelo menos aos 20%.

Essa taxa é formada por dois grupos: o da construção civil e o de máquinas e equipamentos. Garcia diz que era natural que em 2015 a taxa na construção civil caísse porque é um ano em que se encerra um ciclo de investimentos em infraestrutura iniciado com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em 2007 e dois anos depois com o Minha Casa, Minha Vida. Mas a Operação Lava Jato deve fazer com que a queda seja maior do que a projetada. Além disso, o corte de investimentos anunciado pela Petrobrás afeta bastante o grupo de máquinas e equipamentos.

O Bradesco estima que a taxa de investimento caia 3% neste ano, influenciada pelo setor de petróleo. O banco Credit Suisse estima queda de 4,4%, já considerando o corte dos investimentos da Petrobrás. Neste ano, não há quem se arrisque a fazer projeção diferente, até pelo efeito da Petrobrás. Mas já há preocupações também mais para a frente. Garcia pondera que, se o governo não apresentar um bom planejamento para o PAC 3, os próximos anos também podem ficar comprometidos.

Em relatório divulgado ontem, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) fez um alerta que joga um pouco mais de pressão sobre a Petrobrás. Para o BIS, diante da queda do preço do petróleo no mercado internacional e do fortalecimento do dólar, petroleiras com elevado endividamento podem enfrentar problemas. E isso vale, segundo o banco, principalmente para as empresas de países emergentes, que aproveitaram o crédito farto e barato dos últimos anos para se financiar. O BIS não cita nenhuma empresa em especial, mas vale lembrar que a Petrobrás é a petroleira mais endividada do mundo.

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